O Rosa de Ouro foi um musical gestado nas experiências ocorridas no Zicartola (ver post mais antigo no meu blog, 19/09/08 /AQUI).
Em 18 de março de 1965, no Teatro Jovem - bairro de Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro - entra em cena um espetáculo inusitado para a época. Samba, um show de samba. Com as rádios e a televisão prestigiando os ritmos americanos, italianos, franceses, latinos-americanos, samba-canção, bossa nova, quem cometeria a loucura de investir em espetáculos de samba? Principalmente com artistas desconhecidos do público, da mídia, crítica e das gravadoras?

Previsto para ficar em cartaz por um mês, acaba ficando um ano (posteriormente corre o Brasil por um bom tempo). O espetáculo de Hermínio Bello de Carvalho, poeta e compositor preste a completar 30 anos de idade, dirigido por Kleber Santos, conquistou público e crítica; o Rio de Janeiro, literalmente, botou o elenco do Rosa de Ouro no colo. Jornais, revistas, noticiários só falavam dos cinco rapazes, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Paulinho da Viola, Anescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho e das duas damas, Clementina de Jesus e Aracy Cortes, que resgataram grandes compositores como Paulo da Portela, Nelson Cavaquinho, Cartola, Henrique Vogeler, Lamartine Babo, Sinhô e Ismael Silva.

Na foto acima os integrantes do Rosa de Ouro e convidados. Em pé, da esquerda para a direita: Elton Medeiros, Turíbio Santos (não integrante), Nelson Sargento, Paulinho da Viola, Jair do Cavaquinho, Anescarzinho do Salgueiro. Sentadas, da esquerda para a direita: Clementina de Jesus, Aracy de Almeida (não integrante) e Aracy Cortes.

A estréia do show por pouco não foi cancelada, devido um temporal que se abateu sobre a cidade maravilhosa, deixando-a com ruas alagadas, megas congestionamentos, enfim, um caos.

O que passo a relatar, sucintamente, é o que ocorreu a partir do momento que as cortinas abriram-se um pouco mais das 23 h. O palco estava desprovido de qualquer cenário, apenas uma rotunda negra e uma tela para projeção de slides. A primeira imagem projetada foi do compositor e radialista Henrique Foréis Domingues - o Almirante, cuja voz emergiu no sistema de som do Teatro.






"Meu nome de guerra é Almirante. Eu fui participante do Bando de Tangarás, com Noel Rosa, Henrique Brito, Alvinho e João de Barro. Neste espetáculo carioca, vamos relembrar o cordão Rosa de Ouro. Aqui serão citados compositores de todos os tempos. Rosa de Ouro com vocês".



A iluminação do teatro foca numa mesa de botequim, com cadeiras de palhinha ocupada pelos cinco rapazes, citados anteriormente, empunhando violão, cavaquinho e instrumentos de percussão que rapidamente executam a música título do espetáculo, de Paulinho da Viola, Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho.

O repertório era composto por músicas de Pixinguinha, Nelson Cavaquinho, Paulo da Portela, entre outros, além de composições dos próprios integrantes do conjunto. Era tudo costurado por falas, algumas inusitadas e divertidas.

(Som de piano tocando a famosa marcha Carnavalesca). "Esse é "Ó abre alas", de Chiquinha Gonzaga, escrito especialmente para o cordão Carnavalesco Rosa de Ouro. Meu nome é Mário Cabral, crítico de música mas, sobretudo, um pianeiro carioca que sabe lembrar com saudade figuras iguais a este fabuloso Paulo da Portela".





"Zé com Fome, José Carvalho e Zé da Zilda - três nomes diferentes e um só grande sambista. Conheci o Zé num circo suburbano, cantando com Moreira da Silva numa festa em benefício do domador cuja mão havia sido devorada pelo urso. Depois tornou-se um nome famoso, um dos mais conhecidos da cidade. Casou-se com a Zilda e com ela constituiu a dupla popularíssima Zé e Zilda. Meu nome é Lúcio Rangel e não gosto do 'Desafinado' nem do samba-jazz."




Os depoimentos eram interligados pelas músicas e, em alguns momentos, a ação sincronizada proporcionava o diálogo entre os depoimentos gravados e o que era ao vivo.



"Sou Sérgio Cabral, cronista de samba e das coisas do Rio de Janeiro. Tenho a certeza que vocês conhecem o autor desse samba...

(Os sambistas interpretam "Escurinho").

Pois esse era Geraldo Pereira, uma das grandes coisas que o morro da Mangueira deu à nossa cidade. Quem melhor poderia contar a história cheia de peripécias de um escurinho, senão o grande Geraldo Pereira?"



Ou então:


"Fundei a primeira escola de samba em 1928. Isso aconteceu no Estácio e o nome da escola era Deixa Falar. Nem precisa dizer meu nome porque este samba vai revelar minha identidade.

(E os sambistas cantavam "Se você jurar").

Pois é, sou Ismael Silva, parceiros de Noel Rosa em muitos sambas, companheiro de Baiaco, Nilton Bastos e Brancura. Já vendi músicas a cem mil réis quando ainda não era profissional. Hoje, quando vejo as escolas de samba desfilar, digo para mim mesmo: 'Não é nada disso, está tudo errado! a escola de samba que eu fundei não tinha esse luxo, essa ostentação. Está tudo errado!'"

Em certo momento o espetáculo era pontuado por Elizeth Cardoso.



