Ele se levanta às seis. Toma seu café da manhã enquanto folheia o
jornal do dia. A manchete do jornal o assusta: O governo diz que vai
ampliar o bolsa-família. "Que merda! Eu agora trabalho pra sustentar vagabundo." Dá um beijo na esposa, na filha adolescente, e no filho mais novo, ordens ao jardineiro e sai para trabalhar.

Ao passar de carro pelo ponto de ônibus da esquina da sua rua, vê um
funcionário da empresa onde trabalha, mas não pára pra dar carona. "Olha lá o Zé", e muda a estação do rádio, pra saber como anda o trânsito. "Essa cidade está cada dia pior. Não sei onde vamos parar."

E, por falar em parar, ele pára. Na blitz. Não pagou o IPVA. "Ai, meus Deus, esqueci de pagar esta merda de novo. Não agüento mais pagar impostos." O policial se aproxima. "Ô chefia, tô atrasado, cheio de pepino pra resolver, não tem jeito de me livrar dessa não?" E o guarda, muito solícito, pede R$100,00 pro cafezinho. Ele dá! No rádio mais um escândalo no Planalto. "Cambada de corruptos!"

Pára no sinal. Chega o menino da bala. "Vai uma bala aí, tio?" E ele fecha o vidro sem responder, lamentando não ter comprado o carro com ar-condicionado. "Resolvo isso ainda hoje". Chega no trabalho. Pede à secretária do setor que ligue para o Renatão, o cara da oficina. A secretária murmura: "Bom dia pro senhor também".

"Renatão, meu querido, preciso de um favor seu. Quero instalar um ar-condicionado
no meu carro. Pra ontem, Renatão. Dá pra pegar o carro aqui na empresa?"
Renatão tem ótimos preços, muito abaixo dos preços de mercado. Dizem por aí que ele faz desmanche...

Liga pro ramal da secretária: "Dona Sofia, me chama o Zé!" Dona Sofia diz que Zé ainda não chegou, e ele se aborrece. "Esse povo é tudo folgado. Depois é mandado embora e fica reclamando que
falta emprego neste país. Olha a minha lata de lixo, como tá cheia..."

O telefone toca, e Dona Sofia anuncia o telefonema da esposa. "Meu amor, eu não sei o que fazer. A Aparecida diz que não vem hoje porque o
menino dela está com dengue e ela precisa ir ao hospital. Agora, eu vou
perder minha ioga porque não tenho com quem deixar o Marcelinho"

Ele diz que é pra ela demitir Aparecida e contratar uma mulher mais
velha, com filho já crescido o suficiente para não precisar de
companhia pra ir ao hospital quando pegar dengue.

A manhã já foi embora e ele sai pra almoçar. "Ô tio, me compra um salgado?", e ele desvia, pensando onde é que esse mundo vai parar. Não consegue
dar uma volta no quarteirão sem que alguém peça alguma coisa pra ele. O
celular toca e Renatão diz que o 'ar tá na mão' e ele liga pra Dona
Sofia pra autorizar a entrega da chave do carro. "Sr. Paulo, o Zé... O Zé tá no hospital, Sr. Paulo. Parece que teve um tiroteio. Bala perdida..." Ele resmunga: "Que dia!"

Encontra seu contador no restaurante e diz que precisa lhe entregar os
documentos pra fazer o IR, mas que o contador consiga mais notas frias
que no ano passado, porque a facada foi grande. Mais adiante vê Clécio,
que o convida a sentar-se com ele à mesa. "E aí, Paulão? Qual a boa de hoje?"
Paulo comenta sobre o bolsa-família, xinga os corruptos e da propina
dada ao policial da blitz. Clécio diz que o Brasil só cresce à noite,
quando os ladrões dormem, e comenta que está namorando uma menina de
18. "Uma belezinha, Paulo, mas tá me
dando uma dor de cabeça! Agora à tarde mesmo vou levá-la a uma clínica
de aborto. Já tô com os filhos criados, e não quero mais nenhum!"

Paulo diz que não concorda com esse negócio de aborto, que isso é
contra as leis de Deus, que uma mulher que faz isso é uma assassina,
mas concorda que Clécio já está velho e com os filhos criados. Tem até
netos! "E essas meninas engravidam pra gente ter que pagar pensão..."O celular toca, ele atende: "Sr. Paulo... O Zé... morreu!".
Ele lamenta, conta ao colega e, aproveitando a deixa de que o Zé torcia
pelo Vasco, o assunto descamba animadamente pro futebol.

Termina o almoço e ele pára no bar da esquina pra tomar o café e pegar a encomenda que fez no dia anterior. "O senhor vai gostar dessa, Sr. Paulo; é a melhor do mercado".

De volta ao escritório, liga pra esposa que diz que a filha adolescente
está trancada no quarto, chorando sem parar, e ela não sabe o que
fazer. "Deve ser fricote de menina mimada. Compra uma bolsa pra ela na hora que você for ao shopping que ela para de chorar rapidinho."

Dona Sofia avisa que, conforme o combinado semana passada, vai sair pra ir
ao dentista, e depois vai ao velório do Zé. Não volta mais naquele dia.
Paulo resmunga. "A senhora, pelo menos, cumpriu a agenda?" E pensa que hoje deve ser o dia da rebelião dos empregados. Uma que falta porque tem que levar o filho pro hospital - "Que mania que pobre tem de colocar filho no mundo. Tinha que esterilizar esse povo" ; outro que resolve encontrar uma bala perdida, e agora a Dona Sofia, com dor de dente. "Custava deixar pra um dia mais calmo? Já estava reclamando dessa dor há uma semana, mais um dia não faz diferença..."

Resolve que também vai sair mais cedo. Liga pro Renatão, pega o carro, paga o
ar à preço de banana e reclama do valor do serviço, e liga pra Clécio. "Cara, que tal uma esticada?"
E Clécio marca um happy-hour, que é pra desestressar. Paulo comenta
sobre a 'encomenda' que pegou no café da esquina e Clécio sugere que
eles sigam até seu apartamento pra experimentar. Bagulho apertado,
fumado, e no noticiário os três assassinados do Morro da Providência.
Rindo, eles comemoram: "Menos três traficantezinhos de merda no mundo, bem feito! Tinha era que fazer uma limpa", e Clécio elogia: "Meu irmão, que bagulho bom, de onde é?"
Paulo diz não saber, que só faz a encomenda pro rapaz que trabalha no
café. E continuam dizendo que esses traficantes só estão aí porque a
polícia é corrupta. "Ainda bem que lá no meu bairro não tem favela, e a mais próxima é miliciada."

Hora de voltar pra casa. Encontra a mulher aos prantos com um papel nas mãos e a filha muda, de cabeça baixa. "Ela está grávida, Paulo, grávida!". Paulo não pensa duas vezes e telefona pra Clécio: "Meu camarada, onde é a clínica que você levou sua ninfeta hoje?". Toma nota do endereço, e diz à filha: "Esteja no escritório amanhã na hora do almoço que você vai tirar esse bebê.
Imagina, quinze anos e grávida. A culpa é da sua mãe, que não te educou
direito, e da televisão. Já não se tem horário pra mais nada na TV."
E a filha, aos prantos, corre para o quarto, enquanto ele diz à mulher que está "tudo resolvido, agora eu vou dormir, que tive um dia cheio".

Seis horas da manhã. Ele toma seu café enquanto lê o jornal: "Rapaz de dezoito anos é assassinado no Leblon." Ele fica estarrecido em como essas coisas podem acontecer assim. "Mais uma vítima da violência. Temos que tomar alguma providência... Pobre
rapaz, tão jovem, saudável... queria ser médico... Podia ser meu filho!"

Dá um beijo na esposa, lembra a filha de estar no ecritório na hora do
almoço, e beija a testa do filho mais novo. Dá ordens ao jardineiro,
reclama que as plantas não crescem e que ele é muito bem pago pra fazer
a porcaria de serviço que faz... Pega engarrafamento, o ar está ligado,
as notícias do trânsito não são nada boas, desvia da blitz e chega no
escritório. A lixeira ainda está cheia...

Texto escrito por mim em 23 de junho de 2008, e publicado no meu antigo blog "Ai, meus sais!"

Exibições: 137

Comentário de Charles Leonel Bakalarczyk em 1 julho 2010 às 0:48
Juliana, belo texto.
Essa é a hipocrisia que move o "cidadão de bem".
Crônicas assim fazem o "pacato cidadão" pensar.
Se me autorizar, quero colar no meu Blog.
Abraço.
Comentário de Juliana Freitas em 1 julho 2010 às 1:10
Fique à vontade!!!
Que bom que gostou! ;)
Comentário de Sérgio Troncoso em 1 julho 2010 às 2:26
Tambem gostei Juliana, e acrescento que o seu personagem "cidadão de bem", não tem nada inventado, ele existe por aí aos montes. Abraço.
Comentário de Erico Baymma em 2 julho 2010 às 10:20
Muito bom, Juliana! Narração fenomenal e muita criatividade sobre o "algo comum" que é real e prevalece! Maravilha!
Comentário de ANTONIO PESSOA em 2 julho 2010 às 22:32
uma crítica à classe média , ela segundo o texto é culpado do garoto na janela do carro, do traficante na esquina,do assaltante morto em confronto - nunca culpa do autor sempre da vitima ou da sociedade - e tudo de mal na nação - não se pode fazer ioga , para o autor seria crime inafiançável, agora aquela pensão milionária dos que "lutaram" ideologicamente contra a ditadura pode - sei...
Comentário de Juliana Freitas em 2 julho 2010 às 22:37
Não, Antônio... é uma crítica à hipocrisia, apenas!
Comentário de ANTONIO PESSOA em 2 julho 2010 às 23:11
estou lendo novamente, então desculpe - sou meio escolado nisso - se um assaltante me dar um tiro a única certeza que tenho é que não lhe pedirei desculpas como muita gente gostaria, isso sim seria hipocrisia.Então o cara não é classe média é pilantra mesmo.Comprar peça de carro roubada...cadeira elétrica nele! réréréré.....

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