Morreu neste sábado (16) aos 90 anos o médico psiquiatra José Angelo Gaiarsa. Segundo sua neta Laura, Gaiarsa morreu por volta das 5h enquanto dormia. A família ainda não sabe a causa da morte.

O velório está ocorrendo desde as 14h no cemitério São Paulo. O corpo será enterrado no cemitério da Assunção, em Santo André, onde o psiquiatra nasceu, neste domingo (17) às 8h. Gaiarsa era divorciado e deixa três filhos e oito netos.

Nascido em 19 de agosto de 1920, Gaiarsa sempre será lembrado como um iconoclasta, conforme disse seu filho Flávio à Folha.

Zeca, como era conhecido pelos amigos, falava muito contra a estrutura familiar clássica, segundo ele a maior geradora de neuroses nos indivíduos, e apoiava abertamente, em redes de rádio e TV, a liberdade feminina já na década de 1960.

Foi um o primeiro psquiatra a introduzir a psicologia analítica de Carl Gustav Jung e os estudos sobre sexualidade de Wilhelm Reich.

Inspirado por esses estudiosos, Gaiarsa ia à TV pregar contra a virgindade e a favor do comportamento sexual livre.

"Ele despertava o ódio da sociedade ao dizer que a família não era a melhor estrutura social. Dizia que no seio da família é onde as pessoas mais se deformam. Eu tinha 9 anos e me lembro de as pessoas que ironicamente defendiam a moral e os costumes da época telefonarem para nossa casa falando palavrões", conta o Flávio Gaiarsa, 61, que seguiu a carreira do pai.

Segundo ele, muitas mulheres da época se sentiram livres para sair de casa dos pais e viverem sozinhas após ouvir os ensinamentos do psiquiatra.

"Elas viam um homem mais velho e que falava desses assuntos de maneira clara na TV e se emancipavam. Eu e meus irmãos achávamos o máximo que nosso pai fizesse aquela bagunça. Morreu aos 90 anos sem perder o gosto e a capacidade de aprendizado."

VIDA

Clinicou por mais de 50 anos, publicou 30 livros e por dez anos teve um quadro de televisão em que esclarecia dúvidas dos telespectadores.

Vindo de Santo André, de uma família de seis irmãos e irmãs, entrou na Faculdade de Medicina da USP em primeiro lugar, posição que manteve por toda a graduação.

Casou-se com Maria Luiza Martins Gaiarsa, cirurgiã e colega de turma, com quem teve quatro filhos homens: Flávio, Marcos (já morto), Paulo e Dácio. Separou-se em uma época em que o rompimento das relações matrimoniais era controverso.

Foi introdutor de Carl Gustave Jung e William Reich no Brasil, psicanalistas ideólogos da revolução sexual.

Seu primeiro livro, "A Juventude Diante do Sexo", veio a partir de um artigo de capa para a revista "Realidade" sobre o comportamento sexual da juventude que passava por profundas modificações.

Seu último livro publicado foi o "Meio século de Psicoterapia". Atualmente, estava revisando para reedição a obra "Respiração, Angústia e Renascimento".

Seu último prêmio foi do International Academy of Child Brain Development,do Institute for the Achievent of Human Potential, decorrente de um trabalho recém concluído sobre o desenvolvimento físico, cerebral e emocional das crianças.

Biografia por ele mesmo

Nasci em 1920 e tive a sorte – e o azar! - de viver quase todo o século XX, com sua centena de conflitos armados, suas duas guerras quase mundiais, a maior crise econômica já acontecida (1924-30), suas quatro ditaduras maiores (Hitler, Mussolini, Stalin, Mao-Tsé), três revoluções maiores (nazi-fascismo e os dois comunismos - o russo e o chinês), a explosão populacional, o nascimento do rádio, de Hollywood, da aviação, do automóvel, da teoria (e da bomba) atômica, do motor a jato, do Radar, da Penicilina, da guerra fria, da “janela para o Mundo” (a TV), dos primeiros passos – digo, foguetes – em direção ao espaço sideral, do terrorismo mundial.

Até ai, como é fácil perceber, temos a sempre triste historia da Humanidade como foi desde sempre, só que acontecendo cada vês mais depressa!

Mas nos últimos 30 anos (eu com 50) ocorreu uma revolução maior do que todas as outras somadas: o uso intensivo das radiações eletro-magnéticas na comunicação, a difusão vertiginosa da TV pelo mundo (desde a venda dos aparelhos, do número dos espectadores, até do número de horas frente a ela). Surgiram os computadores, a Internet e os telefones celulares cada vês mais multifuncionais.

Nunca a Humanidade esteve tão dividida e tão solidarizada!

