Meus amigos, se vocês me permitem, hoje eu não gostaria de falar sobre energia. Eu gostaria de falar sobre um tema que tem gerado acaloradas discussões aqui no portal. Trata-se da despedida do jornalista Mino Carta e de seu auto-imposto silêncio.

Não vou entrar aqui na dimensão política desse ato, mas se me permitem, na sua dimensão humana. Para isto, gostaria de recorrer a um e-mail que recebi de um velho amigo, no final do primeiro ano do Governo Lula, respondendo a uma indagação minha sobre o que ele tinha achado do primeiro ano do Governo do metalúrgico.

Caro Ronaldo,

O Governo Lula terminou o seu primeiro ano. Eu confesso que tenho uma certa dificuldade para escrever sobre esse assunto; um certo constrangimento que me assalta todas as vezes que tenho que tecer comentários sobre algo que diz respeito à minha intimidade. Por várias vezes me senti tentado a escrever sobre essa experiência nova na história da nossa república, porém sempre quedei-me paralisado diante de questões que me soam tão particulares e pessoais.

Fiquei pensando nessa situação sui generis, na qual alguém acostumado a dissecar vários assuntos de menor importância encontra tamanha dificuldade em tocar em um tema de interesse tão geral. A conclusão a que cheguei é que existem determinados temas que nos são caros ao coração, não à analise sensata e equilibrada.

A chegada ao poder de uma esquerda verdadeira – não o simulacro anterior representado pelos tucanos – representou a concretização de um sonho longamente acalentado por várias gerações de brasileiros. Por anos a fio, esse sonho foi embalado pela esperança de que no dia em que isso acontecesse uma nova etapa da história iria começar de forma irreversível. Nesse dia, todas as dores, todas as injustiças, todas as frustrações, todas as desigualdades iriam se acabar e um novo mundo iria começar. Vidas inteiras foram dedicadas a essa causa, sacrifícios enormes foram feitos em seu nome, na certeza de que por mais longa que fosse a caminhada, o objetivo valeria a luta, a faina e o desassossego. Portanto, a vitória de Lula não representou apenas um sucesso eleitoral, mas a redenção de um conjunto de ideais de várias gerações.

A vida é dura e com o passar do tempo vamos aprendendo a lidar com a perda das nossas ilusões; contudo, insistimos em manter algumas delas entrincheiradas em nossos corações, como se fossem o último reduto da nossa humanidade. Estas pequenas esperanças representam a última barreira à rendição a um cinismo perverso; que vitorioso romperia com os derradeiros laços que ainda mantemos com os nossos ideais de um mundo melhor, destruindo, dessa forma, os vestígios de dignidade que procuramos reter diante de um mundo que insiste em nos humilhar diariamente. Sem estas ilusões, estamos fadados a vagar sem rumo e sem referências por um mundo que não é o que nós imaginamos e que cada dia torna-se mais hostil e menos amigável para nós; náufragos de sonhos e esperanças acalentadas em um outro mundo, em um outro tempo.

Em um quadro como este, um operário na presidência tem um significado grandioso, na medida em que nos redime de todos os nossos equívocos históricos, nos compensa por todas as nossas derrotas passadas, representando uma redenção tantas vezes esperada e tantas vezes adiada, incrustando-se no que temos de mais intimo: nossos sonhos e esperanças mais recônditos, nossas frustrações mais secretas.

E não estamos a falar apenas daqueles sentimentos mais coletivos; falamos também daqueles sentimentos individuais, alguns até mesmo mesquinhos e pequenos, que constituem aquilo que vagamente chamamos de alma humana. Não estamos a falar das épicas derrotas coletivas, mas das derrotas pequenas do dia a dia, do indivíduo comum, que clamam por uma vingança redentora que consiga tirar esse gosto amargo da boca; porque a derrota, como se sabe, nunca é doce.

Assim, é este caudal de sentimentos que deságua na vitória de Lula e, mais do que isso, sente-se redimido por ela. Este fato transcende a dimensão política, incorporando dimensões pessoais profundas. E isto me causa um certo pudor, na medida em que avaliar o desempenho de uma esperança de tamanha dimensão não é uma tarefa simples, tampouco me é indiferente; pelo simples fato de que também as minhas esperanças engordam esse caudal.

