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O desmonte do Theatro Municipal do Rio de Janeiro

O desmonte do Theatro Municipal do Rio de Janeiro

 

por Henrique Marques Porto

http://www.operasempre.com.br/

Como perguntar não ofende, lá vai a pergunta, bem direta: por qual misteriosa razão a ex-atriz e diretora de cinema Carla Camurati ainda não foi demitida da direção da Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro? A pergunta vai para o governador do Estado, Sérgio Cabral, um político arguto e bem sucedido que não terá dificuldades em respondê-la. Razões para a demissão existem de sobra. A presença de Carla Camurati à frente do Theatro Municipal só se justificaria por razões que nada têm a ver com a ópera, o concerto e o balé.
Que Carla Camurati não possui vínculos com essas áreas -exceto pela direção cênica de quatro ou cinco óperas- até as pedras da Cinelândia sabem. Ligada, profissional e comercialmente, ao setor de audiovisual –coincidentemente a mesma origem da Secretária de Cultura, Adriana Rattes- a diretora de “Carlota Joaquina” entende pouco ou quase nada dos gêneros que são prioritários no TM. Repita-se com ênfase: a ópera, o concerto e o balé.  
A paciência do público carioca chegou ao seu limite. Carla Camurati está no cargo desde 2007. Ao longo desses anos, o Theatro Municipal conheceu o período mais medíocre e inoperante de toda a sua centenária existência. Basta fazer uma consulta rápida sobre a programação do teatro no período para confirmar. 
O imponente e dispendioso prédio histórico foi reduzido à uma casa de aluguel. Não é mais propriamente um teatro, mas sim um espaço luxuoso alugado para toda sorte de eventos. É um teatro onde quem menos trabalha são os bilheteiros. E teatro onde bilheteiro trabalha pouco é uma casa com grandes problemas.
Mais grave, no entanto, é a contínua e rápida degradação dos corpos estáveis do Theatro Municipal –a Orquestra, o Coro e o Corpo de Baile. 
Os cariocas estão assistindo ao desmonte e à degradação do Theatro Municipal! 
Será intencional? Será uma espécie de retaliação contra a instituição que resistiu a ser terceirizada e entregue à administração de alguma “organização social”, como acontece com a toda a área cultural do Rio na gestão Sérgio Cabral? 
As referências ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro como um belo prédio com história centenária, por onde passaram grandes artistas, soam como expressão vazia e sem sentido nos discursos dos seus administradores e nos textos laudatórios de alguns ingênuos. O TM não existe apenas para enfeitar a paisagem do centro do Rio de Janeiro e servir de pano de fundo para as fotos dos turistas.  
O Theatro Municipal não é apenas um prédio luxuoso com ouros a brilhar na fachada. É um centro de produção de cultura! É o mais importante centro de produção musical do Estado do Rio de Janeiro! É este bem cultural -que pertence ao povo que o sustenta com seus impostos- que está sendo desmontado e reduzido a uma fachada iluminada. Salvá-lo do desmonte final está se transformando num dever para todos aqueles que amam a música e a querem viva e pujante no Rio de Janeiro. 
A cultura é herança e transformação. Um conceito que parece escapar ao entendimento dos atuais administradores culturais do Estado do Rio.  O Theatro Municipal possui uma riquíssima herança, mas perdeu o fio de sua história e não sabe como transformar-se. Esse é o desafio a ser enfrentado. Infelizmente, Carla Camurati já demonstrou que sua nomeação foi um equívoco lamentável. O cargo exige um outro perfil, qual seja um nome ligado ao meio musical e com reconhecida experiência na área. Nomes não faltam e é dispensável citá-los.  
Durante muitas décadas a produção de ópera na cidade não esteve limitada ao Theatro Municipal. Temporadas curtas e produções independentes aconteciam em outros espaços –em teatros menores e até em clubes sociais do subúrbio carioca- paralelamente às temporadas líricas nacionais e internacionais organizadas pelo TM. Mas esses empreendimentos só eram exequíveis porque contavam com a participação e o apoio do Municipal, que cedia a orquestra, o coro, parte dos cenários e figurinos, além de maestros, ensaiadores, diretores de cena e técnicos. Quer dizer, o TM cumpria com sua função de centro produtor de cultura. Era bem mais do que uma casa de espetáculos isolada, preocupada apenas com as próprias produções.  
O público –repita-se- já perdeu a paciência. E é inútil continuar a usar como argumento-desculpa a reforma geral feita no TM. Isso já é passado, e já lá se vão mais de dois anos da reinauguração. Até quando vão continuar os festejos? A dita reforma, aliás, deixou um rasto de dúvidas e muitos problemas, como a evidente danificação da acústica do teatro, que era das melhores do Brasil, e o sumiço de algumas peças, como aconteceu em reformas anteriores. Mas esse já é assunto para os órgãos de fiscalização do Estado.
Por fim são inexplicáveis as presenças do maestro Silvio Viegas, acumulando a direção artística do teatro e o comando da orquestra da casa, e de sua assessora, a compositora Cirlei de Holanda. Dois nomes respeitados no cenário musical brasileiro que estão comprometendo suas biografias ao demonstrar inapetência para os cargos que ocupam, a começar pela flagrante dificuldade de organizar uma agenda, mínima que seja, de concertos para a orquestra do teatro –um conjunto desfalcado, entregue à própria sorte e com o futuro próximo ameaçado pela falta de previsão e planejamento. A situação não é muito diferente nos casos do Coro e do Balé. 
A lenta agonia do Theatro Municipal começa a ser assunto nas redes sociais. Cada vez mais pessoas estão se interessando, se informando e se manifestando sobre o tema. Sinal dos tempos, que carrega uma advertência: a pressão do público e do meio musical do Rio de Janeiro pode fazer a diferença e apressar as mudanças necessárias. 
Sem planejamento, política administrativa definida e programação própria, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro caminha para uma crise sem precedentes, de funestas consequências para a cultura da cidade e do Estado do Rio. O mínimo que se espera é que o meio musical carioca saiba reagir com determinação e de forma organizada. Mais uma vez o destino do maior teatro do Rio depende dos artistas e do público.