"Meu nome é Elizeth Cardoso. Tive o previlégio de conhecer a Kananga do Japão e de ter sido porta-estandarte dos Turunas do Monte Alegre. Com muita honra posso dizer que fui crooner e bailarina do Dancing Avenida. Quero confessar aqui minha veneração por esse verdadeiro gênio que é Pixinguinha, uma espécie de santo no grande altar da música popular brasileira".



Em outro, Pixinguinha:




"Eu me lembro, no meu tempo, do Hilário (não sei o sobrenome), João da Mata, Chica da Canjica, Caninha, Donga, João da Baiana, Sinhô, Tia Ciata e 'Pelo telefone'".






Depois, Donga:

"Eu sou o Donga, autor do samba 'Pelo telefone', que acabaram de escutar e que foi o maior sucesso no Carnaval de 1917. Se vocês não sabem, Villa-Lobos e eu frequentamos as mesmas rodas de choro da época. Ele tocava violão que era uma beleza. Tive a honra de tê-lo como meu parceiro. Com esse violão bolacha que vocês estão vendo, que é aliás o mais antigo violão existente no país, fui a Paris integrando meu conjunto Os Oito Batutas".


O dinamismo do roteiro dava ao espetáculo um caráter de documentário.


"Nelson Cavaquinho era soldado de polícia. Um dia subiu ao morro para tomar umas e outras, mostrar uns sambinhas aos amigos de Mangueira. Quando desceu de lá, tinham lhe roubado o cavalo. Nelson voltou para o quartel e explicou ao capitão: - 'Roubaram meu cavalo, seu capitão'. Daí em frente continuou a ser o Cavaquinho, mas o soldado nunca mais ele foi. Meu nome é Sérgio Porto, mas vocês podem me chamar de Stanislaw Ponte Preta.




"De samba eu também posso dar meu palpite. Todos me conhecem como Jota Efegê. Entrei na crônica Carnavalesca pela mão do mestre Vagalume, conheci os candomblês da casa de Tia Ciata. Ouvi Sinhô lançar seus sambas. Este espetáculo, estes sambistas, esta portentosa partideira Clementina e esta senhora-rainha que é Aracy Cortes são Rosa de Ouro da música popular brasileira".



Se os rapazes do Rosa de Ouro não estavam acostumados com o palco o mesmo não podia-se dizer de Aracy Cortes, considerada a senhora-rainha do teatro de revista, nas décadas de 1920-1930. A duas semanas antes de completar 54 anos, Hermínio foi buscá-la no Retiro dos Artistas, onde ela estava morando. Sua entrada em cena era precedida pela marcha-rancho "Senhora rainha", de Heitor Villa-Lobos. A canção, na verdade, era uma adaptação da "Marcha dos heróis do Brasil", para a qual Hermínio, escreveu nova letra para Aracy. Por tabela o espetáculo também homenageava Villa-Lobos.





"La no morro de Mangueira, ou em minha casa de samba Zicartola, eu sou conhecido como poeta Cartola. Está aqui ao meu lado Zica, minha mulher. Sou do tempo em que fazer samba era considerado vadiagem. Certa vez fui procurado por um compositor que tinha chegado da Europa. Ele me pediu que eu fizesse uma exibição de samba no campo do Fluminense. O nome desse compositor era Heitor Villa-Lobos, um grande amigo, um grande admirador dos compositores populares".







Quem pensou que as surpresas tinham acabado, enganou-se. A senha era dado pelo partido alto de Elton Medeiros, que insistia na pergunta: "Clementina, cadê você?". A resposta vinha com um ruflar de tambores e a entrada em cena de uma senhora negra de 63 anos envolta em rendas brancas, balançando as mãos pelo ar e entoando sua forte voz.





"O Rosa de Ouro continha elementos fundamentais que caracterizariam a atuação de Hermínio Bello de Carvalho no cenário cultural brasileiro como poeta, compositor, produtor, diretor e homem de idéias. Entre as muitas de suas idéias estava a de que o talento e a qualidade são atemporais". (Grifo meu). Alexandre Pavan é autor do excelente livro: Timoneiro - perfil biográfico de Hermínio Bello de Carvalho". Editora Casa da Palavra.





Com o Rosa de Ouro o samba colocou ordem na casa e retomou seu lugar de fato e de direito, firmando a imagem de valiosos compositores de samba e lançando ao lado de Clementina o talento do jovem Paulinho da Viola.

Tudo isso graças ao entusiasmo e amor pelo samba de um poeta que preferiu tornar realidade seus sonhos, contribuindo, significativamente, para reverter a situação de esquecimento do ritmo-símbolo brasileiro, que é o SAMBA.

Laura Macedo

Fontes de Pesquisa: Almanaque do Samba, de André Diniz.
Timoneiro - perfil biográfico de Hermínio Bello de Carvalho-, de Alexandre Pavan.
Grandes Sambas da História, fascículos da Ed Globo.
Sites na internet (garimpagem de fotos).


Para encerrar, curtam esse vídeo com os meninos do Rosa de Ouro, interpretando, 16 anos depois, a música título do espetáculo e outras de autoria do grupo.( Esse vídeo faz parte do DVD - Paulinho da Viola- gravado em 1980, da série: grandes nomes da TV Globo).

Exibições: 2196

Comentário de Helô em 8 novembro 2008 às 20:17
Oi, Laura
Só tem fera aí!
Uma graça o Paulinho da Viola tão novinho, não é?
Bjs.

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