Portal Luis Nassif




É de Jacy Pacheco, compositor, escritor, poeta e primo de Noel Rosa - o avô paterno de Jacy, Honório de Freitas Pacheco, era irmão de Rita de Cássia, avó materna de Noel –, os fragmentos de uma crônica curiosa que relataremos a seguir. Mas antes um pequeno relato do convívio de ambos que nasceram no mesmo ano (1910).

Jacy e Noel se entendiam muito bem. Houve muita participação do primo em fatos só por eles gostosamente presenciados, pois confirmavam o talento, a verve, a generosidade de Noel Rosa.

Dessas lembranças pessoais e documentação exclusiva que possuía como bilhetes, cartas, músicas impressas que Noel remetia com dedicatória, saiu pelos idos de 1954, a biografia ,“Noel Rosa e sua Época”, com prefácio de Álvaro Moreira.








Jacy ainda lançaria dois livros sobre Noel Rosa: “O Cantor da Vila”, pela Editora Miverva e outro (caracterizado de “livro de bolso / 63 páginas), “A Vida e os Amores de Noel Rosa”, editado pela Cordel Ltda e impresso na gráfica “O Cruzeiro” (RJ).


Como primo e biógrafo de Noel, forneceu precioso material inédito para o livro de João Máximo e Carlos Didier. Jacy foi membro do Conselho do MIS - Museu da Imagem e do Som.




NOEL, POETA DO OUTRO MUNDO (Fragmentos)


“Quando escrevi o livro ‘Noel Rosa e sua Época’, tive o cuidado de esclarecer que contava o que sabia da vida e da obra do primo sambista. Não era trabalho completo, pois a gente nunca sabe de tudo. Tanto isso é verdade, que acabaram de descer do céu dois poemas do Cantor da Vila, agora, dezenove anos após o seu falecimento. [crônica publicada em 1956].

As produções, fresquinhas, escapam aos arquivos de Almirante e Lúcio Rangel, à memória de Marília Batista e Hélio Rosa.

‘O Povir’, jornal espírita de São Paulo, estampa a ‘Mensagem de Noel Rosa’, recebida pelo médium Hervé Cordovil. O Hervé, sim! Das duas letras reproduzirei uma. É tão cantante e de tal modo tem feitio de samba, que basta um pequeno esforço para encaixar-lhes boa melodia.

Vamos apreciar, em suma, um poema de Noel, psicografado. Temos aí uma mensagem caída do Céu, em dezembro de 1955.

O assunto é digno de debates, de celeuma grossa. Confesso que ao ler os versos, arrepiei-me, sentindo em cada linha, em cada estrofe, o estilo de Noel.

Pena que a mensagem venha por intermédio de Hervé Cordovil, conhecido compositor popular e ex-parceiro de Noel. Pena sim, porque sendo o médium capaz de produzir uma letra, etc., a gente tem o direito de duvidar da autenticidade da mensagem. Eu creio nas comunicações mediúnicas. Não em todas porém. Gostaria que Ary barroso, Lúcio Rangel e outros entendidos se manifestassem a respeito desse novo Noel, poeta do outro mundo. Ainda porque... há outras mensagens da mesma fonte, pedindo outra crônica”.


Roland Boldrin, apresentador do programa Sr Brasil (TV Cultura), artista multifacetado e excelente contador de “causos”, por duas vezes já contou esta história em seu programa. Segundo ele foi o próprio Hervé Cordovil que lhe contou. Confiram.





VILA ISABEL DO ESPAÇO


Minha “Vila” agora é outra
Muito longe da “Isabel”…
Meu papel agora é doutra
Qualidade do papel
Que representei na terra,
andando de déo em déo,
alma voltada p’ro samba,
nada voltado p’ro céu!...


Se eu fosse agora um samba
ia ter mais harmonia:
não teria gente bamba,
não teria valentia,
pois valente, nesta Vila,
é aquele que perdoa,
que padece e não estrilha,
não é rei nem quer coroa...


Se eu fizesse agora um hino...
Ah! Se um hino eu compusesse...
Começaria com sino,
Terminaria com prece,
Prece serena, tranqüila
E teria este pedaço:
“- Faça Senhor, lá da Vila
A Vila Isabel do Espaço!”


Polêmicas a parte o certo é que Hervé Cordovil, parceiro de Noel Rosa em tantas empreitadas, musicou a mensagem piscografada e, na primeira gravação em 78 rpm, está lá escrito no selo do bolação: “Vila Isabel do Espaço”, letra psicografada, de Noel Rosa e música de Hervé Cordovil. No Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, que é deste mundo, consta no verbete de Hervé a polêmica parceria.



************

Fonte:
- Revista da Música Popular, nº 12- abril de 1956, p.18/19.
- Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

***********


Exibições: 985

Comentário de José Safrany Filho em 27 novembro 2010 às 21:08
psicografia, superstição - um prato cheio que, quando vai esvaziando, alguém, como esse sr. boldrin, garoto propaganda de fernando henrique cardoso e sua mulher e afins, vai enchendo novamente, para não perder-se no esquecimento...
A meu ver é um embuste querer envolver a magna figura do Poeta da Vila, num assunto tão mesquinho e pobre. Ele não precisa disso, é grande por si e, o que se necessita é divulgá-lo mais, sem retoques pessoais, e trazer à baila algum documento sério ainda inédito!
Comentário de Laura Macedo em 28 novembro 2010 às 0:38
José Safrany,

Concordamos numa coisa: Noel Rosa "é grande por si" só. A sua linguagem pragmática e revolucionária engendrou uma nova lírica na música popular. Isso é indiscutível.

O que eu, particularmente, defendo é que aqueles que levam algum tipo de mensagem (pesquisadores / professores / artistas...) não podem/devem assumir uma visão reducionista, ou seja, devemos abrir o leque de opções aos nossos interlocutores para que atuem em consonância com suas visões de mundo, homem e sociedade, onde o respeito a essas visões sejam preservadas.

Estamos no ano do Centenário de Noel Rosa (11 de dezembro de 2010) e as merecidíssimas homenagens pipocam por todo país. Só na internet há infinitos sites e blogs nesse sentido.

Aqui no Portal Luis Nassif vários colegas já publicaram vídeos, posts..., incluvise eu, como por exemplo, a série "Confissões de Noel Rosa"; "Noel Rosa para Crianças"; "Entrevista Póstuma com Noel Rosa" e, hoje, "Noel Rosa, Poeta do Outro Mundo". Minha intenção é publicar, gradativamente, mais alguns até o dia do centenário. Não sou expert em Noel Rosa, mas sou apaixonada pela música brasileira. Meu objetivo, com o trabalho super prazeroso que faço neste Portal há dois anos, é contribuir para o seu resgate histórico.

Este post, objeto do seu comentário, por si só, jamais sintetizaria uma homenagem completa ao nosso querido Poeta da Vila. Acredito que nem o somatório dos que ainda estão no forno, conseguirão tal proeza. E ainda vou mais longe, talvez nem os seus biógrafos, a exemplo de João Máximo e Carlos Didier, estejam plenamente satisfeitos.

Agradeço sua participação, José. O bom do contraditório é que ele fortalece o espírito democrático e fomenta a reflexão.

Abraços.
Laura.
Comentário de Gregório Macedo em 8 dezembro 2010 às 1:58
Você foi muito feliz em suas observações, Laurinha. Todas as facetas devem ser destacadas quando se pretende efetivamente analisar/homenagear alguém. Tudo é valioso. Parabéns.
Beijos.

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2017   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço