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  Era uma sexta-feira,já estava há um mês como terceirizado da agência dos Correios da 408 sul.Quando eu saia da 404 ,20 minutos antes de abrir a agência,e me sentia,a cada passada,um derrotado,um fracassado.Um escritor fodido,que poucos gostavam,um jornalista que optou pela imprensa alternativa e como consequência teve as portas fechadas nos cornos pelas grandes empresas de comunicação.Ademais,era um trabalho entendiante,chato,sufocante.Mas era esta merda de trabalho que me mantinha vivo,com direito a um teto(alugado) ,comida,cerva e o remedinho para aliviar a sofreguidão.

 Naquele sexta,dez minutos antes de fechar a agência,apareceu um morfético com 3 encomendas enormes para serem enviadas via sedex.Me deu trabalho.Pesei-as,dei um porrilhão de carimbos  e um porrilhão de selos para que elas chegassem em Madri,ao seu destino ,para uma destinatária chamada de Ediclueuza Barafunda ( porra que nome feio ! ).

 Saí da agência às 17 e 20 por causa daquele babaca que estava enviando algo para a Sra.Barafunda.

 Quando estava na na comercial da 405,uns 150 metros do meu cubículo,avistei Juliano  "Guerreiro " sentando no Boteco do Juca bebendo caipirosca.Apelidei-o de Guerreiro porque o cara sabia encarar como nunca uma batalha com a caipirosca sem ficar zonzo ou colocar os bofes para fora.

 -Oi,Juliano,como você está ? - Fui logo me sentando e apertando sua mão peluda e enrugada.

 -Oi,Paulinho.Tá nada bem não,hoje faço 68 anos,estou me sentindo um caco,um velho,deprimente ser velho.

  Eu conheci Juliano quando eu tinha 20 anos de idade e ele 48 e trabalhando na parte burocrática da Polícia Federal;ele se orgulhava de nunca ter entregado ninguém e nem ter dedurado nenhum  comunista na época da ditadura.Era um cara legal,malgrado ser,as vezes ,grosseiro e metido a durão.Afinal,todos nós temos os nossos defeitos.

 - Que isso,Guerreiro ! Cara,você tá ótimo ! Porra raspa essa merda desta barba branca que você vai ficar melhor ainda.

  Guerreiro passou a mão esquerda na barba,olhou-me com com dureza,acendeu seu cigarro Malboro e começou a falar sem cessar :

 -Raspar é o cacete ! Tenho marcas de acnes no rosto.Você não sabia ? Então fique sabendo.Porra,Paulinho,as mulheres não me olham mais tem uns dois anos; a Renata ( sua eterna namorada e quinze anos mais ) me abandonou e me olham e me tratam como um velho.Você não sabe o que é velhice ainda,é uma merda e ficou puto com este negócio de terceira idade,melhor idade,babaquice da mídia,meu chapa.Ando bem deprimido.

 Tentei ,em vão,consolá-lo e lembrei-o que ele tinha uma filha ,Júlia,de dez anos,fruto de duas trepadas que ele deu com uma caixa do supermercado Carrefour da Asa Norte,onde ele morava.De na adiantou,ele emendou :

 -Meu chapa ( eu achava chato este papo de meu chapa ),não dou conta mais de brincar com a Júlia e quando saio com ela pensam que ela é minha netinha.É foda,meu chapa.Cara,pede uma cerveja para você ,eu pago,sei que você tá fodido,sei que quebrou,hoje eu pago,preciso que alguém me ouça,por isso vim aqui,sabia que iria lhe encontrar por aqui voltando do trabalho.

 Como eu sabia que a jornada seria longa,bebi a cerveja( e ele falando,falando,se lamentando) e arrumei uma desculpa de ir rapidamente até o meu cubículo pegar um maço de cigarros.Cascata pura,iria fumar meu remedinho para ganhar sabedoria e paciência.Já que Juliano nunca desconfiou que usava meu remedinho para fins recreativos ou medicinais.

 Prezados(as) leitores(as).irei dar uma pausa nessa segunda parte,em breve a terceira ,e derradeira , parte será publicada neste blog.Abraços.

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