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À esquerda, a dançarina Ceci. À direita, a esposa Lindaura.


Quem conhece a história de Noel Rosa sabe que ele nunca namorou menos de três mulheres ao mesmo tempo. Compromisso sério, nem pensar.

Capricho de rapaz solteiro” (Noel Rosa) # Mário Reis e Orquestra Copacabana. Disco Odeon (11.003-B) / Matriz (4652). Gravação (24/04/1933) / Lançamento (maio/1933).



 

Apesar de ter sido rotulado de feio, baixo e magro, sua inteligência e suas músicas arrasavam com a mulherada, como veremos a seguir.


O início dos anos 30 foram um divisor de águas na vida de Noel Rosa, segundo Carlos Didier e João Máximo. Anos em que sua vida amorosa se transformou num verdadeiro caos. Motivo? Cinco mulheres, cada uma com seu perfil e suas vontades e apenas “um poeta” para dar conta de todas elas.


A primeira foi Clarinha (Clara Corrêa Neto), uma namoradinha da adolescência para quem Noel Rosa compôs “Não morre tão cedo”, música inédita, até a gravação em 1992, feita por Vânia Bastos e o violão de Eduardo Gudin.



“Não morre tão cedo¹” – samba (193...) (Noel Rosa), com Vânia Bastos acompanhada pelo violão de Eduardo Gudin. Gravação extraída do Programa “Noel Rosa: As Histórias e os Sons de uma Época” levado ao ar em 17 de junho de 1992 pela Rádio Cultura AM de São Paulo.

¹ Composição ensinada a João Máximo e Carlos Didier por Aracy de Almeida e Armênio Mesquita Veiga.


 


O relacionamento com Clara durou pouco já que a mesma descobriu que Noel saía da sua casa, na Rua Barão do Bom Retiro, para a de Josefina Teles Nunes (Fina), na Rua Moju.

Inspirado nela Noel fez "Três apitos" –considerada uma de suas obras primas. Moça pobre se tornou operária da fábrica de botões “Hachiya”, para manter-se e ajudar a família. Ao fazê-la personagem de seu samba, porém, o poeta preferiu colocá-la como operária de uma fábrica de tecidos.

Noel não deixou que ninguém gravasse “Três apitos”, o que veio acontecer somente 14 anos após a sua morte, em 1951, por Aracy de Almeida.

Três apitos” (Noel Rosa) # Aracy de Almeida / Radamés Gnattali e sua Orquestra de Cordas. Disco Continental (16.392-B) / Matriz (2587). Gravação (27/03/1951) / Lançamento (julho/1951).


 




Gradativamente a vida de Noel ia ficando mais ligada aos cabarés da Lapa do que às casas simples de Vila Isabel.

Agora a bola da vez é Júlia Bernardes, conhecida como Julinha, mais velha que Noel, e que atuava em diversos cabarés. O casal costumava ter seus encontros num barracão, na Penha.

Segundo Jorge Caldeira logo Noel a transfere para cidade a fim de facilitar os encontros. Acontece que Julinha era meio chegada a um copo. Quando ela bebia não havia cristão que segurasse a barra: tentou se afogar num riacho, quebrou o violão de Noel durante uma discussão e até veneno tomou. Julinha sobreviveu, porém o amor não.

Para Almirante ela seria a inspiradora das músicas “Meu barracão”, “Cor de cinza” e “Pra esquecer”. Essa última Noel negou em entrevista à revista Carioca, segundo o Portal Cultura Brasil.

Meu barracão” (Noel Rosa) # Mário Reis/Romualdo Peixoto [Nonô]. Disco Columbia (22.242-B) / Matriz (381533). Lançamento (setembro/1933).

Cor de cinza” (Noel Rosa) # Aracy de Almeida e Orquestra. Disco Continental (LPP/10), 1955.



 

Pra esquecer” (Noel Rosa) # Francisco Alves e Turma da Vila. Disco Odeon (11.017-B) / Matriz (4613). Gravação (23/03/1933) / Lançamento (junho/1933).



