Era uma vez um escrivão ladino e sabido, como não havia outro.

Ninguém o enganava e ele gabava-se de haver engazopado toda gente com que tinha tido negócios.

Sabendo que alma de escrivão não entra no céu, quando morreu, já levava ele o plano estudado de passar a perna em São Pedro.

Vai então, bateu à porta do céu.

Veio São Pedro.

— Não pode entrar. Seu lugar não é aqui.

Ajoelhou-se e pôs-se a chorar. São Pedro, muito ocupado em atender a outras almas, nem lhe dava atenção.

Ele aproveitou-se dessa distração para atirar seu chapéu para dentro do céu.

E pôs-se a gritar:

— São Pedro, me dá meu chapéu! São Pedro, me dá meu chapéu!

O santo, enfim, mais despreocupado, respondeu que não o aborrecesse.

Está visto que São Pedro não ia macular as suas santas mãos que pegavam nas chaves do céu, tocando naquele objeto de um herege tão afamado.

— Meu senhor São Pedro, — dizia o escrivão — veja que é pecado ficar com as coisas alheias. Se não me pode dar o chapéu, deixe-me ao menos ir apanhá-lo, que logo me retiro a meu destino.

Tanto pediu e rogou que São Pedro, achando mesmo que não era bom ficar o céu com objetos alheios, consentiu fosse ele buscar o chapéu, mas saísse imediatamente para não mais voltar.

Era o que o escrivão queria.

Quando se apanhou lá dentro, deixou-se ficar.

— Então, não sai? Ponha-se lá fora! — ordenou-lhe São Pedro.

— Não, que é das Santas Escrituras que o que entra no céu não sai mais. Não se sai do céu para o inferno, nem do inferno para o céu. Cá estou, deixo-me ficar, mais vale uma palavra de Deus do que uma alma nas mãos de Satanás.

E São Pedro, nada tendo para responder, deixou ficar o escrivão no céu, onde estava.

Gomes, Lindolfo. “São Pedro, escrivães e advogados”. Folha de Minas. Belo Horizonte, 30 de setembro de 1956

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