Não posso vê-la, mas sei que ela está aqui, muito perto, resistindo ao tropel do progresso, ao barulho do trânsito,à sanha gananciosa das motosserras.

Não posso enxegar seus matizes de verde, laranja, amarelo, roxo, violeta, sequer o desmaiar das colorações em suas folhagens ressequidas, mas sinto o seu cheiro todo tingido dessas cores imaginadas,recebo na pele a brisa suave que emana  de entre as suas árvores e vem bafejar a cidade.

Foi pela manhã, no telejornal, que fiquei sabendo que segunda-feira, 27 de maio, se comemorou o seu dia. Não sabia que ela tinha um dia no calendário da cidade. Inconsciente dessa data célebre, ela persiste na faina de produzir aromas,  inventar miríades de cores, forjadas entre a sombra e a luz. Todas as manhãs, chova ou faça sol,   abre-se para o concerto das aves que vêm debicar sua primeira refeição, em alegria gorjeada, que aqui não há filas para o bolsa-família, nem engarrafamentos, nem flanelinhas, nem multas por excesso de velocidade.

À noite, ainda que não queira, guarda só para si, como um segredo antigo, o espetáculo da lua e das estrelas, a luzirem por entre suas copas, a iluminarem por sobre o seu tapete de folhas, restos de lixo, pequenos insetos mortos, algum pedaço de jornal tisnado de violência, as vezes um cadáver completo, pronto pra virar notícia.

Mata do Buraquinho, disseram de si os primeiros moradores da cidade, e foi como um batismo, para essa pequena franja de mata atlântica, pouco mais de trezentos hectares, trezentos hectares e é considerada ainda uma das maiores reservas preservadas do país dentro de um habitat urbano.

Mata do buraquinho, dizem de si os jornalistas, os escritores, os pintores, os criminosos, os ladrões de galinha, os advogados.

Mata do Buraquinho, ainda que os carimbos e os selos oficiais digam de si que é Jardim Botânico Benjamin Maranhão.

Mata do Buraquinho, gritam os moleques ainda sujos de infância, às margens do Jaguaribe, mas ela sabe, no âmago das suas raízes, no amálgama das suas vidas, flora, fauna e seiva, ela sabe que é crônica universal de um mundo vegetalprimevo, sem diques nem fronteiras, espraiando-se terra à fora, antes dos mapas, das divisões,antes do arame farpado e dos edifícios de concreto, antes ainda dos calendários e dos dias, demarcados pelo repicar dos sinos.

Antes de ser mata Atlântica, grandioso naco de verdura a esfarelar-se nas moedeiras do progresso,ela sabe que é matauniversal, planetária,  a regurgitar suas sílabas verdes de antiguidade, a bafejar o mar e os muros da cidade.

Mata Atlântica, minha mata, que eu vigio sem ver, na escuridão da noite, apalpando sua grandiosidade por entre as malhas dessa crônica tola.    

 

 

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