Sei que muita gente (por ignorância ou por esnobismo) vai discordar de mim. Irão me chamar das seguintes coisas: despeitado, invejoso, cruel, mentiroso, etc.

Começo por dizer que não sou espectador da História do Samba. Sou um pouquinho mais: sou protagonista. Muita coisa que ouço e leio sobre o mundo da música popular não passa de palpite de alguém que “deseja saber”, mas não investiga as fontes vivas dessa sabedoria.

Concordo, em parte, com todas as homenagens (livro, estátua, crônicas, retratos, etc.) que se prestavam ao grande Noel. Não especialmente ao “compositor” Noel Rosa, mas ao “conjunto” Noel Rosa: compositor e letrista, e, se quiserem, cantor; e, se quiserem, violonista. Ele foi tudo isso. Foi, porém, e especialmente, um poeta popular, um “letrista” inspirado e admirável.

Sua obra literária, muito diferente da de Luiz Peixoto (outro estilo), foi produto exclusivo de seu esforço na perseguição aos recônditos da alma simples do povo.

Palmeira do Mangue
Não nasce nas areias de Copacabana
”.

ou

“Meu luto é a saudade
E a saudade não tem cor
”.

ou

"O Sol da Vila é triste”.

ou

Ao som do samba
Dança até o arvoredo
”.


São fragmentos de poemas que nenhum “imortal” produziria.

Noel era, antes de tudo, o poeta. Como melodista, às vezes tinha sorte. Como cantor, mal. Como violonista, o suficiente para se fazer entender. É uma cooperação espontânea de quem teve pelo moço estima fraterna. Noel Rosa letrista – coisa rara. Seu estilo nunca foi superado. Diamante de vários quilates, como compositor, venero a memória daquele que “criou” uma escola de poesia para o samba.

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Fonte:
- Texto de Ary Barroso publicado na Revista da Música Popular. Novembro/Dezembro de 1955, pág. 5.

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