No entanto, até meus 30 ou 40 anos (1950/60), quase todos à minha volta diziam e se comportavam como se as coisas estivessem indo muito bem, obrigado, tudo em paz, tudo normal – tudo como devia ser… Poucos entendiam Sartre: se, nesse mundo psicótico você não se sentir angustiado (assustado), você é alienado.

Não obstante a maré montante da informação, até antes da difusão da TV, a imensa maioria das pessoas sabia bem pouco de tudo o que as cercava, e menos ainda das maquinações dos poderosos de alto nível que estavam moldando - a seu modo - a Historia, isto é, o cotidiano de cada um e de todos nós.

Eu era um menino bonito (todas as visitas diziam!), vivo, interessado, inteligente e assustado, mas não tinha consciência de nada disso. Lembro muito vagamente que as andanças e as falas dos adultos me pereciam muito estranhas – como se todos vivessem em um palco (era a primeira e a mais importante manifestação de minha inteligência – ou de minha percepção!).

Meio século depois, seguindo a custo o que meus olhos me mostravam, me fiz um especialista em comunicação não-verbal. Comecei a compreender que as falas têm bem pouco a ver com os personagens deveras teatrais que podem ser vistos quando você corta o áudio. Ai você só vê o surdo-mudo que se agita em esforços espasmódicos pra se fazer entender - caras, gestos, atitudes, tons de voz. Poucos prestam atenção a ele – ou a ela (à comunicação facial e corporal).

A Psicologia ignora esta verdade central: o que eu menos sei de mim (minha aparência, minhas caras e gestos…) é tudo o que os outros vêm de mim. A imagem que faço de mim em meu íntimo, tem pouco e nada a ver com minhas expressões faciais, corporais, vocais (que o outro está percebendo o tempo todo)…

Por isso sou inteligente. Aprendi com meu medo. O que as pessoas dizem (consciência) tem pouco a ver com o que mostram (inconsciente). Freud disse a mesma coisa, mas como ele não olhava para as pessoas (que estavam lá, no divã) ele não via o que elas estavam mostrando, e então inventou o famoso Inconsciente para explicar o que estava na cara, nos modos, nas atitudes…

Meu medo – depois rebatizado de ansiedade e/ou de angústia me acompanhou, ondulando, até meus 60 anos – porque o que eu via nas pessoas não casava bem com o que elas diziam e a convenção universal era que as palavras eram as verdades sinceras e realista (imaginem!) – e que as caras e modos eram impressão minha, impressão falsa, moldadas pelos meu desejos e temores secretos. Isto é, a mentira não estava nas expressões corporais dos outros, mas nos meus enigmáticos desejos e temores inconscientes!

Custei muito para ver as coisas ao contrário. Preferia, ao em vez de me sentir sozinho, acreditar que o neurótico era eu e que minha angústia era “culpa” de meu passado, de minha família, de maus tratos sofridos na infância - dos quais, no entanto, não tinha lembrança nenhuma, por mais que os buscasse. Devia tê-los reprimido…

Minha ignorância ou meu medo – tinha bem pouco de original. Era o que diziam todas as escolas de psicoterapia, durante quase todo o século XX, seguindo a Psicanálise.

Fui psicoterapêuta (era médico, também) até que bem sucedido. Oito a 10 horas de consultório por dia durante meio século. Estudando e praticando quase todas as muitas formas e teorias sobre Psicoterapia, das quais o século XX foi pródigo.
Dentre meus mestres, dos que mais me ajudaram, lembro Wilhelm Stekel, Mestre Jung (Carl Gustav) e Mestre Reich (Wilhelm). O primeiro me ensinou liberdade na interpretação das manifestações do paciente (e em mim). Jung me ensinou a acreditar em minhas fantasias, muitas vezes mais reais do que a realidade conforme era dita e vivida pelos circunstantes. Reich me deu coragem para acreditar no que eu via nos outros, e para começar a creditar que os outros eram todos mentirosos no que diziam acreditar ou pensar, mentirosos mesmo sem querer e até sem saber. O que diziam combinava pouco e mal com suas expressões não verbais (e com os noticiários internacionais). Mentirosos em boa fé! Será que isso pode existir?

Outra lição que me desligou do que “todo mundo diz que é” foi quanto ouvi sobre família nestas centenas de milhares de horas. Psicoterapia quer dizer ouvir queixas familiares, ouvir – e ver - todos os malefícios produzidos em família e pela família. No entanto, em público e em palavras, a vetusta instituição continuava e continua praticamente adorada – tida como Perfeita e Sagrada.

