Noel Rosa, conquistando a Cidade Maravilhosa

À esquerda, detalhe de um cartaz de show no Theatro Central. A caricatura de Noel está no alto, à direita. Ao lado, de fevereiro de 1931, propaganda da Casa Mathias que aproveitou o sucesso do samba “Com que Roupa?” para anunciar seus produtos.



No final dos anos 1920, Noel e o Bando de Tangarás estavam num impasse. De um lado, o bando ainda muito ligado à nordestinidade. De outro, Noel pensando no samba e no carnaval.

Noel Rosa obteve sucesso estrondoso com o samba “Com que roupa?”, no carnaval de 1930. Sucesso tão grande que essa composição é uma das raras que mereceu, na época, uma segunda gravação, feita por Ximbuca, tendo Noel como segunda voz.


A música foi citada em vários artigos de jornais.


“Este ano, de quantos modos se cantou ‘Com que roupa?’. Música de dança, samba, música enroscada, mole, sensual. Nela só o ritmo marca o elemento masculino e viril, porque tudo mais é languidez. Não raro há lamúria em ‘Com que roupa?’, no qual a letra é deliciosa. (Mário de Andrade).


A letra também foi citada em artigos, como o de Múcio Leão:

‘A hora atual é de crise profunda e o brasileiro sofre todas as amarguras de uma miséria a que não estava habituado. E este estado de alma está refletido numa de nossas músicas populares. Eu não conheço nada mais característico da alma do brasileiro miserável dos dias de hoje do que a canção que por aí corre e na qual vemos um indivíduo queixar-se de um samba para que foi convidado’.


E até mesmo serviu para comentário político, como o de Maurício Caminha de Lacerda, pai de Carlos Lacerda:

‘Mas carioca, ergue neste momento, sem o teu verso, sem a tua prosa, a tua voz vingadora na estrofe do teu último carnaval, perguntando a esta democracia de três forças incoerentes como virias no teu samba: de camisa preta, de camisa vermelha ou de camisa verde-amarela. Isto é, com que roupa? Fascista, comunista ou socialista?’”.(Portal Cultura Brasil).


“Com que roupa?” – samba (1929) (Noel Rosa), com Noel Rosa e bando regional. PARLOPHON (13.245A) – setembro/1930.




A revista Phono Arte publicou na época: “"Com que roupa?", de Noel Rosa, era uma música rigorosamente nova.

Tudo que Noel produziu não existia antes, ou seja, o que existia era a canção sertaneja/interiorana (Catulo da Paixão Cearense, João Pernambuco...), a canção de carnaval e o samba com levada rítmica amaxixada, que teve seu apogeu com Sinhô.


Noel Rosa, com sua veia poética e municiado de grande consciência social, cria uma nova lírica da canção popular conquistando a Cidade Maravilhosa. Essa conquista, gradativamente, atinge o país, perdurando até hoje.


PRÓXIMO: Noel Rosa, interagindo com o Morro

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Comentário de Gilberto Cruvinel em 1 dezembro 2010 às 20:56
Viva O Poeta da Vila! Viva Noel Rosa!

Laura, querida, para colaborar com seu post perfeito sobre o grande primeiro sucesso de Noel, um trechinho do filme "Noel O Poeta da Vila" que começa mostrando "Com que Roupa". Direção: Ricardo Van Steen. Com Rafael Raposo (Noel Rosa) e Camila Pitanga (Ceci)

Comentário de Laura Macedo em 2 dezembro 2010 às 18:58
Grata, amigo Gilberto.
Na semana passada o canal Brasil (Sky) exibiu este filme e eu aproveitei para gravar. :))
Beijos.
Comentário de Gregório Macedo em 8 dezembro 2010 às 2:21
Formidável a lembrança de um dos críticos, ao enfatizar que Com Que Roupa surgiu num momento em que o povo sofria horrores em face da crise. O crack da bolsa de Nova York aconteceu em 1929, e o Brasil amargou prejuízos espantosos em suas exportações (até café o país queimou, para ver se a cotação subia).
Você contextualizou o clássico do Noel.
Beijos.
Comentário de Laura Macedo em 8 dezembro 2010 às 19:56
Gregório,
Adorei seu comentário.
Noel é 100, mas você é 1.000 :))
Beijos.
Comentário de Albano Ramos em 21 dezembro 2010 às 20:11

O título acima me aguçou logo a curiosidade. Seria um novo depoimento a respeito da possível

parceria de Noel na clássica marcha? Como não foi, aproveito o ensejo para lançar a "bomba".

Como se sabe, a expressão "Cidade Maravilhosa" foi cunhada por Coelho Neto em 1908 e teria

sido aproveitada por Noel para título da música. A última(que eu saiba) alusão à "coautoria" foi feita por Ancelmo Gois em 14 de outubro, baseada num depoimento do brilhante compositor Raul Sampaio.

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