 


Lindaura (Pereira Mota? ou Martins?) era uma das namoradas de Noel que consentia sair ao seu lado, no famoso Chevrolet (comprado a Francisco Alves) apelidado de “Pavão”. Certa noite o famoso “Pavão” levou Noel e Lindaura a um hotel na rua Senador Euzébio, perto da Praça Onze. Esse fato desencadeou uma verdadeira tempestade com queixa de rapto à polícia, por dona Olinda, mãe de Linda, que a expulsou de casa, afirmando que só a receberia de volta casada.

Imaginem em que sinuca de bico meteu-se o nosso jovem Noel que sempre dava um jeito de escapar da tradicional frase: “Eu os declaro marido e mulher, até que a morte os separe”.


Pois é, Noel, não teve escapatória, casou-se com Linda.


Mesmo casado, Noel não abria mão da boemia e das mulheres. Lindaura até que tentava reivindicar seus direitos de esposa, mas em vão. A questão financeira também era problemática e Lindaura não via nem a cor do minguado dinheiro de Noel. Certo dia ela bateu o pé dizendo que iria trabalhar. Do nada feminista Noel recebeu essa irônica resposta através do samba “Você vai se quiser”.

Você vai se quiser” (Noel Rosa) # Noel Rosa/Marília Batista e Conjunto Regional de Benedito Lacerda. Disco Odeon (11.422-B) / Matriz (5446). Gravação 912/11/1936) / Lançamento (dezembro/1936).


Com o passar do tempo a barra do casamento forçado ficava mais difícil, refletindo-se nos versos de

"Cansei de pedir"

Cansei de pedir(Noel Rosa) # Aracy de Almeida e Grupo de Canhoto. Disco Victor (33.949-B) / Matriz (78891). Gravação (24/04/1935) / Lançamento (julho/1935)



 

Lindaura idosa




Mas ninguém, nem mesmo Noel, estava isento de cair nas garras de uma grande paixão. O cupido que flechou profundamente o coração do nosso Poeta da Vila foi Ceci (Juraci Correia de Moraes), adolescente de 16 anos.

A “flechada” ocorreu no Cabaré Apolo, na Lapa, enquanto Ceci exercia sua profissão de dançarina. Noel, já bastante conhecido do público, estava no Apolo cantando e recebendo homenagens por seus sucessos e não perdeu tempo, iniciando suas investidas em Ceci que, não resistindo ao charme de Noel, também foi flechada pelo cupido.

Nenhuma das outras namoradas de Noel Rosa foi motivo de tantas e tão boas canções como Ceci, a musa de “Dama do Cabaré”.


“Dama do Cabaré¹” (Noel Rosa) # Orlando Silva e Conjunto Regional RCA Victor. Disco Victor (34.085-B) / Matriz (80177). Gravação (24/07/1936) / Lançamento (setembro/1936).



¹ Samba que fez parte da trilha sonora do filme “Cidade Mulher” – produzido por Carmem Santos direção de Humberto Mauro.


 




O casamento de Noel e Lindaura incomodava Ceci. Afinal ele era um homem... como se diz?... casado!! Ela não abriu mão do seu trabalho de dançarina nos cabarés da Lapa e Noel morria de ciúmes: “Pra que mentir, se tu ainda não tens esse dom de iludir”?

Pra que mentir” (Noel Rosa/Vadico) # Sílvio Caldas / Fon-Fon e sua Orquestra. Disco Victor (34.413-A) / Matriz (80883). Gravação (01/09/1938) / Lançamento (fevereiro/1939).



 


As brigas e discussões rolavam e a válvula de espace de Noel eram suas criações musicais.

“O maior castigo que te dou”
É não te bater
Pois sei que gostas de apanhar.
Não há ninguém mais calma do que eu
Não há maior prazer
Do que te ver me provocar.

O maior castigo que te dou” (Noel Rosa) # Aracy de Almeida e Boêmios da Cidade. Disco Victor (34.176-B) / Matriz (80376). Gravação (20/04/1935) / Lançamento (junho/1935).



