O futebol traz revelações importantes sobre a cultura de um povo ou de uma comunidade em momentos específicos. Me refiro ao caso da demissão de Muricy Ramalho da direção técnica do São Paulo Futebol Clube ocorrida na semana passada. Fato corriqueiro no futebol brasileiro, a demissão de técnicos é a justificativa para que os times possam melhorar seu desempenho e passar a obter vitórias nos campeonatos que disputam, mas no caso do São Paulo o drama é outro.

O cenário brasileiro futebolístico aponta sempre para os craques, os jogadores de futebol, como a essência da arte maior para se vencer os jogos. Os lances magníficos, os passes maravilhosos que acontecem depois de jogadas excepcionais dos nossos craques são, diria, aquilo que se chama de futebol-arte. Fomos até coroados com um rei e também com a irreverência alegre e festiva de um maravilhoso filho de Macunaíma chamado Garrincha. Os jogadores são os heróis de qualquer time.

No caso do drama do São Paulo, a questão parece sair do padrão nacional, ou seja, não são os jogadores os heróis, mas sim o técnico. E de onde vem essa especificidade manifestada sempre pelo inconsciente coletivo das massas, e aqui no caso, torcida? A resposta repousa na figura de um técnico herói, aquele que encarnou o arquétipo do vitorioso, que alcançou as nuvens de glória para uma comunidade toda: Telê Santana.

Sim, parece ser isso mesmo, a torcida são-paulina vive pelo inconsciente coletivo da figura do técnico aquele que protege a cidade e luta contra adversários poderosos. O “mago” Telê, o técnico e não o jogador, que conduziu seu povo a vitórias antes impensadas. Não é preciso aqui pontuar quais são as vitórias, mas isso não importa muito, pois é do conhecimento de todos quanto ele maravilhou sua torcida.

A esperança da torcida são paulina se refugia, desde então, na figura iminente de um mago, daquele que fundou um time internacional e respeitado mundo afora, e, neste sentido, Muricy parece ter ocupado este lugar no imaginário da torcida. Alguém que parece ter nascido dos desejos e lutas de um grande Zeus, um herói nascido no berço da comunidade, que saiu e cresceu mundo afora, passando por grandes provações até retornar ao lar maduro e pronto a vencer. Venceu as seduções da fama e da vaidade ao se desviar dos cantos das sereias para participar de negociatas e jantares com dirigentes. Manteve a direção “ranzinza” daqueles que se incomodam com as injustiças. O apelido de “Telezinho” denota a filiação do herói maior.

Em que pese os argumentos racionais das organizações – um clube de futebol é uma delas -, e obviamente elas têm que existir, o encanto dos torcedores parece estar longe de ter um bom time. Isso deverá ser mera trivialidade, mas permanecerá sempre a perspectiva de retorno de um grande herói na sua direção técnica. Na necessidade de existência dos calendários de futebol com seu tempo cronológico, esse movimento da torcida desafia a racionalidade moderna com um tempo circular, sempre na espera do retorno desse alguém, de um herói arquetípico que dá sentido à sua existência no inconsciente coletivo dos povos.

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