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XVII FESTIVAL DE ÓPERA DO THEATRO DA PAZ ATINGE A EXCELÊNCIA COM A ÓPERA "UM BAILE DE MÁSCARAS". CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.

                                           Cena da ópera Um Baile de Máscaras, Theatro da Paz, Belém.


   O Festival de Ópera do Theatro da Paz de Belém do Pará chega a sua décima sétima edição, uma raridade no mundo da ópera nacional. Atravessou diversos governos e se mantém de pé, sempre com uma programação equilibrada e interessante. Esperamos que os novos gestores a serem eleitos no Estado mantenham o festival, já que o mesmo criou um público cativo, formou plateias ao longo dos anos e incentivou o turismo. 
   Nesses dezessete anos as mais variadas óperas foram apresentadas, quem teve a oportunidade acompanhar o festival viu um panorama completo da história de ópera com diversos períodos contemplados. Esse ano um título exótico como "A Vida Breve" de Manuel de Falla e o clássico "Un Ballo in Maschera" ou "Um Baile de Máscaras" para os brasileiros. 
   A grande sacada da direção do festival é não inventar moda, não seguir as tendências do minimalismo, das transposições de época e dos conceitos abstratos. Em teatros com temporadas de mais de 20 ou 30 títulos isso pode ser feito em um ou dois. Em um festival curto seria um desastre eminente. 
   "Um Baile de Máscaras" apresentado no último dia 08 de Setembro entregou uma montagem clássica, bonita e correta. A direção de Mauro Wrona deixa o libreto fácil para os menos entendidos. Conta a ação de forma clara com movimentação correta dos solistas e demais participantes. A cena final é um primor de qualidade. 
   Os cenários de Duda Aruk são simples e funcionais, transmitem a temporalidade da época e se encaixam com as ideais da direção. Os figurinos assinados por Helio Alvarez seguem a mesma linha. A luz de Rubens Almeida é um destaque pela qualidade: foca na dinâmica, dá sentido ao enredo, dialoga com as cenas e enriquece o conjunto da obra.

                            Rodolfo Giugliani em cena, barítono pensativo.
   
   A escolha dos solistas foi um acerto na mosca, uma seleção de agraciados como os melhores por este Blog. É a milésima prova que temos excelentes cantores no Brasil. A começar pela paraense Adriane Queiroz, soprano de carreira consolidada no Brasil e na Europa, consegue com a personagem Amelia voz de técnica exuberante, agudos ricos e brilhantes unidos a uma atuação cênica apaixonada. 
   Rodolfo Giuliani, Melhor Cantor Solista de 2016 tem um vozeirão de barítono, não aquela voz pequena e aguda que mais lembra um tenor em moda nos barítonos atuais e sim uma voz portentosa, forte, máscula e grande. Voz que chega chegando e enche o teatro com graves explosivos. Seu Renato é pura fidelidade e raiva ao Conde. Fernando Portari deu vida a Riccardo, o Conde e governador de Boston. Entregou voz de timbre lírico, onde os médio se sobressaem sobre os agudos. Atuação cênica brilhante, demonstra uma ingenuidade ao não acreditar nos conspiradores que querem sua cabeça. 

   Ulrica, a eterna bruxa e vidente é uma armadilha para mezzos soprano. A distância entre uma grande atuação cênica e o ridículo atroz é pequena. Denise de Freitas não cai do piegas, faz uma bruxa assustadora na medida certa. Agraciada como Destaque Lírico Feminino de 2011 por este Blog mais uma vez atuou e cantou de maneira brilhante. Imprimiu mistério na voz colocando graves profundos que enchem a sala. 

                                           Fernando Portari e Adriane Queiroz fazem o casal apaixonado.
   
   Kézia Andrade, o que falar dessa jovem soprano paraense, já

foi agraciada como Revelação Lírica Feminina de 2017 pela personagem Donna Elvira da ópera "Don Giovanni" de Mozart. Como Oscar, o pajem de Ricardo esbanjou talento vocal e cênico. O timbre da voz é lírico, leve e realçado com pureza cristalina. Apesar da juventude mostra segurança de uma veterana com atuação cênica e vocal de grande estilo. Um alerta aos teatros brasileiros, contratem o soprano antes que alguém do estrangeiro a descubra. Daqui a alguns anos os colegas da revista Concerto vão indicá-la a algum de seus prêmios, como sempre atrasados. Andrey Mirra é baixo que começa a se destacar, voz com volume sólido pronta para enfrentar trabalhos maiores. 

                                     Kézia Andrade, esbanjando talento no palco do Theatro da Paz.
   
    A Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz vem amadurecendo a cada ano, o regente Miguel Campos Neto extraiu dela sonoridade operística de qualidade portentosa. Linear e homogenia nos naipes teve o regente sempre marcando as entradas dos solistas e coro. As cordas expressavam emoções com energia e as madeiras sempre precisas deram o tom da alta qualidade. A harpa, um dos mais antigos instrumentos de corda dedilhada, foi um destaque á parte. Diana Todorova tirou notas que viajam com delicadeza, harmonia e romantismo.
   O Coro Lírico do Festival de Ópera do Theatro da Paz regido pelo sempre competente Vanildo Monteiro segue em alto padrão de qualidade vocal. Lembrando que não é um coro estável, os membros participam apenas do festival e geralmente tem outras profissões.  
   "Um Baile de Máscaras" foi apresentado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro nos princípios do ano corrente. A opção de uma montagem de concepção moderna, importada, cara e recheada de projeções se mostrou desastrosa para a crítica e público. O custo dela exauriu os cofres do teatro, depois disso só se apresenta concertos por lá. Seria mais lógico e econômico que a produção do Theatro da Paz fosse apresentada depois no Rio de Janeiro. Isso já aconteceu com a ópera "Don Giovanni" apresentada em Belém e depois no Theatro São Pedro/SP. Afirmo aqui que a montagem do Theatro da Paz é infinitamente superior a carioca. Por que não economizar?

Ali Hassan Ayache viajou a Belém do Pará a convite da produção do XVII Festival de Ópera do Theatro da Paz. 

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