O curto reinado dos economistas e a volta da geopolítica da energia

Por Ronaldo Fiani*

Não faz muito tempo, mas entre 1991 (colapso da União Soviética) e 2003 (invasão do Iraque) era mais comum vermos economistas no Brasil pontificando sobre questões energéticas. Com seu ar blasé, óculos de aro fino e ostentando títulos de universidades norte-americanas como credenciais, estes economistas ensinavam que mercados competitivos cuidariam da oferta de energia de forma eficiente e segura. Onde não fosse possível implantar mercados competitivos (os chamados monopólio naturais), bastaria adotar um modelo de regulação "bem desenhado", onde o agente regulador incentivaria a competição no lugar do mercado.

Sociólogos e cientistas políticos, invejosos do sucesso de seus colegas economistas, trataram de recuperar o terreno perdido, levando a defesa pelos economistas dos mercados até sua última e mais radical conclusão: diante da eficiência de gestão dos mercados, os Estados Nacionais estavam com seus dias contados. Foi uma época sui generis na história política moderna, em que os políticos disputavam o poder depreciando o objeto de disputa (o Estado).

Mas essa época curiosa, que com certeza renderá muitas teses, artigos e livros no futuro, na tentativa de entender uma contradição tão gritante (por que tantos políticos almejavam o controle de algo que estaria com seus dias contados?), durou pouco. Rapidamente as coisas começaram a correr de forma diferente do que os economistas previram. Houve, é claro, a crise dos Tigres Asiáticos, da Rússia, da Argentina e do Brasil (em 1998, lembram?). E agora, a grande crise financeira.

Contudo, para um bom observador, a pá de cal já tinha vindo antes, e foi lançada pela questão energética.

O alarme soou com a tentativa de aquisição hostil da Unocal pela CNOOC em 2005. A CNOOC apresentou uma oferta bem mais interessante do que a oferta feita pela Chevron (18,5 bilhões de dólares contra 16,5 bilhões). Os economistas de óculos de aro fino com certeza falariam nos benefícios do livre fluxo internacional de capitais, no ganho dos acionistas (indispensável para a boa governança corporativa) etc. O governo e os congressistas norte-americanos não se mostraram muito sensíveis aos argumentos da livre empresa e, depois de interporem todos os obstáculos possíveis, fizeram a CNOOC desistir.

A razão explicitamente apresentada para a interferência política na venda da Unocal pelo governo e pelos congressistas dos Estados Unidos foi tão forte quanto clara: A Unocal detinha reservas de petróleo e gás não-exploradas nos Estados Unidos e na Ásia. Não seria admitida uma empresa chinesa explorando reservas de petróleo e gás em território norte-americano e, além disso, era necessário impedir o acesso a reservas em regiões asiáticas estratégicas. A velha política estava de volta. E não apenas nos Estados Unidos.

Em agosto de 2007 circulou um documento interno da Comissão Européia, obtido pelo Financial Times, no qual se advertia que a UE poderia ficar "vulnerável" aos planos de "outros países" (leia-se, Rússia) de dominar os mercados europeus de energia pela aquisição das redes de infra-estrutura. O texto admitia a possibilidade de que os investimentos russos não obedeçam a motivos puramente econômicos. Sintomaticamente, o mesmo texto omitia que tentar bloquear os investimentos russos também não obedece a motivos puramente econômicos.

A relação entre energia e (geo)política não é nova. Apenas os economistas da última década do século passado a ignoravam. Essa relação se tornou dramática a partir do século XX, para ser mais exato a partir do final da I Guerra, quando W. Churchill decidiu mudar o combustível utilizado pela marinha britânica (eixo fundamental da capacidade de projeção de poder britânico), de carvão para petróleo. Os navios de Sua Majestade se tornaram mais rápidos que os navios do Kaiser, mas a Grã-Bretanha abriu mão da segurança resultante de utilizar um combustível que se encontrava em seu próprio país, por outro localizado no estrangeiro.

A relação entre energia e poder militar e estratégico vem se intensificando aceleradamente desde então. Como mostra Michael Klare (Rising Powers, Shrinking Planet: The New Geopolitics of Energy, New York: Metropolitam Books, 2008), durante a II Guerra as forças norte-americanas consumiam um galão de petróleo por soldado por dia. Na Guerra do Golfo (1990-1991) a proporção tinha aumentado para quatro galões. Nas Guerras do Iraque e do Afeganistão, o consumo saltou para dezesseis galões por soldado por dia. Note-se que estes dados não computam o consumo indireto de combustível, ou seja, o consumo de energia para fabricar os armamentos empregados.

A relação é clara: quanto mais poderoso e sofisticado o armamento, maior o consumo de energia, e maior a necessidade de controlar ou estabelecer alianças com os países que detém a oferta de insumos energéticos eficientes. Neste início de século, alguns fatores estão estressando ainda mais essa relação crítica entre energia e geopolítica:

1) O crescimento acelerado de países que enfrentam déficit de energia e possuem grandes economias (China e Índia), que passam a concorrer com os Estados Unidos, União Européia e Japão pela oferta mundial de energéticos.

2) O retorno da Rússia às disputas internacionais de poder, utilizando para isso essencialmente suas grandes reservas de insumos energéticos como instrumento de barganha.

3) O excesso de liquidez internacional (ao menos enquanto a crise da economia norte-americana não assumiu as proporções conhecidas), que ajudou os preços do petróleo a atingir níveis inusitados, por força da especulação (ainda mais quando os capitais especulativos buscavam refúgio em aplicações que fossem menos vulneráveis à crise do mercado subprime).

4) Até mesmo o aquecimento global pode vir a ter sua parcela de contribuição, talvez muito menos por aumentar a demanda de energia (necessidades de refrigeração), mas bem mais por colocar em risco plataformas de extração de petróleo, refinarias, redes de energia etc., em função do maior risco de catástrofes climáticas.

O período do reinado dos economistas na energia coincidiu exatamente com o vácuo de contestação ao poder norte-americano, após o fim da URSS e enquanto a China não era ainda potência em ascensão. Foi, assim, o resultado no campo das idéias de uma situação sui generis na política internacional. Depois do reinado dos economistas com seus óculos elegantes e ar entediado, aos poucos vamos ter de reaprender a relação entre energia, poder e estratégia.

*Ronaldo Fiani é professor do Instituto de Economia da UFRJ.

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Comentário de Gustavo em 1 abril 2009 às 6:41
Ronaldo Fiani foi meu professor de economia politica no primeiro semestre de 1992. Depois fomos contemporaneos na pòs-graduaçao (para sorte minha) e dividimos algumas mesas de bar e grupos de estudo. E' um grande intelectual, um grande economista e um grande sujeito. Nenhuma supresa que esse é um otimo artigo. Parabens Ronaldo.
Gustavo Braga (da Italia...)
Comentário de Vladimir Martins Coutinho em 3 maio 2009 às 3:29
Caro Ronaldo, sou ultimo-anista de economia na Unicamp. Estou fazendo uma trabalho sobre análise de investimento, e como você é da área de energia, deve poder me indicar algo: gostaria de algum estudo que mostre a relação entre preços do petróleo e derivados.

Nas buscas que fiz nas bases de pesquisas não achei nada interessante.

Agradeço antecipadamente.
Comentário de Ronaldo Bicalho em 4 maio 2009 às 19:00
Vladimir,

Você vai na página do IE/UFRJ (www.ie.ufrj.br), entra no grupo de economia da energia, lá você encontra o meu e-mail institucional. Entre em contato comigo para que a gente possa discutir a bibliografia que você me pediu.

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