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"Götterdamerung" em São Paulo. 
Crepúsculo da ópera no Rio.
 
 
por Comba Marques Porto

Pela terceira vez na vida a ópera me leva ao Theatro Municipal de São Paulo. Na primeira vez, ainda pequena, fui para fazer o papel do filho de Butterfly, com a soprano Violeta Coelho Neto de Freitas.  Pela segunda vez, na década de 70, fui para um congresso jurídico e, por ótima coincidência, o tenor James Mackraken se apresentava em Otello, de Verdi. (*) Na semana passada, voltei a Sampa para ver Wagner – era a penúltima das seis récitas do “Crepúsculo dos Deuses”, a quarta ópera do ciclo do “Anel dos Nibelungos”, sob a regência do maestro Luiz Fernando Malheiro. Chamou-me a atenção o fato de ter recebido gratuitamente o programa do espetáculo já na porta, ao apresentar meu ingresso. Aqui no Rio paga-se por este material. Para os paulistas tal detalhe pode parecer insignificante. Mas para nós, cariocas, a cobrança do programa pode figurar como metáfora de nosso desprestígio como destinatários da produção cultural de um ente público, o mais belo e glorioso teatro situado na cidade do Rio de Janeiro.
 
É impossível deixar de comparar os desempenhos dos dois centenários teatros. Ambos guardam em suas memórias registros de prodigiosas temporadas líricas. O Municipal de São Paulo, de longe, tem o charme e o brilho do Municipal do Rio. Entretanto, no terreno da ópera, a arquitetura austera da casa paulista brilha com uma temporada lírica bem estruturada, enquanto as portas do reluzente Municipal quase não mais se abrem ao público de ópera. Até agora tivemos apenas três títulos: “Rigoletto”, de Verdi, em cinco récitas; “Griselda”, de Vivaldi, em récita única; “Berio sem censura”, de Jocy de Oliveira, em récita única. Nenhuma outra ópera consta anunciada na programação de 2012. E não se culpe o desabamento dos prédios vizinhos ocorrido no início do ano. É certo que o fechamento temporário do Theatro se justificava para que se apurasse se havia ou não algum nível de comprometimento. Mas, mesmo antes da triste ocorrência, não havia temporada anunciada.
 
O Theatro Municipal de São Paulo, vinculado à Secretaria de Cultura do Município de São Paulo, já apresentou cinco títulos de ópera até este mês de agosto. Em fevereiro: “Magdalena”, de Villa-Lobos, em comemoração aos 90 anos da Semana de Arte Moderna de 1922 – produção original do Theatre Du Chatelet, Paris, 2010; “Pedro Malazarte”, de Camargo Guarnieri (libreto de Mario de Andrade). Em março e abril, “La Traviata”, de Verdi; em abril, “Idomeneo”, de Mozart; em agosto, “Götterdämmerung” (Crepúsculo dos Deuses), de Wagner. Ainda estão previstas: “Pelléas et Mélissande”, de Debussy, em setembro; “Violanta”, de Erick Korngold, “Eine Florentinasche Tragödie”, de Alexander Von Zemlinsky e “Orfeo e Euridice”, de Gluck, em outubro; em novembro, mais três récitas do “Orfeo”, “Macbeth”, de Verdi (estréia mundial da nova produção de Robert Wilson) e “O Rouxinol”, de Stravinsky.  Terão sido apresentadas ao todo 51 récitas de ópera ao longo do ano de 2012.
 
O mistério da pífia programação de ópera no Municipal do Rio desafia explicações por parte do Estado do Rio de Janeiro, ao qual está a casa administrativamente vinculada. Mais que um bem da cidade do Rio de Janeiro, por sua história, o Theatro Municipal é um bem cultural de todo o país. Logo, sua produção é de interesse nacional. Se a ópera está viva em São Paulo, não se justifica que não esteja viva no Rio, salvo se exista um forte empecilho que deva ser revelado, em nome da transparência de conduta que se impõe à administração pública. O administrador nos deve respostas convincentes. Afinal, ópera é cultura e cultura é tema de interesse público.
 
Há rumores de que a última reforma teria comprometido a acústica do Theatro. Até onde isto é boato? Até onde isto é verdade? Confesso: pensei que estivesse com problemas auditivos na noite em que assisti o “Rigoletto”. Tudo me soava um pouco mais baixo do que o normal. Por sorte, não há nada de errado com minha audição - no “Crepúsculo dos Deuses” tudo soava com a intensidade que meus ouvidos íntimos da ópera costumam reconhecer. 

 

Por outro lado, não dá para imaginar que a precariedade da programação tenha origem em mero desinteresse da administração pelo gênero. Em qualquer governo democrático, os responsáveis seriam simplesmente afastados por tal conduta culturalmente desprezível.
 
Não será mau voltar a São Paulo para ir à ópera. Mas, meu amor pelo Rio e pelo Theatro Municipal clama por medidas, invoca o poder-dever dos administradores da cultura no Estado do Rio de Janeiro para que a situação atual se reverta e, em nome da rica história do nosso teatro, a ópera não permaneça esquecida.
(*) Walter Neiva, o conhecido cenógrafo e encenador de óperas, em tempo corrigiu minha memória: originalmente citei o tenor Jon Vickers, mas o intérprete do Otello naquela ocasião foi James Mackraken.
 
Götterdamerung 

Birgit Nilsson/Fischer-Dieskau/Gottlob Frick
 

 

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