Nicolelis: ciência e consciência crítica

O gênio não é somente aquele que, em sua arte ou ciência, consegue um desempenho muito acima da média dos praticantes. Este é quando muito um portador de altas habilidades. O gênio é justamente aquele que abre novos caminhos na sua ciência, na sua arte ou em qualquer atividade que exerça. Gênio é antes um inquieto, não somente um virtuose.

Miguel Nicolelis é certamente um gênio brasileiro, embora muito discretamente comemorado no Brasil, talvez por suas posições políticas. Não se trata de um gênio somente porque desenvolve pesquisas que chamam a atenção da mídia especializada internacional, porque publica nas maiores revistas científicas do mundo, como a Science, ou porque, sendo um dos 20 maiores cientistas do mundo, está sempre na iminência de faturar um Nobel.

É um gênio porque mesmo atuando na tão árida neurociência consegue ser ao mesmo tempo um pensador crítico e um realizador social. Isto é abrir caminhos, mais do que superar a média.

Ciência e conservadorismo político
Em trabalho recente, tentei mostrar como de certa forma o boom que viveu a neurociência a partir dos anos 90, e sua midiatização, estava levando este campo científico a ser o mais novo "discurso sobre a completude", sustentado por um imaginário de "todo-saber" na explicação dos fenômenos humanos.

Como "discurso sobre a completude" entendo aquelas vogas científicas que parecem dar conta dos mais díspares aspectos da história, da humanidade, do mundo, em detrimento de qualquer outro modelo explicativo.

As muitas nuanças do positivismo, o estruturalismo, e mesmo o marxismo, entre tantos outras correntes de pensamento alimentaram esta ilusão. A maneira como, de forma arrebatadora, a neurociência ganhou espaços na sociedade midiatizada poderia mais cedo ou mais tarde forjar junto ao público, e porque não junto aos próprios pesquisadores, esta imagem de "conhecimento total", palavra definitiva sobre o ser humano.

É evidente que inúmeros pesquisadores e laboratórios realmente acreditam neste conto. Ficaria bem simples entender o sujeito, reduzindo-o unica e exclusivamente à atividade cerebral.

O problema é que a fórmula (sujeito = mente = cérebro) se encaixa perfeitamente no senso comum acadêmico e midiático conservador. Por ele, a realidade sócio-histórica é pouco importante para compreender o homem em seus muitos desafios: violência, sexualidade, inteligência etc. Toda e qualquer preocupação com identificações, relações intersubjetivas, relações de poder, condição social, levaria no máximo à ideologia, a dogmas revolucionários.

A neurociência é utilizada constantemente pelo senso comum conservador como a prova definitiva de que o pensamento crítico estava absolutamente equivocado. E pior: é claramente perigoso.

Um neurocientista crítico
Eis que entra o gênio de que lhes falo: Miguel Nicolelis. Embora seja um dos mais notórios neurocientistas do século, ele não está nem aí para esta "mitologia neurocientífica", resultado de um intrincada articulação entre reducionismo científico, interesses industriais e cultura midiática.

Nicolelis é cientista de laboratório, mas também pensador crítico. E, juntando as duas coisas, realizador social (Veja como ele mesmo explica sua formação!).

Enfrentando insinuações preconceituosas, emplacou o Instituto Internacional de Neurociências, em Natal, e a partir dele um projeto que leva ensino da ciência a alunos de escolas públicas do Rio Grande do Norte.

E sabe que módulos este projeto do Instituto de Neurociências leva aos jovens? Tecnologias de rádio, TV, periódicos, internet, tecnologias analógicas e digitais, ciências, leitura, escrita, matemática, geometria e, pasmem, questões de identidade sócio-histórico-cultural, ética e cidadania..

Recentemente, uma revista de grande circulação no Brasil (adivinha qual?) defendeu que o governo centrasse os investimentos em ciências duras e tecnologias porque ciências humanas não serviriam para nada. Quando a sociologia e a filosofia foram aprovadas para o ensino médio, não faltou "educador" de última hora dizendo que eram disciplinas de "formação dogmática".

Enquanto isso, Paulo Freire é sentenciado como um dos maiores culpados por nosso "fracasso escolar" (sic), e apostilados produzidos por grandes empresas educacionais ou joint ventures midiáticas reduzem o ensino à uma quase prática behaviorista e o professor a um "gestor de conteúdo pedagógico".

O genial cientista brasileiro não deve pensar assim: ele é um pensador crítico, e não comete o reducionismo estúpido de achar que tudo se resume a algumas sinapses. Sabe por isso que ao lado do ensino das tecnologias (e dos investimentos nestas), é preciso formação humana.

Da mesma forma, sabe que nem tudo se resolve com remédios, estimulantes, caminho que tanto agrada a poderosíssima indústria farmacêutica.

O nosso gênio sabe que para educar é preciso vencer barreiras, preconceitos do senso comum, da midia, e da academia, e principalmente, produzir sujeitos críticos, conscientes de sua história e inquietos socialmente.

E inquietação não cheira bem ao status quo

Abaixo um resumo da proposta do projeto e o link do Instituto

Dê um pulinho lá!

"O objetivo é promover a Educação Científica, a fim de oferecer e difundir os princípios básicos do método científico, bem como o exercício da formação científica que não está ao alcance de todos os setores da nossa sociedade, contribuindo para o processo de Inclusão Social

A proposta integra conteúdos de diferentes disciplinas que não se apartam da vida dos alunos, pois projetos científicos precisam servir à cultura e à coletividade, favorecendo a diversidade de olhar a realidade e de melhor compreendê-la para transformá-la sempre em patamares mais humanos.

Entre outras definições encontradas no dicionário Aurélio, o termo oficina significa lugar onde se verificam grandes transformações. Tais transformações, neste caso, ocorrem dentro de espaços e tempos, intencionalmente planejados para a produção de conhecimentos científicos relacionados à realidade sócio-histórica-cultural dos nossos alunos visando desvelá-la, interpretá-la criticamente e transformá-la".

Veja mais no endereço do Instituto Internacional de Neurociências

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