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Comentário de Carlos Henrique Braz em 3 janeiro 2013 às 14:46

Caro Henrique Porto.

 

Agradecemos o seu interesse pelo nosso querido Theatro Municipal.

 

Observamos em 2012 uma frequente série de postagens em seu blogue, Ópera Sempre, e em sua página no Facebook contendo questionamentos sobre a programação desta Casa e acerca da gestão da Fundação Teatro Municipal. Temos constatado também que em algumas dessas publicações há informações equivocadas e comentários baseados em interpretações discutíveis.

 

            Em respeito a sua idade e ao seu profissionalismo, senhor Porto, gostaríamos de convidá-lo a uma visita ao Theatro Municipal para que possamos sanar suas dúvidas e mostrar que as realizações desta Fundação resultam de um árduo trabalho.

 

            Aguardamos seu retorno para agendar um encontro.

 

Atenciosamente,

 

Carlos Henrique Braz

Assessor de Comunicação do Theatro Municipal do Rio de Janeiro

(21) 2332-9238 / (21) 2332-9228

ascomtheatromunicipal@gmail.com

Comentário de C. de Castro em 19 março 2013 às 1:16

O Senhor Carlos Henrique Braz deveria ter respondido com argumentos cogentes e nao com um convite para visitar o Theatro Municipal. Nos do publico queremos respostas concretas. Por minha parte, toda vez que vou ao Rio, olho a programacao do Theatro Municipal e fico triste. O Rio tem uma deficiencia enorme de cultura classica. Querendo fazer um programa de musica classica, fica dificil. O Rio de Janeiro esta abandonado, negligenciado e o Theatro Municipal e um espelho da mal governanca geral.

