NÃO TEM TRADUÇÃO

Nei Lopes

 

O samba não se entrega, não, professor Alberto! E Noel sabia disso.

 

Em dezembro, na semana em que transcorria o centenário de Noel Rosa (1910 – 1937), realizava-se no Rio o II Encontro de Sociedades Lusófonas de Autores. Nele, convidado para proferir a fala de abertura, o historiador Alberto da Costa e Silva, da Academia Brasileira de Letras, enfatizava a relevância da língua portuguesa no contexto das relações comerciais entre Europa, África, Ásia e Américas, do século XVI ao XVIII.

 

Essa importância do português como língua de comércio foi assumida pelo inglês britânico no século XIX e consolidada pelo dos Estados Unidos no século XX, o que, segundo o mestre, foi o determinante da conjuntura em que hoje vivemos, pois a língua, segundo suas exatas palavras, é “um capital político e econômico tão forte quanto os exércitos”, impondo valores e determinando comportamentos.

 

Para nós, no Brasil atual, um dos exemplos mais dramáticos da hegemonia anglófona é a antropofágica mas desesperada criação, a partir das periferias de nossas cidades, de nomes copiados do inglês. É o caso – além do emblemático “X-Tudo” carioca, advindo do cheeseburger) - dos “Maicon”, “Maicossuel”, “Uellerson”, “Uóston” etc, nomes de batismo ou registro com os quais, ao que parece, nossos excluídos reclamam atenção e reconhecimento para seus filhos. E isso por viverem num país onde o que se supõe bom, bonito, moderno e rico tem, cada vez mais, nomes e sobrenomes com essas sonoridades, que lhes chegam através da TV, como antes chegavam através do cinema.

 

Noel Rosa, em seu tempo, já percebia algo parecido. Criador de uma obra solidamente embasada no estilo afro-carioca de canção popular, desenvolvido no eixo que ligava musicalmente o Estácio, bairro central, ao subúrbio de Oswaldo Cruz, ele era também um arguto crítico de costumes. E, assim, em 1933, dava a público estes célebres versos: “O cinema falado /é o grande culpado /da transformação (...) /. Essa gente hoje em dia /que tem a mania da exibição (...) /As rimas do samba não são ‘I love you’/.E esse negócio de ‘alô’/ ‘alô, boy’, ‘alô Johnny’/ só pode ser conversa de telefone”.

 

Não tem tradução de Noel Rosa

com Aracy de Almeida e Orquestra Radamés Gnatalli

Continental, 18/09/1950 

 

 

Elo fundamental entre o samba artesanal “do morro” e o samba “de mercado”, consolidado – embora, para tanto, desafricanizado -- após seu falecimento, Noel, em seu centenário, não mereceu nenhuma celebração oficial à altura. Fato, talvez justificado pelo fato de as verbas públicas já estarem, quem sabe, comprometidas com eventos musicais de outra natureza, mirando outros alvos mercadológicos.

 

Esse esquecimento (ou descaso) pode também ter sido motivado por aquela hegemonia a que nos referimos lá em cima. Pois é a cultura popular de extração anglo-americana, chamada pop, disseminada por todo o mundo através dos meios de comunicação, que orienta, hoje, no Brasil, desde a música com que se deve louvar Deus até aquela ao som da qual se devem modelar os corpos, nas academias de ginástica, ou domar cavalos xucros nos rodeios.

 

Essa música dita, sim, comportamentos -- como lemos, por exemplo, na reportagem “Por que os gays mandam no pop?” (Rio, revista Época, 22.11.2010) --, graças ao seu forte poder político e econômico. E seu âmbito de interesse e influência não comporta definições de identidade e muito menos expressões de diversidade, eternidade e permanência. E aí talvez esteja a explicação para a exclusão do samba, teimosamente segregado como música “de carnaval”.

 

Um dia, perseguido no asfalto, nosso gênero-mãe subiu o morro; depois, barrado nas quadras, ele se revigorou nos fundos de quintal. E, quando quis, tomou para si o global e o pôs do seu jeito, na sua “manha”, como fez com o boogie woogie na década de 1940, com o bolero na de 50, e no “samba moderno” que veio depois, e que acabou ganhando o mundo com os nomes de “bossa-nova” e “samba-jazz”. O samba é guerrilha!

 

Exagero, leitor? Então, preste atenção naquele ritmo instigante do comercial de cerveja, com aquele cavaquinho, tipo “Pretinho da Serrinha”, suingando em contratempo, num balanço ultramoderno, por sobre a espuma sincopadíssima da batucada. That’s samba, my friend! E a gente, só pra chatear, chama de “samba-rock”.

 

O samba não se entrega, não, professor Alberto! E Noel sabia disso.

 

                                                 ***** *****

N.E. Este artigo foi originalmente publicado em "O Estado de São Paulo", edição de 1º de janeiro de 2011.

 

Nei Lopes é compositor e pesquisador

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Fonte: Meu Lote (www.neilopes.blogger.com.br)

 

 

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