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  Todo jornalista,cronista e escritor ,principalmente estes dois últimos,deveria ser um andarilho,percorrer todos os lugares possíveis para perscrutar a alma humana do indivíduo inserido em qualquer instância da sociedade,vasculhar,investigar e para ter inspiração para escrever.Jornalista,cronista e escritor de gabinete não sacam nada ,preferem a comodidade da internet,abrindo mão do empírico,de viver a vivência profunda em todos os aspectos.

 Nesta última sexta-feira resolvi ao Paranoá,a 20 ksm da Rodoviária do Plano Pilto de Brasília,uma cidade satélite de 46 anos em que 85% são nordestinos e filhos de nordestinos e com uma população de 46 mil pessoas.Uma cidade com um comércio fervilhante e variado,mas com muitas pessoas de poucos recursos,um número alto de moradores de rua e um índice de violência considerável.

 Resolvi entar na transversal da quadra 18 e sentei-me num bar simples,com mesas expostas e prtegidas por um enorme toldo e com seu interior lúgubre,de pouca  luminosidade.

 Escolhi a mesa mais afastada da entrada do bar.Não havia garçom  ou nenhum atendente.Levantei-me,entrei no interior do bar para pegar a cerveja mais barata e deparei-me com umas seis mulhres brancas,algumas de bermudas bem justas outras de saias curtas e bem rotundas.A faixa etária variando entre 20 a 30 anos.

 Quero deixar-lhes bem explícito que nada tenho contra mulheres bem acima do peso,cada um deve ter a liberdade de querer ter o seu corpo como bem lhe prouver.

 Peguei a cerveja  ,pedi um copo para um homem atarracado e baixote que estava atrás do balcão e tornei-me a sentar na mesa escolhida.Percebi  que ,além das mulheres,os frequentadores me olharam com um certa desconfiança.

 Dez minutos depois um homem de uns quarenta e cinco anos presumíveis,com rosto oval e com cabelos cortados à moda do sertanejo universitário ,dirigiu-se até a ,mina mesa segurando uma lata de cerveja e,sem cerimônias,foi logo sentando-se,sem pedir licença.

 - Você não é daqui,tá na cara.Vc é X-9 ,tem cara ?- Foi logo dizendo-me o cara com sua fsionomia nada amistosa.

 - Não sou policial - fui logo respondendo - ,sou jornalista ( mostrei-lhe a minha carteira do sindicato),vivo de bico e moro numa pensão simples no final da W3-norte.Fique tranquilo e tampouco estou aqui para fazer alguma reportagem,apenas vim beber uma cerveja.

 Ele desfez a fisionomia carrancuda ,ficou olhando a minha carteira  ao mesmo tempo que olhava para o meu rosto.

 -Então você mora no Plano.Cara,me desculpe ,você tem cara de bundão,logo vi que não era da área.

 - É,tenho cara de otário mesmo,não tiro a sua razão.

 O cara sacou um maço de cigarros da marca Euro,contrabandeada do Paraguai e me ofereceu um cigarro.

 - Obrigado,eu não fumo.

 -Conversa sua,você está rejeitando o meu cigarro porque ele é vagabundo,porque é paraguaio.Vai,pega um,não faça esta desfeita.

 Senti que não seria de bom tom,como forasteiro,recusar a oferta indesejável;peguei o cigarro,ele acendeu com seu isqueiro também contrabandeado ,e fingi que o tragava.O gosto era horrível,enjoativo,mas fui em frente,firme.

 Ele prosseguiu com o diálogo :

 - Eu vivo disso( ele segurava o maço do Euro  com a mão esquerda),sou vendedor de cigarros paraguaios para quase todos os bares do Paranoá e Itapoã,sim,três lanchonetes da "rodo" do Plano.Dou um conforto bom para minha mulher e meus dois filhos e aquele fiatizinho ali do outro lado da rua,Fiat 2016,é meu.Há muito deixei de ser otário para trabalhar para filha da puta nenhum de patrão e ficar ganhando uma merreca.