Cada vez eu compreendia melhor meu medo (minha angústia, minha ansiedade crônica). Eu não conseguia me iludir tão bem quanto a maioria das pessoas (meu olhar não deixava!) e aos poucos ia descobrindo todas as falsidades do mundo próximo e todos os perigos e ameaças reais do grande mundo que era meu ecossistema. Meu medo neurótico era muito mais verdadeiro do que minha sabedoria de pessoa normal, de cidadão bem adaptado - até bem sucedido!

Na verdade, minha ansiedade neurótica era o medo mais do que justificado sentido pelo meu animal saudável. Ele sentia, bem melhor do que eu, o quanto vivíamos (eu e ele!) em um mundo perigoso, agressivo, explorador e implacável. Sobretudo, um mundo falso no qual quase nada era como se dizia que era.

Por isso me tornei alto especialista em ansiedade e hoje posso falar sobre ela de modo simples e recomendar medidas, também bastante simples para remedia-la – e essa será a segunda e última parte de minha biografia.

Será, ainda, introdução para a minha galeria de arte na qual consegui entrever – e posso mostrar para todos – tudo quanto disse até aqui sobre minha vida, meu medo e minha angústia (são sinônimos – não esqueça), que de muitos modos é semelhante à de quase todos.

Os artistas a sentiram tanto quanto eu – e você. Querendo ou sem querer, sabendo ou sem saber, a pintaram – e como!

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Comentário de Sérgio Troncoso em 16 outubro 2010 às 23:39
Os Dez Mandamentos, se quisermos continuar habitando este planeta abençoado.
1- Resgatar o principio da re-ligação: todos os seres, especialmente os vivos, são interdependentes e expressão da vitalidade do Todo que é o sistema Terra.

2- Reconhecer que a Terra é finita, um sistema fechado com recursos limitados.

3- Entender que a sustentabilidade global depende do respeito aos ciclos naturais. A fim de que a natureza tenha tempo de regenerar-se é preciso consumir com racionalidade os seus recursos.

4- Respeitar a biodiversidade que garante a rede da vida como um todo, pois propicia a cooperação de todos em vista da sobrevivência comum.

5- Valorizar as diferenças culturais que mostram a versatilidade da essência humana e nos enriquecem, pois tudo no humano é complementar.

6- Exigir que a ciência se faça com consciência e seja submetida a critérios éticos para que suas conquistas beneficiem mais à vida do que ao mercado.

7- Superar o pensamento único da ciência e valorizar os saberes cotidianos das culturas antigas e do mundo agrário porque auxiliam a busca de soluções globais.

8- Valorizar as virtuosidades contidas do pequeno e do que está embaixo pois nelas podem estar contidas soluções globais, bem explicadas pelo efeito borboleta.

9- Dar centralidade a equidade e ao bem comum, pois as conquistas humanas devem beneficiar a todos e não como atualmente, apenas 18 % da humanidade.

10- O mais importante: resgatar os direitos do coração, os afetos e a razão cordial que foram relegados pelo modelo racionalista. (Revista “Alternativa” nº 4 jul/out./07 sem citação de autoria)

EM SUMA:

“Se alguém lhe sorri, sorria.
Acene, se alguém lhe acena.
Escute, se alguém lhe fala.
Se alguém lhe fala, responda.
Não deixe cartas em branco.
Responda os telefonemas.
Atenda a quem bate à porta.
Receba quem o procura.

Que o mundo que o rodeia penetre seu coração;
Que as flores lhe digam coisas,
As aves em si confiem,
Que as crianças o busquem,
E que cada homem o veja
Como se vê um irmão

E tanto amor se irradie
A sua volta e de volta
Inunde seu coração
Que cada um de seus dias,
Como se fosse este dia,
Reconstitua a alegria
Do dia da criação.

(Benedicto Ferri de Barros)
por José Ângelo Gaiarsa
Comentário de José Safrany Filho em 17 outubro 2010 às 0:27
deixou-nos ensinamentos valiosos que devemos aprender, avaliar e aplicar no cotidiano. Principalmente seu ensinamento sobre produzir para a satisfação das necessidades humanas e não para a satisfação do mercado, é, a meu ver, a mais contundente, principalmente porque vivemos num mundo dominado e cegado pela corrida do vencer de toda maneira, do egoísmo, do personalismo e do engodo. Gaiarsa, a este respeito, foi exemplar porque não guardou para si os descobrimentos que fez ao longo da vida de grande pensador e questionador até de si mesmo, mais, até, do grande cientista e professor que foi. Sua profissão de fé na solidariedade humana verdadeira (não a filantrópica), no entendimento, no intercâmbio pessoal e social, na valorização da vida, do meio ambiente, do equilíbreo natural e, principalmente, no amor ao próximo, são exemplares. Deixa um grande trabalho que merece ser estudado, aprendido e continuado.

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