MEUS OITO ANOS

 

                      Oh! Souvenirs! Printemps! Aurores! (Victor Hugo)

 

 

Oh! que saudades que tenho 

Da aurora da minha vida 

Da minha infância querida 

Que os anos não trazem mais! 

Que amor, que sonhos, que flores 

Naquelas tardes fagueiras 

À sombra das bananeiras 

Debaixo dos laranjais! 

Como são belos os dias 

Do despontar da existência

Respira a alma inocência 

Como perfumes a flor! 

O mar é – lago sereno 

O céu – um manto azulado 

O mundo – um sonho dourado 

A vida – um hino d’amor! 

Que auroras, que sol, que vida 

Que noites de melodia 

Naquela doce alegria 

Naquele ingênuo folgar! 

O céu bordado d’estrelas 

A terra de aromas cheia 

As ondas beijando a areia 

E a lua beijando o mar! 

Oh! dias da minha infância 

Oh! meu céu de primavera 

Que doce a vida não era 

Nessa risonha manhã! 

Em vez das mágoas de agora 

Eu tinha nessas delícias 

De minha mãe as carícias 

E beijos de minha irmã! 

Livre filho das montanhas 

Eu ia bem satisfeito 

Da camisa aberto o peito 

Pés descalços, braços nus!  

Correndo pelas campinas 

À roda das cachoeiras 

Atrás das asas ligeiras 

Das borboletas azuis! 

Naqueles tempos ditosos 

Ia colher as pitangas 

Trepava a tirar as mangas 

Brincava à beira do mar! 

Rezava a Ave-Maria 

Achava o céu sempre lindo 

Adormecia sorrindo 

E despertava a cantar! 

Oh! que saudades que tenho 

Da aurora da minha vida 

Da minha infância querida 

Que os anos não trazem mais! 

Que amor, que sonhos, que flores 

Naquelas tardes fagueiras 

À sombra das bananeiras 

Debaixo dos laranjais!

 

Casimiro de Abreu 

Lisboa – 1857

Exibições: 72

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