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Em outubro de 1973 eu estava em Buenos Aires. A cidade fervilhava politicamente. Mas o ambiente era enganoso e arriscado. Um mês antes ocorrera o sangrento golpe militar no Chile. Era grande o número de exilados chilenos na cidade. Entre eles o clima era de comoção e perplexidade diante da violência irracional e crescente dos militares. Cercada por ditaduras -no Brasil, no Uruguai e no Paraguai- e sob o incerto governo de Juan Perón, a capital argentina parecia uma armadilha, uma arapuca política para qualquer democrata e principalmente para os militantes da esquerda. Os espias e agentes policiais rondavam entre as bandeiras das manifestações e se insinuavam nas assembléias dos estudantes.
A caminho de uma reunião na Faculdade de Medicina passei por uma loja de discos. Dela saía o som de uma voz impressionante que eu nunca tinha ouvido. Majestosa, ampla e bela como os Andes, poderosa como o vôo de um Condor. Perguntei quem era a Orácio, o amigo argentino que me acompanhava.
"-Você não conhece Mercedes Sosa?" -perguntou ele espantado.
Não, não conhecia. A censura brasileira não o permitira. Parado na calçada, com um só sentido funcionando, continuei ouvindo a voz e a canção. Sem muito cuidado conferi quantos pesos tinha no bolso, entrei na loja e comprei o disco. Está comigo até hoje. A canção era Cuando tenga la tierra.
Muita coisa mudou desde então. Todo cambia. Não tanto ou quanto parte daquela geração, que é a minha, sonhou.
Mudou até a emoção daquele encontro inesperado e inesquecível com Mercedes Sosa. Hoje a emoção é maior. Superlativamente maior.

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Comentário de Helô em 4 outubro 2009 às 23:48
Bravo, Henrique!
Mercedes será sempre lembrada pelas vibrantes canções e por sua luta contra injustiças naquele período tão conturbado. Sempre a clamar por liberdade, sua bela voz marcou a nossa geração e jamais será esquecida.
Beijos.
Comentário de Cafu em 5 outubro 2009 às 1:18



Lo que brilla con luz propia
Nadie lo puede apagar
Su brillo puede alcanzar
La oscuridad de otras costas

MERCEDES FOREVER!

Beijos.
Comentário de Henrique Marques Porto em 5 outubro 2009 às 16:28
Helô, Cafu e Nat
Mercedes talvez seja a mais importante artista latino-americana dos últimos 30, quase 40 anos. Cantava para toda a América Latina e para boa parte do mundo. Não era apenas uma intérprete. Era a voz de um sentimento.
Para quem começou a cantar aos 15 anos em 1950 e tinha 74 anos, chama atenção a quantidade de jovens, sobretudo argentinos, que estão comovidos com sua partida. Ela ainda era muito importante e não estava fazendo hora extra como acontece com tantos outros grandes artistas.
beijão
Henrique

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