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NEM VITOR NUZZI DECIFROU O ENIGMA VANDRÉ, NEM A ESFINGE O DEVOROU - final

SEQUESTRADO NO AEROPORTO  E INTERNADO 

POR 58 DIAS NUMA CLÍNICA CARIOCA. PARA QUÊ?

Quanto ao comportamento esquisito e errático de Vandré desde que voltou do exílio em 1973, todas as informações que Nuzzi levantou são conclusivas quanto ao fato de que Vandré não foi torturado antes de deixar o Brasil e dificilmente o terá sido na volta negociada para o País.

Tão aguardada, tão frustrante.

Estava em más condições psicológicas e com a saúde debilitada nos últimos tempos de exílio. Foi sequestrado discretamente pela ditadura no aeroporto e, um mês depois, a Globo o exibiu no Jornal Nacional como se estivesse desembarcando naquele instante.

Parece ter ficado 58 dias (antes e depois da entrevista ao JN) recebendo tratamento psiquiátrico. E, ao revê-lo em 1980 (estivera com ele em junho de 1968, quando ainda fazia correções na letra da Caminhando), papeamos durante horas no apê da rua Martin Fontes. Eis a impressão que me causou:

"Reparei que ele continuava lúcido, ao contrário das versões de que teria ficado xarope por causa das torturas. Mas, perdera a concisão e clareza. Seus raciocínios faziam sentido, mas davam voltas e voltas até chegarem ao ponto. Para entender a lógica do que ele dizia, eu precisava ficar prestando enorme atenção. Era exaustivo.

O mais importante que ele disse: estaria na mira de organizações de extrema-direita, inconformadas com o gradual abrandamento do regime.

A censura finalmente liberara Caminhando, que fazia sucesso na voz de Simone. Vandré explicou que tinha de passar-se por louco pois, se ele tentasse voltar à tona junto com a música, seria assassinado".

Entrevista ao Globo News deixou os admiradores perplexos

Ou seja, ainda não estava tão aniquilado como o veríamos, com imenso pesar, naquela entrevista concedida em 2010 ao canal Globo News.

A menos que algum militar, algum médico ou algum enfermeiro abra o bico, jamais saberemos o que aconteceu com Vandré enquanto esteve internado (rigorosamente isolado dos demais pacientes) numa clínica do bairro de Botafogo, RJ. 

Reafirmo a convicção que formei após assistir àquele melancólico programa, de que ele foi submetido a uma lavagem cerebral, A terapeuta brasileira Adriana Tanese Nogueira, radicada nos EUA, considerou plausível:

"É como se, de alguma forma, tivessem conseguido reprogramar o cantor de modo a manter sua aparente sanidade mas atuando em modo diferente

Celso Lungaretti sustenta a tese da lavagem cerebral, não em sentido amplo, mas estrito. Ela acontece quando se submete uma pessoa a uma condição de total dependência de seus carcereiros.

Adriana Tanese: mente reprogramada.

Estes controlam tudo o que a pessoa faz, desde o que e quando ela come e vai ao banheiro, até o sono e todos seus movimentos. Dá para imaginar o que isso significa? Estar totalmente à mercê do inimigo cruel?

Após um tempo assim, por instinto de sobrevivência e busca de sentido (para não ficar louca), a vítima passa do sentimento de pânico e abandono total àquele de buscar conivência com seus algozes. Se, além dos cuidados materiais pelos quais a vítima passa, são-lhe ministrados também cuidados psicológicos, tipo ensinar-lhe o que ela deve pensar e acreditar, temos um prato cheio para compreender a esquisita entrevista de Geraldo Vandré à Globo".

Já o perfil de Vandré que se depreende da enxurrada de depoimentos de pessoas que o conheceram melhor do que eu me fez perceber que era totalmente infundada a hipótese que levantei, de que ele haveria entrado (ou fingido estar) em parafuso por não estar suportando o fato de que seu comportamento diante do inimigo ficara bem abaixo da imagem que tinha de si mesmo.

Levei a sério demais a constatação de que, dos compositores engajados daquela época, ele era o único a se colocar, na 1ª pessoa, como personagem de suas letras. Todos os demais contavam histórias genéricas, tendo como heróis o morro, povo, os camponeses, os operários, Che Guevara, Zumbi, Tiradentes, etc.

Caetano também sofreu muito com o exílio

Em Aroeira, o narrador (Vandré) declara estar "escrevendo numa conta/ pra juntos a gente cobrar/ no dia que já vem vindo/ que este mundo vai mudar". E alerta os marinheiros (os colonizadores portugueses) que está próxima "a volta do cipó de aroeira/ no lombo de quem mandou dar".

Bonita é uma guarânia na qual um presumível guerrilheiro tenta explicar à sua amada que não a pode tomar naquele instante e (como poderá morrer seguindo o destino que escolheu) talvez ela só venha novamente a saber dele "se um dia encontrares alguém/ que te cante meus versos".

Há outras. A mais explícita de todas, Terra plana, traz este desafio que o combatente lança a um militar: "Se um dia eu lhe enfrentar/ Não se assuste, capitão/ Só atiro pra matar/ E nunca maltrato não/ Na frente da minha mira/ Não há dor nem solidão/// E não faço por castigo/ Que a Deus cabe castigar/ E se não castiga ele/ Não quero eu o seu lugar/ Apenas atiro certo/ Na vida que é dirigida/ Pra minha vida atirar".

A canção interrompida me fez cair a ficha: Vandré havia dado um duro danado para se tornar artista vitorioso e era exatamente isto que ele queria ser. Acreditava nos ideais da esquerda e era favorável à luta armada, mas nunca como causas às quais se pretendesse engajar como militante. Cansava de repetir que sua atuação não era partidária.

A sensibilidade de artista o levava a incluir tais fantasias em suas músicas, mas ele apenas se colocava imaginariamente no lugar dos revolucionários e dos guerrilheiros. Não queria ser uma coisa nem outra. 

Daí ter-lhe pesado tanto o fardo que passou a carregar em suas andanças de judeu errante pelo mundo: se formiga aguentaria, mas, cigarra, não estava preparado para tais rigores,  O exílio o desconstruiu antes mesmo de os militares o terem à sua mercê; e isto, certamente, lhes facilitou a tarefa de reprogramá-lo, como disse a Adriana. 

E lá se foi outra das fantasias que nos ajudavam a manter a sanidade durante aqueles anos terríveis! Ainda assim continuo lamentando —e muito!— que esse extraordinário artista tenha caído numa armadilha da História, acabando por ser destruído. 

Nunca haverá desculpa para os que fizeram desabar tamanha tempestade em cima de um músico, apenas por ele ter composto uma canção que expressou o sentimento de todo um povo. 

Como bem lembrou o Benito de Paula, "esse trapo, esse homem um dia foi um rei".

 

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Comentário de Nena Noschese em 23 junho 2016 às 21:55

Temos hoje um reinicio deste absurdo e nem precisam dos militares para conseguir seus intentos, temos hoje no Brasil, 52 milhões de Ultra direitistas e todos em postos chave.

A lavagem cerebral foi e continua sendo feita pelos podres "meios de comunicação " nacional.

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