Há um grande mal no Brasil que precisa ser extirpado, ainda que com dores. Vindo de séculos, parece ainda teimar permanecer por tantos quantos forem permitidos. Talvez isso não seja problema apenas do Brasil, mas aqui se acentua com perversidade e causa, a quem não tolera o toma lá dá cá, revolta. Enquanto não se mexe com a ferida dos que se sentem na zona de conforto, a coisa parece caminhar em um mar de rosas. O problema começa quando alguém se atreve a "cutucar a serpente com vara curta", mexer no seu punhado de queijo, aí, como diz o povo, "o bicho pega". É o que se percebe com a classe médica. Enquanto ninguém mexia com seus angus, enquanto sentiam-se os "donos do pedaço", enquanto colocavam as cartas na mesa e ditavam as regras nos hospitais e postos de saúde, não gritavam. Reclamavam das condições de trabalho – que não são realmente satisfatórias – mas não ousavam mostrar as unhas como fazem agora: paralisam atendimento, adiam cirurgias e deixam a população, a sempre desassistida de serviços básicos, sem assistência mínima. É o Brasil do rei sem lei. Sem lei porque a Justiça acaba sendo ignorada quando ela mesma se coloca alheia a certos fatos que deveriam ser tratados sob penalidade. Não são. E aí acabam dando margem aos abusos de muitos. É só observar os abusos dos que interditam estradas, destroem patrimônios públicos, cerceiam o direito de ir e vir, e não lhes acontece nada por isso. Fica o dito pelo não dito, ou vice versa. Não sei se as multas que a justiça estabelece aos infratores que cometem abusos em nome de reivindicações são realmente pagas.

Enquanto os médicos não viam suas benesses ameaçadas, não radicalizavam. Agora, depois dos vetos do propalado Ato Médico, que negou exclusividade aos médicos em certos procedimentos, e dada a iminência da vinda de médicos estrangeiros para atuarem em locais onde esses que hoje rugem recusavam-se prestar assistência, as unhas começam a aparecer. É um direito reivindicar, protestar, fazer-se ouvir, ninguém nega isso. Mas é um dever deles, dos médicos, não permitirem que pessoas desassistidas deixem de receber aquilo de que precisam. Pessoas que se deslocam de suas comunidades, andam quilômetros de distância dos centros de saúde, deixam seu trabalho, sua casa e sua família para buscar alento ao seu sofrimento, e quando chegam ao hospital são obrigadas a voltar porque os médicos se recusam a atendê-las.

Conheço cidades, aqui do Pará, cujo hospital não possui médico. Quem faz procedimentos por conta e risco são os enfermeiros. Há cidades com apenas um médico para atender toda a população urbana, mais a rural e mais a de outros municípios. Essa é a realidade. Faltam médicos sim. Faltam pessoas que queiram aliviar as dores de quem está desassistido. Faltam profissionais que olhem o salário não como fim mas como uma recompensa de um esforço. Faltam pessoas que mirem a população desassistida e queiram vivenciar o dia a dia nos lugares longínquos do Sertão, da Amazônia e do Pantanal. Faltam pessoas que sintam as dores de quem as têm. A medicina não pode ser vista como um reduto de comércio da saúde. Leva quem pode pagar mais. Tem quem pode desembolsar centena de reais. Quem não dispõe de recursos, quem não pode pagar amarga as longas filas de espera – quando sobrevive a elas. Essa é a realidade.

Certamente, o programa Mais Médicos não acabará com os problemas nos hospitais nem eliminará os abusos dos que se sentem os deuses da saúde. Tampouco retirará direitos – muitos deles intocáveis – dos médicos que atendem nos hospitais públicos. Mas, certamente, ajudará – e muito – aqueles que precisam de assistência. Se não carecessem de médicos, quase quatro mil municípios não teriam aderido ao programa do governo federal. Se a falta de médicos não fosse uma realidade, não havia tanta reclamação da população. Se o serviço nos hospitais e postos de saúde fosse bom, a população, ao invés de reclamar, elogiaria.

A classe médica precisa sim ser valorizada, assim como a dos policiais, dos professores, dos bombeiros e outras. Não se pode fechar os olhos para a realidade que vivenciamos. É preciso melhorar o salário não só de médicos e professores, mas de todos. Quem disse que um salário mínimo de R$ 678,00 (seiscentos e setenta e oito reais) é salário digno? Médicos não ganham salário mínimo. Talvez e ganhassem saberiam o que é realmente milagre. Creio que muitos dos problemas da população brasileira são emocionais, psicológicos, devido à preocupação, à desassistência. Viver com um salário mínimo é tarefa para herói. E há milhões de heróis neste Brasil por aí. O problema financeiro é enorme, e quando alguém se chega ao hospital encontram-se problemas ainda maiores, tudo se junta e vira uma epidemia. É fato que sempre vamos querer mais e mais. Nunca estaremos satisfeitos. O salário nunca será suficiente para ninguém. A gula será sempre maior. Mas também nossa gula pelo outro, para ajudá-lo, para socorrê-lo, para dar as mãos a quem precisa também deveria ter a mesma medida. Tinha razão quem disse "Em terra de cegos quem tem um olho é rei".

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