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O debate sobre o blecaute sob a ótica do setor elétrico

"um grande blecaute, não obstante os prejuízos que ele acarreta, sempre é um importante momento no aprendizado do sistema e na construção de novos procedimentos que aumentem a sua robustez, confiabilidade e segurança operacional"

O sistema elétrico opera com um grau de imprevisibilidade que o diferencia dos outros sistemas de produção de bens e serviços. Essa imprevisibilidade nasce da complexidade intrínseca à operação desse sistema, que reúne um imenso conjunto de processos interdependentes no tempo e no espaço.

A trajetória de evolução desse sistema, desde o seu nascimento no final do século XIX, envolveu, por um lado, o aumento continuado do seu tamanho, com todos os benefícios associados à exploração de economias de escala e escopo, e, por outro, o crescimento permanente da sua complexidade, com todos os custos relacionados à imprevisibilidade gerada, justamente, por essa complexidade crescente.

Todo o esforço evolutivo do setor sempre se concentrou exatamente em trazer essa imprevisibilidade para níveis manejáveis pelos agentes, sem sacrificar, contudo, o crescimento das escalas dos sistemas, que historicamente foi a principal fonte de reduções de custos e, portanto, de tarifas.

Embora tenha conseguido, graças às inovações tecnológicas, organizacionais e institucionais, manter a trajetória de crescimento continuado do tamanho das plantas e dos sistemas sem a correspondente explosão da complexidade, não foi possível zerá-la, tampouco sua correspondente imprevisibilidade; dadas as próprias características intrínsecas da operação de um sistema elétrico.

Em função disso, os sistemas elétricos operam com um patamar de imprevisibilidade muito mais elevado do que a maioria dos outros sistemas produtivos. Esse fato implica que ele sempre será capaz de nos surpreender, gerando a necessidade de um aprendizado continuo, no qual cada novo evento é incorporado em um mapa de possibilidades em constante expansão.

Por conseguinte, mapear os eventos e definir os procedimentos adequados a lidar com eles constitui a essência do processo de aprendizado do setor elétrico, que permite reduzir, relativamente, a imprevisibilidade intrínseca a esse setor.

Nesse sentido, um grande blecaute, não obstante os prejuízos que ele acarreta, sempre é um importante momento no aprendizado do sistema e na construção de novos procedimentos que aumentem a sua robustez, confiabilidade e segurança operacional.

Isto posto, sob a ótica do setor elétrico brasileiro, a importância do blecaute da última terça-feira reside justamente na grande oportunidade de aprendizagem que um fenômeno dessas proporções propicia e que se traduz, ao fim e ao cabo, em uma melhoria consistente da robustez, da confiabilidade e da segurança da operação do nosso sistema elétrico.

O Operador Nacional do Sistema (ONS) tem todas as condições técnicas para realizar a análise do ocorrido e tirar as lições úteis sobre o evento. Isto implica na reunião de todos os dados do sistema – inclusive aqueles que não se encontram no ONS, mas nas empresas operadoras que estão diretamente ligadas ao evento -, na construção de um conjunto de hipóteses consistentes com os dados disponíveis, na elaboração de um diagnóstico final sobre o que aconteceu e, finalmente, e, sem dúvida o mais importante, na definição de um conjunto de melhoramentos de equipamentos e de procedimentos que aumente a confiabilidade e a robustez do sistema, a partir dessa experiência.

Sob a ótica do setor elétrico, a discussão sobre o blecaute que ocorreu na noite do dia 10 de novembro deverá se desenvolver nesse contexto, no qual se seguirá um rito de procedimentos tradicional do setor em qualquer lugar do mundo.

Sob a ótica política, dado o atual quadro de enfrentamento acirrado entre Governo, oposição e mídia, a discussão irá se desenrolar da forma corriqueira; ou seja, a partir da tentativa de se reforçar determinadas teses pré-existentes, independentemente do objeto em discussão.

Se no caso do Governo e da oposição, essas escaramuças de cunho eleitoral se justificam, no caso da mídia, a prevalência dessa ótica política de marcar posições, independentemente do evento, dificulta a compreensão do ocorrido. Principalmente quando se tem um fenômeno extremamente complexo como é o caso de um blecaute de grandes proporções.

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Comentário de Ney Lima em 18 novembro 2009 às 22:14
Olá sr. Ronaldo. Como vai?
Por favor, acaso possa responder, são dúvidas de um leigo, e as questões que me atraem tem a ver com sistemas (especialmente os humanos - mas de fato todos os demais se relacionam com os humanos).
- No caso de sistemas elétricos, o grau de complexidade depende mais da natureza da fonte (hidro, eólica etc.) ou da forma de distribuição?
- O ingrediente que mais promove a imprevisibilidade está ligado aos fatores externos como as precipitações atmosféricas?
- As condições climáticas atuais, relacionadas às variações (aquecimento ou esfriamento global) tem provocado maior imprevisibilidade ou não tem afetado?
Grato e sucesso
Um abraço
Ney
Comentário de Ronaldo Bicalho em 19 novembro 2009 às 3:00
Prezado Nei,

Suas perguntas não têm nada de simples.

A complexidade é função do número de elementos do sistema e da conectividade entre eles. Se você pensa em termos de planta, é evidente que uma central nuclear é mais complexa do que uma Pequena Central Hidrelétrica (PCH).

Quando você pensa em termos de sistema, um pequeno número de grandes plantas de geração reduz o número de processos do sistema, ao passo que um grande número de pequenas plantas de geração aumenta o número de processos e, portanto, a complexidade.

No entanto, uma grande planta, como Itaipu, estabelece um grande número de relações de interdependência com um grande número de processos de utilização de energia. O que seria menor no caso de uma pequena planta.

Contudo, eu tendo a achar que um grande número de plantas de geração aumenta a complexidade do sistema, na medida em que a possibilidade de interações entre elas é maior. Contudo, pode-se argumentar que isolar essas pequenas plantas quando se tem um problema é mais fácil. Porém, esse isolamento – ou se você quiser, essa redução da conectividade – depende da tecnologia de controle que você possui.

Em suma, depende do aspecto que você privilegia. Assim, eu posso dizer que gerar 14 mil MW em uma planta como Itaipu, em termos de sistema, no limite, é menos complexo do que gerar esses mesmos 14 mil MW em mil plantas eólicas de 14 MW. É claro que estamos falando em um sistema único com mil plantas, se a gente pensar em mil sistemas isolados, é claro que a complexidade de cada um é menor do que aquela de um sistema de 14 mil MW.

Assim, a complexidade, mais do que a fonte, depende da escala de geração das plantas que utilizam estas fontes.

No caso das precipitações atmosféricas e do clima a questão fundamental é que você passa a ter a interação entre dois sistemas complexos: o sistema elétrico e o clima. Você há de convir que aí a complexidade se torna muito maior.

Em suma, o que você deve ter em mente é que a complexidade nasce da interdependência entre os elementos que compõem um sistema e se manifesta através da imprevisibilidade sobre os efeitos sistêmicos dos eventos que ocorrem em cada um dos elementos deste sistema; e que a interdependência depende do número de processos interdependentes e da conectividade entre eles. Se aumentar o número de processos e a conectividade entre eles, aumenta a complexidade; caso contrário, a complexidade se reduz.

Um abraço,
Comentário de Ney Lima em 19 novembro 2009 às 19:29
Muito grato sr. Ronaldo, pela gentileza em ter respondido. A facilidade com que passa um assunto tão complexo mostra que o sr. é uma pessoa descomplicada e tolerante. Uma necessidade para o mundo imprevisível atual.
Um abraço e sucesso a cada passo

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