 

Quem ri melhor” (Noel Rosa) # Noel Rosa, Marília Batista e Reis do Ritmo. Disco Victor (34.140-A) / Matriz (80258). Gravação (18/11/1935) / Lançamento (dezembro/1935).



 


A falta de grana apertava o casal. Certa vez, Ceci pediu a Noel dinheiro para fazer um vestido, mas o compositor passou batido. Restou apelar para o parceiro Vadico musicar a situação.

Cem mil réis” (Noel Rosa/Vadico) # Noel Rosa, Marília Batista e Conjunto Regional de Benedito Lacerda. Disco Odeon (11.337-B) / Matriz (5275). Gravação (05/03/1936) / Lançamento (abril/1936).




 





 “Quantos beijos” (Noel Rosa/Vadico) # Noel Rosa, Marília Batista e Reis do Ritmo. Disco Victor (34.140-B) / Matriz (80259). Gravação (18/11/1936) / Lançamento (dezembro/1936).

Ceci, no auge da sua beleza, recém contratada pelo cabaré Royal Pigalle, engatou um romance com um rapaz ligado ao meio artístico chamado Mário Lago, que em breve iria emplacar como ator e compositor.

Tudo isso, aliado a outros acontecimentos como a perda do filho que Lindaura esperava e o agravamento de sua saúde, engendrou uma crise no relacionamento Noel – Ceci.

Nesta época Noel fez uma das suas mais ricas composições, “Último desejo”, cujos primeiros versos eternizam o primeiro encontro que teve com Ceci, sendo, também, uma espécie de despedida.

Nosso amor que eu não esqueço,
E que teve seu começo,
Numa festa de São João, Morre hoje sem foguete,
Sem retrato e sem bilhete,
Sem luar, sem violão.

Noel fez questão de que a musa Ceci fosse uma das primeiras pessoas a conhecer a letra de “Último desejo”. Já bastante debilitado pela turberculose que o mataria, arranjou forças para encontrar-se com ela e, triste, entregou os versos dedicado a seu amor, que acabara de ser musicado por Vadico.




 

Último desejo” (Noel Rosa/Vadico) # Aracy de Almeida e Boêmios da Cidade. Disco Victor (34.296-A) / Matriz (80511). Gravação (01/07/1937) / Lançamento (março/1938).

Último desejo¹” (Noel Rosa/Vadico) # Marília Batista e Orquestra. NILSER (1.011/1.012)¹ - 1963.



¹ Álbum duplo em que Marília Batista interpreta, em todas as faixas, as composições de Noel Rosa em forma de pot-pourri.

 


Com relação a esta música os biógrafos de Noel, João Máximo e Carlos Didier fazem a seguinte observação:

A cantora Marília Batista morreu jurando que Noel Rosa lhe ensinara ‘uma segunda parte deste samba, bem diferente do que ficou consagrada’. E acrescentaram os pesquisadores: nunca saberemos se realmente Noel ensinou duas segundas partes, uma à Marília e outra à Aracy. Ou se Aracy criou uma própria; o que é pouco provável.




A citação acima é do samba “Coração” (samba anatômico), de Noel Rosa (1931). Será que depois de todos os relacionamentos amorosos que teve, continuou com a mesma opinião? :))


PRÓXIMO: Noel Rosa – Centenário de um Gênio (AQUI).


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Fontes:

- A construção do samba / Noel Rosa de costas para o mar, de Jorge Caldeira. – São Paulo: Mameluco, 2007.

- Uma história da música popular brasileira – Das origens à modernidade, de Jairo Severiano. – São Paulo: Ed. 34, 2008.

- MPB Compositores – Noel Rosa, nº3. – São Paulo: Ed. Globo, 1996.

- Nova história da música popular brasileira – Noel Rosa. – São Paulo: Ed. Abril, 1976.

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Comentário de Gregório Macedo em 10 dezembro 2010 às 2:13

Clarinha, Fina, Julinha, Lindaura e Ceci, no céu, aplaudem efusivamente o grande Noel em seu centenário!