 Enquanto o cara falava eu fiquei observando as mulheres percorrendo as mesas,se oferecendo,conversando com os clientes e até uma delas foi beliscada numa de suas enormes coxas.Sim,isso eram às 16 horas da tarde e os veículos da PM passavam vez por outra.

 - Cara - avisou-me o homem -,isso aqui é um puteiro.Já manjou,né ?

 -Sim ,está dando para perceber.

 -A cafetina é uma gringa velha,uma austríaca da Europa,ela só gosta de meninas gordas e bem brancas,nada de magras ou negras.Ela tem o estilo dela,afirma que os caras do Paranoá ( ele ri) gostam de carne,quem gosta de osso é cachorro.Mulheres magras,brancas,morenas e negras só no outro puteiro,ali no conjunto O. - ele me apontou com o dedo indicar o outro prostíbulo -Você quer ir lá ,daqui a pouco vou para lá ? Sabe ,tenho que tratar bem a minha clientela.

 -Não ,agradeço,estou  aqui para tomar uma,daqui a pouco vou ter que encarar o busão.

  A cafetina não era racista,ela tinha procurava diversificar em relação os outros prostíbulos,não ser igual.O cara contou-me que há 15 anos atrás ela namorara um negro que mexia com entorpecentes e que fora morto em uma briga de bar no Itapoã .Ela sofreu muito com a perda.

 O cara fez uma sinal apara para uma mulher de cabelos castanhos claros,trajando uma camiseta e uma micro-saia branca,meio transparente ,que deixava nítido a calcinha branca,bem pequena para o tamanho dos seus quadris.

 - Oi,Marta,senta aqui,senta com este gente boa,tenho que dar fora,trabalhar.

 O cara se foi,Marta,sorrindo,sentou-se ao meu lado e perguntou meu nome.

 Um camburão da PM parou,um dos soldados,alto ,forte e branco ( desde 2009 só é permitida a entrada  de novos PMs com nível superior ,com a alegação de que a corrupção na corporação iria diminuir ) entra no interior do bar.Marta me tranquilizou :

 - São amigos da Dona Dorothy,fiquei tranquilo.Posso pegar uma cerveja para nós,você paga ?

 -Se for esta que estou bebendo ,pegue sim.

 O PM,em menos de três minutos,voltou para o camburão e se foi.Veio pegar a chamada propina de proteção.

  Logo a seguir,parou um carrão com dois jovens de classe média,um deles entrou no interior do bar rapidamente e rapidamente saiu.Dorothy,a cafetina,vendia entorpecentes,tava na cara.

 Marta retornou,se ofereceu para namorar comigo por 100 reais,eu lhe argumentei que eu não tinha este valor,tava duro.

 Papo vai,papo vem,ela contou-me a sua história.Tinha 26 anos e há anos era profissional do sexo .Seus pais vieram de Picos,Piauí,quando Paranoá "ainda era um porcaria de cidade",como ela mesma disse;ela nasceu no DF,aos 19 anos seu pai faleceu e a mãe arrumou logo um novo marido.Ela já adorava transar desde os 14 anos,não conseguiu concluir o nível médio e passou a fazer faxinas em prédios e em  casas de família.Na quadra 14 conheceu a Dona Dorothy,que gostou dos seus atributos e a convidou para trabalhar no bar;Marta não reclama da vida,mora no alojamento do bar,faz de três a cinco programas por dia,sempre em um dos quartos do bar,que ficavam nos fundos.A cafetina não permitia que suas meninas fizessem programas fora do prostíbulo para segurança delas e o prostíbulo tinha dois seguranças armados.Em suma,Marta ganhava bem,guardava dinheiro na poupança e sonha que daqui a 5 anos irá encontrar alguém , casar-se e ter filhos.

 Me despedi de Marta e nos beijamos,como amigos,em ambas as faces.Quando eu estava me levantando ela ainda falou : - ôxe,volte aqui uma dia para gente namorar

 Voltei para pensão barata pensando na vida de Marta ,na cafetina austríaca e no contrabandista de cigarros,no mundo em que eles viviam ,nos seus riscos e nos seus feitos comerciais.O sistema leva as pessoas à viverem os seus mundos,mundos submundos.

 

 

 

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