NÃO COMA A MARGARIDA

          Ainda aos treze anos, ela já tinha um gracioso corpo de miss e uma disposição de atleta maratonista. E era linda. Conheci-a quando seu pai, grande amigo, trouxe-a para cuidar dos dentes. Foi minha cliente durante vários anos, até eu parar com a odontologia. Apesar da diferença de idade, desenvolvemos uma sadia amizade. Quando garotinha, dos treze para quatorze anos, ela ganhou uma bicicleta Phillips, das antigas, de pneu fino, que seu pai tinha guardada no sótão.

         Ela montava nessa bicicleta e se esbaldava. Zanzava para toda a pequena cidade de pouco mais que vinte mil habitantes. E juntava-se com a molecada, fazia trilhas, corridas e piqueniques. Não deu outra. Ficou grávida e pariu aos quatorze anos. Nunca contou quem era o pai, mas também ninguem quis saber. A familia acolheu-a e ajudou com a criança, linda nenenzinha que recebeu o nome “Daisy”. Não sei se ela sabia que daisy e margarida eram a mesma coisa. Talvez, ela simplesmente tenha assistido àquele filme em que Doris Day canta “Don't eat the daisys”. Margarida continuou serelepe e lépida em sua bicicleta, mas usava-a também para ir à escola. Seguindo um conselho meu, formou-se e quando sua filhinha atingiu o ano escolar, ela já era enfermeira padrão em uma das unidades de saude da cidade. Foi quando trocou a bicicleta por uma moto Honda, de 125 cilindradas.

          A menina Daisy, cresceu e aos quatorze anos, era exuberantemente bonita e sapeca tal e qual o fora a mãe. Resultado: virou mãe também e assim, antes dos trinta, com vinte e nove, Margarda já era avó. Outra garotinha. Daisy era fã da Audrey Hepburn e batizou a filha com o nome de Desirée. Tudo bem, pensou todo mundo. Talvez ela encontre o seu Napoleão.

Já há cerca de nove anos não me encontro com Margarida. Desde que parei com a profissão. Hoje, parado na porta da padaria, vi-a descer de uma enorme moto Hyamaha, daquelas com a qual se praticam moto-cross. Só a reconheci quando se aproximou e tirou o capacete. Ela estava vestida com um macacão tipico de motoqueiro da tal prática de corrida. Foi uma festa o encontro e para mim, motivo de muita alegria. Contei da minha admiração pelo tamanho da moto e começamos a por em dia as novidades. Foi quando ela me disse que Desirée, a netinha dela, já estava com quatorze anos e era mãe. Isto é: Margarida, aos 43 anos já era bisavó.

          Ao nos despedirmos, chamei Margarida ao lado e disse-lhe: se você não ensinar suas meninas a tomar pílula e usar camisinha, brevemente você irá montar numa Harley-Davidson.

Exibições: 83

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2020   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço