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Moradores de Barcarena continuam luta contra Hydro e Governo do Pará

Segue firme a luta dos moradores de Barcarena para que a empresa Hydro Alunorte e o Governo do Pará reparem os prejuízos do vazamento de bauxita na água. Sob o céu com neblina que se misturava com a fumaça da fábrica, e com o cântico de "O povo unido jamais será vencido" embalando, representantes de diversas comunidades protestaram na manhã de ontem (28), na entrada da empresa.

A população passa por problemas na pele, respiração e de estômago causados pela poluição da água e do ar, decorrente da produção da Hydro - especialmente devido a um vazamento de bauxita recente que poluiu a água local. Poços artesianos das proximidades estão todos afetados pelos dejetos, que dão um tom avermelhado à água e provocam esses transtornos de saúde. As comunidades já vêm fazendo denúncias desde o último dia 17, mas, de acordo com elas, até agora nada significante foi feito. "A Hydro não nos recebe para dialogar e tudo que fez foi paliativo. Vivemos uma situação lamentavelmente constrangedora e também não vemos resposta efetiva do Governo do Estado nem do Ministério Público do Estado", afirma Antônio Gomes, 63 anos, representante da comunidade Bom Futuro.

Por isso, na manhã desta quarta-feira os moradores decidiram acampar na entrada da empresa, como forma de chamar atenção à causa. "Queremos mostrar para as autoridades federais a gravidade desse crime que estamos presenciando e pedir aos órgãos de fiscalização e à Justiça que haja intervenção, embargo das atividades da Hydro e recuperação da reserva ecológica", explicou o advogado da Associação Indígena e Quilombola da Amazônia (Caiqama),Ismael Moraes.

Durante a manhã, viaturas de órgãos de fiscalização estiveram no parque industrial da Alunorte para vistoria, como a Perícia Criminal e a Secretaria de Estado de Saúde Pública, sendo que esta foi vaiada pelos manifestantes ao adentrar no local, por representar o Governo do Estado. "As autoridades estaduais são culpadas pelo crime ambiental também. Por que não agem? O Governo do Pará e o ex-secretário do Meio Ambiente Luiz Fernandes [atual secretário da Segurança Pública] estão organizados para acobertar essas fraudes da Hydro", denuncia o advogado Ismael Moraes.

Os moradores das comunidades vizinhas a Hydro temem que haja um desastre como houve em Mariana (MG), em 2015, quando uma barragem de rejeitos da Samarco rompeu e deixou submerso em lama um território de 650 quilômetros entre Minas Gerais e Espírito Santo. A comunidade estima que apenas cerca de mil metros separem suas casas da barragem da Hydro, então, caso o desastre aconteça, as consequências serão drásticas.

PESADELO CONSTANTE

"Não consigo nem dormir pensando que a qualquer momento tudo pode piorar e a gente tenha que sair daqui às pressas e sem rumo", o relato comovente da dona de casa Ivanilza Reis, 46 anos, escancara a realidade complicada que vivem os moradores de Barcarena. Ela, por exemplo, vive na comunidade Itacupé e diz que os efeitos da atividade de mineração já vêm sendo sentidos há muitos anos, cada vez mais intensos. "Não foi só pelo vazamento. Eu mesma já tenho coceiras no corpo há bastante tempo e os médicos já disseram que era por causa da poluição. Meu cabelo e minhas unhas já caíram antes. Às vezes, fica tão ruim que mal consigo me vestir", relata. A dona de casa aponta que até mesmo as frutas que plantava não estão mais do mesmo jeito e recorda o quanto que a qualidade de vida diminuiu depois da implantação da refinaria. "Antigamente, era muito bom de se viver aqui. Hoje, a pupunha, o cupuaçu, já estão tudo nascendo estragados. Essa poluição afeta tudo e se essa água contaminada transbordar, não sei o que vai ser da nossa vida", observou.

A quantidade de pessoas que apareciam demonstrando problemas era incalculável. Muitas delas estavam com marcas pelo corpo, com vergonha de andar com roupas que não cobrissem as cicatrizes.  Além das coceiras intensas, muitos habitantes de Barcarena reclamam de sintomas como diarreia, enjoo e tontura, que atingem de crianças a idosos. A técnica de logística Ediane Oliveira, 30, preocupa-se com a filha de apenas sete meses de idade, Aila Sophia. "Agora, a gente tem gasto altíssimo para comprar água mineral direto, que essa água está sem condições e não temos nem de onde tirar outro abastecimento", disse.

Diante do cenário, a Hydro Alunorte é obrigada não apenas a reparar os erros, mas também a dar assistência total aos atingidos. No entanto, os moradores se queixam de que eles só estão fornecendo um novo abastecimento de água que é insuficiente e precário. De acordo com o soldador Rubens Campos, 29, a água do carro-pipa que fornecem vem suja, oleosa e com ferrugem, já a água mineral somente dão dois galões a cada cinco dias. "Para uma família grande, só isso de água mineral não dá e a água do carro-pipa é a mesma coisa que nada. Os efeitos de tudo isso já estamos sentindo, os animais estão adoecendo, a gente também, até a vegetação", avaliou o soldador. De ajuda do Governo do Estado, nem sinal ainda, segundo o morador.