Comentário de Henrique Marques Porto em 19 março 2013 às 16:11

Caro C. de Castro,

Obrigado pelo comentário. Concordo com você. E a presença do maestro Isaac Karabichevsky infelizmente até agora não apontou para mudanças na situação deplorável do Theatro. O assessor de comunicação da Fundação Theatro Municipal (também é ou foi repórter da revista "Veja") publicou o mesmo comentário-convite em meu blog, http://www.operasempre.com.br. Mas em outro artigo. Na ocasião respondi assim:

Carlos Henrique Braz,

Obrigado pelo frescor juvenil da visita. Você se refere ao “nosso querido Theatro Municipal”.
Certamente não falamos da mesma instituição. O vosso teatro é um; o verdadeiro Theatro Municipal, o que eu conheço bem há mais tempo do que você imagina, é outro muito diferente.
Na aparente gentileza do convite para “uma visita” há um erro de princípio. Coisa simples de entender. A Fundação Theatro Municipal é um órgão público, mantido pelo Governo do Estado com os impostos que arrecada junto à população do Rio, inclusive os meus. Até esse e-mail que você enviou foi pago por ela, a população. Nenhum –repito, nenhum- cidadão do Rio de Janeiro precisa de convites para visitar o Theatro Municipal, onde deveria ter uma placa na entrada com a inscrição: “Entre, a casa é sua! Em dias de espetáculo, por favor compre um ingresso”.
Agradeço o mimo do convite. Mas não é a mim pessoalmente que os gestores do Theatro Municipal devem explicações ou esclarecimentos. Que prestem contas publicamente! Assim manda a boa regra na Administração Pública.
Mesmo assim, agradeço mais uma vez. No entanto, prefiro aguardar a reunião que o maestro Isaac Karabtchevsky prometeu fazer “com os representantes da sociedade”. Mesmo que ele não inclua humildes blogueiros como eu entre seus convidados, com certeza estarei bem representado.
Quanto às minhas “interpretações discutíveis”, a ideia é essa mesma, meu caro: eu as publico precisamente para serem discutidas. Portanto, discuta à vontade.

Confira os outros comentários em http://migre.me/dKuaD, no artigo "Isaac Karabichevsky assume a direção artística do Theatro Municipal".

A propósito, o anúncio do novo Diretor Artístico -amplamente noticiado em jorrnais e blogs- não se confirmou. No baner de divulgação da modesta temporada de 2013 (apenas duas óperas e nenhum concerto com a orquestra da casa), o maestro Karabichevsky aparece como "responsável pela programação", não como Diretor Artístico, cargo que, suponho, continua a ser ocupado por seu colega, o maestro Silvio Viegas. O contrato de Karabichevsky já foi publicado no Diário Oficial do Estado. Potanto é público. Quem assinou o contrato não foi o maestro, mas a empresa que o representa. Ora, o cargo de "Diretor Artísco" do TMRJ é comissionado e não pode ser ocupado por pessoa jurídica. 

Resumindo: o Municipal do Rio virou uma central de produção de encrencas. Para o público e até para o Governo do Estado. Ao invés de se zangar com as críticas (que não são apenas minhas) o assessor de comunicação do TMRJ e sua chefe, a presidente da instituição, têm o dever de apresentar explicações convincentes. Um exemplo de explicação a ser dada: o Governador Sérgio Cabral já aprovou a convocação de Concurso Público para preencher as muitas vagas abertas nos Corpos Estáveis do Theatro (Orquestra, Coro e Balé). Mas quem deve convocar o concurso é a direção do TMRJ, que até este momento, não disse uma única palavra a respeito.   

Abraço

Henrique Marques Porto       

 

Comentário de Henrique Marques Porto em 19 março 2013 às 16:17

Em tempo: Cara C. de Castro  :)

abraço

Henrique

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