O Centenário de nascimento de Nássara se aproxima (11/11/2010) e vou iniciar minhas homenagens com a reprodução de três historinhas escritas por ele a pedido do cartunista Jaguar envolvendo personagens do universo musical e carnavalesco.



“Nássara, um dos autores da imortal marchinha surrealista “Alá-lá-ô”, é também um dos maiores cartunistas do mundo. Seu traço absolutamente despojado e com total economia de enfeites cada vez mais me deixa impressionado.

Nássara foi um grande boêmio e conviveu intimamente com todos os grandes nomes da música popular brasileira. Bater papo com ele é ouvir histórias incríveis de Pixinguinha, Noel Rosa, Donga, Ary Barroso que acabariam se perdendo rolando de botequim em botequim. Pedi a ele para botar no papel algumas dessas histórias [eis o resultado]. Ilustradas com o traço do mestre, em forma esplendorosa. Nossa contribuição à memória nacional, tão maltratada ultimamente, coitadinha".
– (Jaguar / 1978).



PIXINGUINHA



1955. 6 da manhã. Calçada em frente ao boteco ao lado do Hotel Andes, onde o pessoal que participava do festival da Velha Guarda estava hospedado. Não quero esnobar ninguém mas quem sabe quem estava lá? Pixinguinha, João da Baiana, Donga, Dilermando Reis, Jacob (não o do bandolim, o do pandeiro), Nôzinho, maestro Cirino, com seu trombone, Nelsinho...

Para essa constelação de gênios da música brasileira, um público previlegiado: Lúcio Rangel, Lan, o caricaturista, e eu. O Lan, uruguaio portelense e flamengo doente, tinha acabado de descobrir o choro, ele que de música brasileira conhecia o samba da Portela. Estava em êxtase: “Dios mio! Êsto é coisa de loco! O choro és el máximo!”. A certa altura Cirino começa a tirar do seu trombone amassando as notas de um choro que estava nascendo naquele momento. Mestre Pixinguinha ordena: “Pará!” Alívio geral com a contra-ordem: “Continua, Cirino”.

O velho Pixinga emocionara-se com a melodia e, de saxofone na boca, iniciou um dueto musical que nunca me esquecerei. Até as oito horas da manhã, ali na calçada, ficaram os dois descobrindo modulações, harmonias, variações geniais sobre o tema inicial. Lúcio Rangel sorria com beatitude, o entusiasmo de Lan beirava perigosamente a apoplexia. Tudo na base do improviso.

Esse tema ficou – pelo que sei – até hoje inédito. Mas trata-se de um dos maiores choros de todos os tempos, isso posso garantir.




LUPICÍNIO RODRIGUES





O Lupicínio Rodrigues vinha pela primeira vez ao Rio. Deixou o baú na Ronald Carvalho (Copacabana) onde morava o Riva (na época, um dos caras mais populares do Rio). Gaúcho, como o Lupe, trabalhava na redação de “A Noite”, figura obrigatória do Reis, um dos antros da boemia da época.

Encontrei-o, pela primeira vez no bar do 11º andar da ABI. Tipo de índio, cara redonda, já virava com grande competência seu conhaque com cerveja. Daí fomos para o restaurante Reis, na Almirante Barroso. A esta altura dos acontecimentos, já estava no pagode a grande figura de Edygio Squeff, o Orestes Barbosa, o Flores, Jorge Faraj. Como sempre acontece nesses esquemas, apareceu um violão. O Reis inteiro parou para ouvir aquela voz fina, minúscula (quase um recitativo), aquele extraordinário repertório de sambas. Quando terminou foi um delírio. Lupe foi consagrado de estalo.

Como todo restaurante que se preza, o Reis só servia bebida com refeições. Pra respeitar a tradição, foi pedido um bacalhau à Gomes de Sá, que permaneceu intato até o fim do programa (menos a azeitona).

E as águas rolaram. Perdão, leitores, rolou tudo, menos água: vinho, batidas, cerveja (branca e preta), traçados (com vermute francês e italiano), cachaça (com Fernet-Branca), tudo tudo...

Lá pelas tantas o Riva, que patroava a apresentação do Lupe, levantou-se discretamente e foi levar um papo com o Américo Almeida, dono do restaurante. Nem precisou abrir a boca; o Américo cortou rente: - Já sei; “bebemos um pouco além da conta e estamos desprevenidos de dinheiro... Pagamos amanhã”

Bons tempos aqueles, em que um comerciante recebia um pendura com tal categoria!




”NÓS QUEREMOS UMA VALSA”




Quem inventou o Rei Momo foi o jornalista Vasco Lima, diretor de “A Noite”. O primeiro rei Momo foi o repórter de Turfe do vespertino, Moraes Cardoso. Tinha o “physique du rôle” perfeito: gordo, bonachão, grande bebedor de cerveja “Castadinha”.

Monteiro Filho, o grande ilustrador, fez o figurino da fantasia do Rei.

O Rei só tinha um problema; fortes crises de ácido úrico que deixavam seus pés em petição de miséria. Sambar e pular carnaval era um tremendo sacrifício, repetido dolorosamente em cada clube que visitava... De modo que baixou seu primeiro decreto: oficializou “Nós queremos uma valsa”, de minha autoria e Frazão. Sua entrada nos salões seria saudada obrigatoriamente com essa valsa. O Rei falou, tava falado. Naquele tempo também já era assim.

O ritmo lento e deslizante da valsa poupava aos reais pés do massacre infligido pelos sambas e pelas marchinhas.



“Nós queremos uma valsa”, de Nássara e Frazão, na interpretação de Carlos Galhardo. Disco Victor (34708), 1940.




PRÓXIMOS POSTS:

NÁSSARA - CARICATURAS MUSICAIS

CENTENÁRIO DE NÁSSARA



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Fonte: Jornal O Pasquim, nº 449. Rio, de 3 a 9 de fevereiro de 1978.

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Exibições: 315

Comentário de Gilberto Cruvinel em 9 novembro 2010 às 23:35
Oi Laura,

Não conhecia as histórinhas do Nássara e gostei muito da do Lupícínio. Gostaria de ter o talento do cara que deu o pindura, he he. Passar a noite bebendo e comendo ao som de Lupicínio e depois aplicar um pendura tamanho família. Um talento!

A série promete, estou aqui ansioso pelos próximos. Excelente idéia Laura.

Beijos
Gilberto
Comentário de Gregório Macedo em 12 novembro 2010 às 1:41
Viva Nássara!
(E seu sósia!...)
Beijos.

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