Palmas pra você, Laurinha, por essa homenagem maravilhosa.

Beijos.

Comentário de Laura Macedo em 10 dezembro 2010 às 20:22

Valeu, amorzinho!!

Beijos.

Comentário de Gilberto Cruvinel em 10 dezembro 2010 às 21:02

Oi Laura,

 

Esse capítulo mais recente está uma beleza. Eu não conhecia a história assim tão em detalhes.

Permita-me trazer uma pequena colaboração, mais no campo da ficção, mas achei que o filme Noel o poeta da Vila" foi muito feliz ao destacar duas das mais lindas músicas que Noel fez para seus amores e que você incluiu: "Prá que mentir" e "Último Desejo"

.

                    Prá que mentir por Cristiano Gualda

                Tema de Noel e Ceci no filme "Noel, o Poeta da Vila". de Ricardo Van Steen 

 

 

 

                   Último desejo por Wilson das Neves

               Cena final do filme "Noel, poeta da Vila". A musica "Ultimo Desejo" cantada pelo

               grande Mestre Wilson das Neves!  

 

Comentário de 300 Discos em 10 dezembro 2010 às 21:39

Excelente, Laura. Pena que acaba amanhã ... Todo dia devia ser aniversário de Noel!

Comentário de Laura Macedo em 11 dezembro 2010 às 0:47

Gilberto, foi ótimo você trazer os videos.

 

300 Discos, valeu mesmo!

 

Beijos aos dois.

Comentário de Gilberto Cruvinel em 11 dezembro 2010 às 10:42

 

"As que ficaram para a história, no entanto, são quatro. Clara foi a primeira: em 1927, ele manda um bilhete à menina de seu bairro que os irmãos tanto tentavam proteger. Ficariam juntos por ainda seis, sete anos. Mais tarde, depois de se casar com outro e com filhos, ela confessaria que Noel foi a paixão de sua vida." (Jornal O Dia - "O Poeta do Samba - Homenagem Especial" - 11/12/2010 - in "As mulheres e os rivais do bamba da Vila")

 

Recorte com a foto de Clara feito por Noel

Comentário de Laura Macedo em 11 dezembro 2010 às 19:07

Gilberto,

 

Adorei a homenagem do Jornal O Dia - "O Poeta do Samba - Homenagem Especial". Já está nos meus favoritos.

Noel Rosa é, indiscutivelmente, uma fonte inesgotável :))

Hoje o Estadão também publicou matéria especial sobre "100 Anos de Noel Rosa". Lá você encontrará um video interessante preparado pelo Elifas Andreato.

Beijos.

Comentário de Marcos Carnavale em 20 junho 2017 às 14:56

Pelo que eu li na biografia sobre Noel,excelente por sinal,escrita João Máximo e Carlos Didier,Noel,na gíria da malandragem da época,deu um balão em Lindaura.O casamento foi uma farsa montada por Noel no cartório,não foi registrado.A Lindaura descobriu anos depois.Vale salientar que esses dois biógrafos de Noel são poucos reverenciados pela mídia e pelos pesquisadores.João Máximo,excelente jornalista,se vivo estiver caiu no esquecimento.J.Máximo ainda escreveu uma pequena biografia de João Saldanha no início deste século. Grande trabalho,amiga !

Comentário de Laura Macedo em 20 junho 2017 às 21:32

Marcos,

Confesso que não li na íntegra as 533 páginas do excelente trabalho do João Máximo / Carlos Didier.

Tenho acompanhado, com certa frequência, os programas comandados pelo João Máximo, na Rádio Batuta do Instituto Moreira Salles e tenho reproduzido alguns aqui no nosso Blog. Também tenho percebido que, ultimamente, o João Máximo não tem participado, recentemente, da grade de programação do IMS.

http://radiobatuta.com.br/tag/joao-maximo/

Marcos, fico feliz por você ter gostado na nossa postagem de Blog e por ter deixado aqui sua opinião.

Grande abraço.

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