PROMESSAS FURADAS

Com todos esses pesares, a população se sente traída pela empresa e pelo Governo do Estado, que não mantiveram a palavra que deram ao iniciar as atividades no município. "Foram feitas várias promessas quando vieram com a proposta de instalar a Hydro Alunorte  aqui. Disseram que iam gerar emprego e olha o quanto de pessoas desempregadas. Ainda esperamos o Bom Futuro da comunidade", disse o morador Antônio Gomes, em referência ao nome da própria comunidade. Esse mesmo local tem situação ainda mais triste que os demais, porque é onde foram enterradas as carcaças dos bois que sofreram naufrágio em 2015. A recuperação ambiental desse desastre ainda nem foi obtida integralmente e agora já há a iminência de mais um, com o vazamento da Hydro.

Além de não ter gerado tantos empregos para os moradores locais como era de se esperar, as comunidades argumentam que muitos trabalhos foram afetados por causa da queda no turismo devido à poluição do meio ambiente. Com 61 anos, a ambulante Lucenilda Borges está desesperada e sem amparo. Ela ganhou a vida toda vendendo peixe e camarão nas praias de Barcarena, mas agora, além de ter dificuldades de trabalhar por causa das coceiras na pele, os consumidores diminuíram. "Quase ninguém vai mais para as praias com a imagem que Barcarena vêm adquirindo nos últimos anos e quem vai não quer comprar frutos do mar por causa da contaminação da água. Se antes eu ganhava R$ 100 por dia, hoje eu mal ganho R$ 30", contou. Agora, ela precisa se desdobrar para sobreviver.

TRABALHADORES INSATISFEITOS

Nem mesmo os próprios funcionários da Hydro Alunorte estão contentes com a empresa. Na mesma manhã, a categoria promoveu protesto que se mesclou à causa dos moradores. Os trabalhadores, no entanto, reclamavam do desrespeito aos acordos trabalhistas efetuados. Segundo o engenheiro ambiental Manoel Paiva, secretário geral do Sindicato dos Químicos de Barcarena, há um programa de participação dos resultados estabelecido por lei que determina que todos os funcionários diretos da empresa devem receber porcentagem referente ao lucro obtido no ano. No caso da Hydro Alunorte, mais de 2 mil colaboradores são impactados pelo programa. "O que é estipulado é que empresa e sindicato devem negociar essa porcentagem, mas, desta vez, a Hydro acabou com as negociações e decidiu de forma arbitrária e egoísta essa porcentagem, sem ter o diálogo com a categoria", informou. Tanto no protesto das comunidades quanto no dos funcionários em nenhum momento foi interditada a passagem de veículos nem houve alguma resposta da Hydro no local.

Para entender

- A Alunorte já atua em Barcarena desde 1995 com o uso da bauxita para produção de alumina (ou óxido de alumínio). Antes, funcionava sob operação da antiga estatal Companhia Vale do Rio Doce e depois foi comprada pela Hydro.

- A Hydro tem capital do governo norueguês e a Hydro Alunorte é a maior refinaria de alumina do mundo.

- Vale lembrar que em 2009 o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) já tinha multado a Hydro Alunorte, em Barcarena, pelo mesmo motivo que vem sendo acusada atualmente: vazamento de rejeitos. As multas somam 17,1 milhões de reais e não foram pagas até hoje, porque a empresa recorreu e os processos ainda tramitam na Justiça.

Como aconteceu

17/02 - Depois das fortes chuvas que houve nos dias 16 e 17 de fevereiro, o Ministério Público do Pará (MPPA) recebeu denúncia de moradores de Barcarena de que havia um vazamento de bauxita, rocha usada para produção de alumina, fruto das operações da Hydro Alunorte.

18/02 - Fiscais da Secretaria de Meio Ambiente do Estado (Sesma) realizaram inspeção na mineradora e não constataram vazamento nem transbordamento de dejetos, mas identificou falhas no sistema de drenagem pluvial e notificou a empresa. O Instituto Evandro Chagas (IEC) foi acionado pelo MPPA e pelo Ministério Público Federal (MPF) para analisar a situação e, por isso, coletou amostras das águas. Até o momento, a Hydro negava que houvesse vazamento.

21/02 - A Câmara dos Deputados criou comissão externa para investigar o caso e o Ministério do Meio Ambiente disponibilizou o Núcleo de Prevenção e Atendimentos a Emergências Ambientais do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para acompanhar as investigações.

22/02 - O Instituto Evandro Chagas (IEC) divulgou o resultado da análise das águas, que confirmou a contaminação e mostrou que há um duto clandestino que levava os resíduos da empresa ao meio ambiente sem tratamento.

23/02 - O ministro da Integração Nacional Helder Barbalho, além de deputados estaduais e federais, estiveram em Barcarena para avaliar a situação. Helder determinou a distribuição de 15 mil galeões de água potável às comunidades.

25/02 - A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PA) informou, também, que pedirá a intervenção na Semas e a prisão dos fiscais responsáveis pela avaliação da contaminação. No mesmo dia, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública pediram embargo de uma das bacias de rejeitos da Hydro Alunorte. A medida se deu porque a bacia DRS2 estava funcionando sem licença ambiental para operação.

26/02 - O ministro do Meio Ambiente José Sarney Filho pressionou o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para aplicar embargo e multas pesadas às atividades da refinaria na região.

27/02 - Técnicos do Ibama e do IEC visitaram a Hydro Alunorte para nova avaliação.

28/02 - Comissão de Meio Ambiente e Mineração de deputados da Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) se reuniram com representantes da Hydro para fazer vistoria. Enquanto isso, o deputado federal Edmilson Rodrigues anunciou em plenário da Câmara de Deputados, em Brasília, que vai entrar com pedido de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar os crimes ambientais em Barcarena.



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