Depositário de tamanhas expectativas, o Governo Lula não pode ser avaliado simplesmente a partir de uma ótica econômica. Reduzir as análises a esta dimensão impede a compreensão das conseqüências de determinados acontecimentos. Neste sentido, não se deve estranhar um certo comportamento apaixonado das análises do desempenho do primeiro ano do Governo Lula. Em muitas destas análises está presente uma mágoa de paixões traídas, perfeitamente aplicável e até mesmo aceitável. Afinal, estamos falando de questões que bordejam as raias da intimidade, dos desejos mais sinceros, dos sentimentos mais castos e verdadeiros; portanto, daqueles cuja traição nos dói mais.

Por isso, há um quê de bolero no ar; no qual a esquerda traída chora as suas mágoas na mesa de um bar, enquanto a direita comemora os seus ganhos financeiros nas mesas de negócios.

Sendo assim, refugio-me no meu pudor para não comentar fatos tão constrangedores. Os sonhos merecem sempre respeito, mesmo quando traídos.

Um abraço de seu velho amigo que ainda não perdeu de toda a esperança.


Eu penso que muitos dos senhores discordariam da visão do meu amigo. É possível que hoje até ele mesmo tenha uma visão diferente, ou não. Porém, o que ficou desse pequeno desabafo é que eu deveria aprender a separar as críticas sinceras que vinham de velhos companheiros de caminhada, que sempre estiveram ao meu lado, dos falsos elogios que vinham daqueles que nunca estiveram. Se não pelo respeito ao passado dessas pessoas, ao menos pelo respeito ao meu próprio passado. Se não pelo respeito ao que fizemos juntos, ao menos pelo respeito ao que sonhamos juntos.

E, meus amigos, um sonho não tem preço. Mesmo quando traído, não deixa de ser um sonho.

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Comentário de Oswaldo Conti-Bosso em 11 fevereiro 2009 às 4:07
Caro Ronaldo,

Vejo que apesar da decepção com o governo Lula, ele com certeza tem (deve ter) sua estratégia, como ele mesmo disse, "O silêncio vale ouro", portanto não vejo como desilusões perdidas, desilusões sim, mas como tática dentro da estratégia.

A mim despertou e saltou aos olhos seu texto em 19-12-09, e no mesmo dia, criei um post sobre o escrito dele e para falar também de meu guru, Raimundo Faoro:
Que diria Raymundo Faoro desta hora brasileira?

Então, escrevi a certa altura: Li e reli o texto do Mino Carta, sobre Faoro e o novo livro, A Democracia Traída, que ainda não li, mas me veio a dúvida, estaria ele (pareceu-me) jogando a toalha?

Um mês depois, nova revelação, via amigo PHA: Faoro sobre Lula, em 2003:
não vai dar em nada (19/janeiro/2009 16:16, texto completo no link do post, acima).

Confesso que não foi de toda surpresa para mim, pois estava acompanhando e tive uma percepção que tinha algo a mais no ar, relembando vagamente agora, o acumulo de desilusões vem de longo, por exeml, quando Lula chamou o Nelson Jobim na crise "aéria da mídia em 2007, Mino gritou na época: "Chama seu povo, Lula". Lula está mais para conciliação do que para confronto. Não faõ juízo de valor.

Embora tenho muitos pontos concordantes com Mino Carta em analises econômicas do governo Lula, além da admiração, mesmo assim, sou otimista, vejo que o Brasil na próxima década ou duas, vejo sainda dessa crise de forma soberano.

É que eu não tenho os setenta e poucos anos do Mino Carta, acho que influência na analise de longo prazo hoje, apesar que a oportunidade as vezes é única. É o que parece ser o caso, hoje.
Mas o respeito a ele, é o mínimo.

Sds,


Sds,
Comentário de Oswaldo Conti-Bosso em 16 fevereiro 2009 às 18:54

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