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Por Khalid Tailche* para o Icarabe


Anos atrás, durante a época do ex-regime iraquiano, numa conversa com o marido da minha tia sobre a situação daqueles que morriam diariamente na guerra, ele me disse “Quem tem um sapato, deve gastar um pouco do seu tempo e, talvez, de tinta para cuidar dele. Será que somos piores de que sapatos para o governo?!”. Lembro dessas palavras agora pensando na situação do povo iraquiano que esperava uma vida melhor depois do longo período da ditadura. Mas infelizmente, o governo atual não consegue oferecer uma vida digna longe dos conflitos onde o país mergulhou depois da invasão americana em 2003.


Alguns dias atrás, me chamou a atenção um artigo publicado por uma agência de notícias americana bem conhecida sobre a história de uma sargento americana no Iraque que adotou um cachorro, resgatado no meio de um monte de lixo pegando fogo. A missão com o nome de “Operação Cachorrinhos do Iraque” foi um sucesso, com a devida autorização dada à oficial para despachar seu cachorro adotado para os Estados Unidos. Até aqui nada de mais, se não fosse pelo contraste drástico entre a situação atual do povo iraquiano - que precisa mais do que uma ajuda para acabar com a violência e se levantar para reconstruir seu país devastado pelas guerras - e a atenção dada para este cachorro que se tornou notícia internacional. Afinal, eu mesmo tinha meu cachorro quando morava na capital Bagdá e, como muitas pessoas, gostava de cuidar dele. Mas antes de tratar dos direitos dos animais, ou melhor, de maus tratos aos animais no Iraque, deveríamos pensar nos direitos dos cidadãos que garantem a eles seus direitos no seu país, além dos direitos como seres humanos, de acordo com a Declaração dos Direitos Humanos das Nações Unidas.

Nas últimas semanas, várias agências de notícias no mundo e no Brasil, trouxeram para nós os acontecimentos na cidade de Mosul. Grande parte da maior comunidade de iraquianos cristã foi literalmente expulsa da cidade depois das várias ameaças através de alto-falantes em carros modernos que circulavam pela cidade, avisando aos cristãos para saírem, converterem-se ao islamismo ou morrerem. As ameaças partiram de um grupo religioso radical armado. Logo depois, foram assassinados quatorze homens cristãos por simplesmente portar um documento de identidade iraquiana, onde a opção religiosa é indicada. O resultado foi uma fuga em massa dessas famílias, deixando para trás suas casas e vidas. Isso bem embaixo do nariz do governo iraquiano atual e das forças da invasão americanas.

A perseguição religiosa aos cristãos tem seus motivos políticos também. A saída deles da cidade de Mosul, conhecida historicamente pela concentração da maioria cristã da igreja Católica Caldeia, começou depois de um protesto pacífico contra a decisão do governo de eliminar o artigo 50 da nova constituição iraquiana, que garante o direito de participação das minorias iraquianas nas assembléias dos estados. Isso pode explicar a exatidão dessas ações covardes contra esse povo pacifico do Iraque, que não exige nada além dos seus direitos.

Com a saída de parte dos cristãos da cidade, a situação só tende a piorar. O futuro das minorias religiosas, sem o apoio do governo, sem orientação adequada para protegê-los e valorizá-los, fará o país tornar-se menos tolerante e os conflitos religiosos se fincarão, dando chance para que os fanáticos e terroristas espalhem seu veneno e atinjam a hegemonia étnica e religiosa da nossa sociedade. Os estudos mostram que caso nada seja feito para proteger a minoria iraquiana cristã, que representa uma das comunidades mais antigas do mundo, será extinta em dez anos.

Os direitos dos cidadãos iraquianos são ignorados e esquecidos. O sonho do nosso povo de ter um país democrático, que respeita, defende e valoriza a cidadania de todos, ficará mais distante. Chegou a hora de nossos políticos abandonarem seus conflitos dando toda atenção ao povo iraquiano, que merece bem mais respeito do que seus sapatos brilhantes bem engraxados. Ah, meu querido cachorro iraquiano, o sapato de quem será que você está lambendo agora para manter-se vivo?!

*Khalid Tailche, formado em Letras pela Universidade de Bagdá. É autor da tese de mestrado “A peça ‘Desdêmona’, do iraquiano Yousif El-Saigh, motivada por ‘Otelo’, de William Shakespeare”, pela Universidade de São Paulo (USP), onde atualmente é doutorando.

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