O filósofo e teólogo Leonardo Boff publicou no início de abril em seu blog um pequeno texto seguido da "Oração ao Deus desconhecido", de Nietzsche. Tal post surpreendeu muitos leitores, pois é do conhecimento geral que o filósofo alemão era ateu e criticou acerbamente o Cristianismo e as religiões em geral.
A filósofa Vera Vassouras, também advogada, professora universitária, tradutora e estudiosa de Nietzsche, tem uma posição contrária à de Boff, e contesta em artigo as afirmações do teólogo.
Pela primeira vez em seis meses na blogosfera, o Abra a Boca, Cidadão! deixa suas linhas editoriais costumeiras, e abre espaço para que seus leitores apreciem essas duas posições divergentes e polêmicas, reproduzindo os pontos de vista de ambos os pensadores.
Leonardo Boff
Oração de Nietzsche: Ao Deus desconhecido
01/04/2011
por Leonardo Boff
Muitos só conhecem de Nietzsche a frase “Deus está morto”. Não se trata do Deus vivo que é imortal. Mas do Deus da metafísica, das representações religiosas e culturais, feitas apenas para acalmar as pessoas e impedir que se confrontem com os desafios da condição humana. Esse Deus é somente uma representação e uma imagem. É bom que morra para liberar o Deus vivo. Mas não devemos confundir imagem de Deus com Deus como realidade essencial. Nietzsche estudou teologia. Eu pude dar uma palestra na Universidade de Basel na sala em que ele dava aulas, quando fui professor visitante em 1998 lá. Essa oração que aqui se publica é desconhecida por muitos, até por estudiosos do filósofo. Por isso no final indico as fontes em alemão de onde fiz a tradução. No original, com rimas, é de grande beleza. LB
Oração ao Deus desconhecido
Antes de prosseguir no meu caminho
E lançar o meu olhar para frente
Uma vez mais elevo, só, minhas mãos a Ti,
Na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas do meu coração,
Tenho dedicado altares festivos,
Para que em cada momento
Tua voz me possa chamar.
Sobre esses altares está gravada em fogo
Esta palavra: “ao Deus desconhecido”
Eu sou teu, embora até o presente
Me tenha associado aos sacrílegos.
Eu sou teu, não obstante os laços
Me puxarem para o abismo.
Mesmo querendo fugir
Sinto-me forçado a servir-Te.
Eu quero Te conhecer, ó Desconhecido!
Tu que me penetras a alma
E qual turbilhão invades minha vida.
Tu, o Incompreensível, meu Semelhante.
Quero Te conhecer e a Ti servir.
Friedrich Nietzsche (1844-1900) em Lyrisches und Spruchhaftes (1858-1888). O texto em alemão pode ser encontrado em Die schönsten Gedichte von Friederich Nietzsche, Diogenes Taschenbuch, Zürich 2000, 11-12 ou em F.Nietzsche, Gedichte, Diogenes Verlag, Zurich 1994.
Vera Vassouras
ORA, SÃO DE NIETZSCHE?
"Silêncio!
Esta é minha verdade!
De olhos tímidos,
Trêmulos e aveludados.
Seu olhar me golpeia,
Encantador, demoníaco, um olhar de menina...
Ela encontrou a origem de minha felicidade
Ela encontrou a mim – Ah! Como ela pode deduzir?
Um dragão carmesim espreita
No interior do abismo de seu olhar de menina.
Silêncio! Minha verdade fala! (1)
Bastaria que os adeptos tivessem conhecimento etimológico da palavra THEO-LOGIA. Bastaria que tivessem conhecimentos básicos da língua alemã. Bastaria que tivessem se aproximado, humildemente, de Zarathustra. Uma pseudociência que pretende racionalizar deus diante da imensidão galáctica é um mero caso de demência, incapacidade absoluta de associações neuronais. Senilidade. Psicose coletiva.
Como se não bastasse a apatia criada por esta organização imaginária (deísta) quanto às guerras seculares fundamentalistas perpetradas pelos católicos-democratas-capitalistas-apostólicos e romanos e apoiadas pelo "silêncio sepulcral" dos teólogos da theo-logia da libertação.
Os mesmos teólogos silenciam sobre a patologia do deus judaico-cristão, que mantém a céu aberto a prisão denominada Palestina, enquanto fazem genuflexão, ano-após-ano, diante do filho do carpinteiro torturado, imolado, crucificado, ensanguentado e barbaramente assassinado, enfim. Apenas para manter o medo e para amainar as culpas. Os mesmos que se colocam teoricamente contra a tortura, enquanto escondem, em salas confortáveis, sua flacidez física e mental, sua falta de virilidade, protegendo-se dos "porretes" do deus da Inquisição, vivo, mais vivo do que nunca, em todas as ruas, vilas, cidades, nações.
