Estes números grandes me fascinam, mas como o Lula vai encarar uma reforma tributária em março, aqui vão alguns pontos para a reflexão.

Como eu costumo dizer, antes de gastar é preciso ganhar.


Farra do trilhão de dólares é a ruína
Autor(es): Kevin Hasset
Valor Econômico - 19/01/2009


http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2009/1/19/farra-do-trilhao-de-dolares-e-a-ruina

Estamos no meio de uma crise provocada por instituições financeiras demais que captaram dinheiro demais. De alguma forma, uma massa crítica de autoridades monetárias agora acredita que a resposta correta seria que o governo dos Estados Unidos capte dinheiro em excesso.

O Gabinete de Orçamento do Congresso (CBO, na sigla em inglês) projetou na semana retrasada déficit no orçamento federal de 2009 em torno a US$ 1,2 trilhão, cerca do triplo do registrado em 2008. Teremos de torcer para ter essa sorte. O déficit estará nesse patamar apenas se o Tio Sam morrer e for para o céu.

Não se enganem, a previsão do CBO é a mais baixa entre as mais baixas das estimativas. Exclui o pacote de estímulo proposto pelo presidente eleito Barack Obama e subestima os prováveis custos da guerra contra o Iraque, entre outras coisas. Um cálculo abrangente, levando em conta todos esses "known knowns", como diria Donald Rumsfeld (termo em inglês que o ex-secretário de Defesa usou para designar circunstâncias pela frente que já se sabe que surgirão), seria meio trilhão de dólares maior. Caso o projeto de lei de estímulo for aprovado, o déficit do próximo ano chegará, então, a US$ 1,7 trilhão.

Um trilhão é um número estranho e difícil de contemplar, mas isso é necessário para analisar as implicações econômicas de um déficit tão avassalador.

O número em si mesmo é um milhão de milhões. Um governo que começasse com um orçamento equilibrado poderia chegar a um déficit de US$ 1,7 trilhão, enviando US$ 1 milhão a 1,7 milhão de famílias, ou US$ 100 mil a 17 milhões famílias.

Ou tentemos assim. Todos os gastos militares do mundo em 2006 somaram pouco mais de US$ 1,2 trilhão. Portanto, o déficit dos EUA do próximo ano poderia cobrir isso e ainda sobrariam US$ 500 bilhões para construir pontes.

Talvez a comparação mais perturbadora seja esta: quando o presidente George W. Bush foi eleito pela primeira vez, os gastos totais do governo federal giravam em torno a US$ 1,7 trilhão. Em outras palavras, a diferença entre a arrecadação e os gastos federais deste ano será maior do que era o governo inteiro há apenas alguns anos, em 2000.

Como o déficit pôde aumentar tanto e tão rápido? Parte da história passa pelo declínio na arrecadação. O CBO prevê queda de US$ 166 bilhões, ou 6,6%, em relação a 2008. Em relação a 2000, no entanto, a receita na verdade aumentaria de US$ 2 trilhões para os US$ 2,4 trilhões previstos em 2009.

O déficit chegou às alturas porque os gastos cresceram de US$ 1,8 trilhão em 2000 para os US$ 3,5 trilhões projetados em 2009, uma alta de plenos 95%. É claro, tudo isso ocorreu, em sua maior parte, sob a guarda republicana.

Um motivo para o aumento ser tão drástico é o mistério da capitalização. A cada ano, o Congresso aprovava projetos de lei de gastos onerosos, que se tornavam a linha de base para o seguinte, a partir do minuto em que viraram lei. A cada vez que o governo federal desperdiçava US$ 1 bilhão, criava espaço orçamentário para desperdiçar US$ 1 bilhão repetidamente, "ad infinitum".

Este é talvez o fato mais assustador do orçamento do próximo ano. Os gastos vertiginosos de 2009 serão a base para o CBO calcular os números de cada ano seguinte. Será fácil fornecer assistência médica a todos; o espaço orçamentário será ignorado. De fato, o Congresso pode gastar impunemente nos anos que virão, protegidos pela mortalha que a linha de base do CBO proporciona neste ano.

Podemos ter imensos gastos governamentais e déficits de trilhões de dólares durante todo o caminho até 2017, quando o próprio fundo de Segurança Social comece a ter déficits.

Este ano pode criar um buraco negro de gastos governamentais, com gravidade suficiente para sugar a economia dos EUA em seu horizonte de eventos. Essa trilha de gastos tem dois finais possíveis. Nenhum é bonito.

O Federal Reserve poderia imprimir dinheiro suficiente para acomodar toda essa dívida, cenário em que o dólar desmoronaria e os EUA estariam buscando administrar sua dívida valendo-se do estilo dos países da América do Sul.

Ou o governo dos EUA poderia arrumar a casa fiscal por meio de impostos mais altos. Para que isso ocorresse, o imposto de renda teria de ser aproximadamente o dobro.

Embora os defensores de estímulos no estilo keynesiano estejam certos em dizer que atual economia vive um estado miserável o suficiente para exigir ações drásticas, é difícil entender como tal trilha fiscal poderia ajudar. E daí se o PIB do segundo trimestre der alguns sinais de vida? Que empresas expandirão suas operações se a mãe de todos os aumentos tributários estiver à espreita no horizonte? Se gastos governamentais fornecessem tal maravilhoso impulso à economia, já teríamos alcançado o estado de nirvana.

Se quisermos criar otimismo sobre nosso futuro, precisamos dar motivos. Construir um rodoanel em volta de cada cidade dos EUA não conseguirá isso. O único caminho sensato é que os EUA coloquem sua casa fiscal em ordem no longo prazo. Sem isso, o estímulo econômico deste ano provavelmente será um fracasso histórico.

A boa notícia é que um grupo bipartidário de senadores, encabeçados pelo democrata Kent Conrad, de Dakota do Norte, e pelo republicano Judd Gregg, de New Hampshire, está bem encaminhado.

Sua idéia é que o Congresso dê poderes à comissão para fazer duras escolhas sobre os impostos e benefícios futuros, para recuperar a sanidade do panorama orçamentário dos EUA e para, então, submeter suas recomendações ao voto parlamentar com autoridade especial, sem direito a emendas. Apenas poderiam ser aprovadas ou rejeitadas. Se o Congresso não levar Conrad e Gregg a sério, poderemos estar todos nos dirigindo para fila da sopa de caridade.

Kevin Hasset, diretor de estudos de políticas econômicas do American Enterprise Institute, é colunista da "Bloomberg News". Foi assessor do senador republicano John McCain, do Arizona, na eleição presidencial de 2008.

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