Afirmar que Nietzsche/Zarathustra fosse homem de orar é uma barbaridade, uma tentativa de desmoralização e propaganda sem base do deísmo psicopata. Nietzsche nunca foi e nunca será (por sua eternidade) uma ovelha entre qualquer rebanho de cegos condutores e pastores de cegos.
"Habéis servido a la gente y a las supersticiones de la gente, todos vosotros, filósofos famosos! No habéis servido a la verdad...
Como una vela temblando bajo la fuerza del espíritu, mi sabiduría surca los mares... mi sabiduría salvage!
Pero vosotros, sirvientes del pueblo, vosotros, filósofos famosos, como podrías andar comigo" (2)
Pesquisei até onde permitiu minha ignorância na língua alemã, poesias de Nietzsche, para encontrar a tal fonte da "oração ao deus desconhecido": nada. Pesquisei suas obras: nada. E desafio quem me forneça um texto em alemão, escrito e autenticado pelo próprio Nietzsche que o tenha transformado em um reles teólogo.
"Então,
Tal qual águia, tal qual pantera,
São os desejos do poeta,
Estão suas ânsias sob mil máscaras,
Você idiota, você poeta.
Você que tem um olhar sobre o homem
Como deus e como ovelha,
Despedaçando o deus no homem,
Assim como a ovelha no homem,
E desejando, enquanto despedaça." (3)
Não, Nietzsche jamais escreveria frases sem significado. Sua linguagem é criadora, não apascentadora de rebanhos.
OSHO talvez seja o melhor comentador de Zarathustra:
"A filosofia nunca transformou ninguém... Tem fornecido formosas palavras para que as pessoas joguem, tem tratado as pessoas como crianças e aqueles que permanecem jogando com essas palavras, continuam sendo crianças retardadas.
Por exemplo, o mundo da filosofia criou sua palavra mais famosa: Deus, que é, talvez, a palavra com o menor significado na linguagem humana. Não é uma descoberta para você, não foi sua criação. Pelo contrário, os filósofos, os teólogos, os sacerdotes lhe convenceram de que você é uma criação de deus.
Este é o ponto mais significativo para começar uma peregrinação com Zarathustra. No passado, deus foi aceito como o criador de tudo, porém, esta mesma idéia reduz o homem a uma coisa. Somente a coisas podem ser criadas...
.. .e todas as crenças são cegas. Não ajudam a crescer, só lhe ajudam a ajoelhar como um escravo diante de estátuas mortas, escrituras podres, filosofias primitivas."
Osho afirma que Nietzsche/Zarathustra só "deseja que sejas realista: este é o único planeta que temos, este é o único tempo que temos e esta é a única vida que temos.
Todas as religiões reduziram o homem à mendicância." (4)
Se os autodenominados homens tivessem a capacidade de criarem-se a si mesmos, aceitando a comunhão biológica entre todos os seres vivos, quiçá a fantasmagoria a qual denominam deus, afinal, o sol, fonte de vida no sistema planetário, as falsas ciências não continuariam a impor aos humanos essa existência absurda, dissociada e contraditória.
A informação circulante disseminada pelas pseudociências rompeu as estruturas cerebrais. Cara adepto, cada leitor, cada estudante, cada propagandista é um servo do sistema controlador reconhecidamente bárbaro, fazendo com que os humanos abandonem a memória e abram mão do conhecimento, como serviçais, incapazes de interação entre os hemisférios cerebrais.
Não, na lírica Nietzschiana não se encontra linguagem de submissão a qualquer deus, e muito menos ao deus judaico-cristão cujas estruturas ousou desmoronar ao escrever sua obra.
"Pasó eso cuando llegaron a ser pronunciados por um dios las palavras más ímpias, las palabras: "Hay un solo Dios! No tendrás otros dioses antes que yo!"
Un dios barbudo, colérico e celoso se olvidó asi de sí mismo.
Entonces todos los dioses se echaran a reir y agitándose en sus asientos gritaron: "no está precisamente la divinidad en que haya dioses, pero no Dios?"
El que tenga oídos para oír, que oiga." (5)
(1) Nietzsche - Dionysus Dithyrambs (fragmentos – trad. do inglês)
(2) Zarathustra – El Profeta que ríe – Osho – Discursos Completos
(3) Nietzsche – Dionysus
(4) Zarathustra – Osho
(5) Así Hablava Zarathustra
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