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Em artigo publicado no Jornal do Brasil, Santayana apresenta um problema que precisa ser repensado com a máxima urgência: a quem serve o ensino formulado para as classes populares?

As Cartilhas de São Paulo

Por Mauro Santayana

Entre os livros escolares da primeira metade do século passado, se destacava Contos pátrios, de autoria de Olavo Bilac e Coelho Neto. Na mesma época, foi traduzido para o português um dos mais importantes compêndios de leitura escolar na Itália, Cuore, de Edmond De Amicis. Os dois livros, o brasileiro e o italiano, de estilos bem diferentes, se identificavam em um objetivo comum: o da construção da nacionalidade, mediante o respeito aos valores da solidariedade familiar e comunitária como base da coesão política. O livro do jornalista Edmond De Amicis foi editado em 1888, poucos anos depois da unificação italiana, promovida por Cavour e Garibaldi, quando ainda eram vivas as repercussões da luta armada. Fazia falta trabalhar a fim de que vários Estados independentes se unificassem sob uma só bandeira, e que ela se consolidasse no coração das crianças.

Contos pátrios foi redigido logo depois de proclamada a República, e editado em 1904, e até 1962, quando deixou de ser adotado, teve 46 edições. Bilac, republicano e nacionalista, estava naturalmente preocupado com o novo regime, tanto assim que se exilou em Minas, durante o período autoritário de Floriano Peixoto. Os relatos são também amarrados aos valores éticos, como o patriotismo, a solidariedade, o respeito aos pobres, a importância do trabalho honrado.

Outro grande autor de textos escolares foi o paulista Tales de Andrade, que localizava seus relatos na cidade de Piracicaba e em seu entorno rural. Saudade faz lembrar, na medida certa da linguagem, o Cuore. Mas a boa literatura escolar não se limitava a esses livros. Até o fim dos anos 50, os textos didáticos não ensinavam apenas a ler; ensinavam a pensar, fundavam-se nos sentimentos comuns do povo brasileiro e na autoestima nacional nos tempos de Vargas e Juscelino.

A Secretaria de Educação de São Paulo distribuiu livros à rede estadual de ensino, destinados às crianças, que são uma ofensa aos pobres, já que os ricos não frequentam escolas públicas. Um deles, em quadrinhos, sob o argumento de que facilitaria o aprendizado da leitura, está recheado de ilustrações obscenas e textos apenas chulos, com linguagem de sarjeta. A pretexto de levar às crianças temas da atualidade – de acordo com a Folha de S.Paulo de ontem – distribuiu outra publicação, sob o título de Poesia do dia, poetas de hoje para os leitores de agora, em que se recomenda desprezar o amor e preferir o estupro, entre outros conselhos no mesmo estilo. Se os autores sabiam a que público se dirigiam, merecem a indignação do povo brasileiro, porque veem as crianças pobres como pequenos bandalhos, interessados em relatos fesceninos. Se quiseram imitar o método Paulo Freire, cometeram uma contrafacção perversa e criminosa. Ao contrário do que muitos pensam, os trabalhadores são muito ciosos da boa formação moral dos filhos, e naturalmente irão receber esses textos com indignação. [Grifo meu]

É um erro entender a educação como um meio de ajustar o aluno a seu tempo, quando esse tempo é inconveniente ao homem. A educação deve ser teleológica. Os alunos têm que ser preparados não para submeter-se a uma sociedade deformada pela injustiça mas, sim, para mudá-la. A educação deve libertar o homem, e essa libertação não se encontra na banalização do sexo, no repúdio ao amor, no ódio psicopata contra a vida. As sociedades totalitárias – como a do neoliberalismo – sempre estimulam a liberdade dos costumes, a fim de distrair os povos de seus direitos reais, de sua essencial dignidade.

A edição de livros escolares se tornou um negócio gigantesco, com grandes interesses comerciais em jogo. As editoras pressionam as autoridades em busca da adoção de seus livros na rede oficial, usando dos meios de convencimento conhecidos. Suspeita-se também que haja um sistema de trocas, em que o aprovador de hoje pode vir a ser o editado de amanhã. Ao escândalo (porque se trata de um escândalo) atual, o governo de São Paulo só pode responder com a instituição de um inquérito rigoroso, antes que a Assembleia Legislativa tome a iniciativa da investigação. [Grifo meu]

Tal como na Itália do Risorgimento e no Brasil da transição republicana, somos hoje chamados a mobilizar o povo para a construção de uma sociedade solidária dentro de um projeto nacional soberano. O ensino fundamental é o melhor trecho do caminho para a cidadania. Mas, aos pobres, desprovidos de tudo, também se nega, e de forma criminosa, o direito constitucional de participar do destino da nacionalidade.

Tags: livro escolar, santayana, secretaria de educação de são…

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Elianne Diz- Laura Diz Comentário de Elianne Diz- Laura Diz em 29 maio 2009 às 17:46
Um absurdo! eu li no fora de pauta um trecho de um livro de um autor conhecido, atual, onde o personagem faz sexo oral na mulher, detalhando tudo- poxa! isto não é para cças nem adolescentes! a pessoa comentou lá, no fora de pauta, que para a garotada de hj isto não é nada de mais- ou coisa do gênero, mas como diz o autor acima, a gente tem que fazer o melhor e não igualar por baixo, que coisa vergonhosa. Educar é uma arte nobre, fazer nossas cças e jovens melhores que nós, com ética e tb, por que não? aprendendo o que é amar.

E as escolas particulares têm um esquema revoltante tb, os livros são atualizados TODOS os anos, uma cça não pode ficar com o livro do irmão do ano passado, por ex, é desatualizado. Um absurdo. Tudo comércio, sempre tem alguém se dando bem por trás, com certeza.
Bj Laura
Helô Comentário de Helô em 30 maio 2009 às 10:58
Theo e Laura
Não sei se vocês viram a atualização do post do Nassif sobre os livros didáticos em São Paulo. Se não viram, vale a pena conferir o comentário de Ana Maria. Dias atrás, trouxe para a Dirce, pescado do Blog do Favre, o "Manual de autoajuda para supervilões", de onde saiu o "Nunca ame ninguém. Estupre". Vamos ver se os responsáveis serão punidos.
Beijos. Helô.

Helô Comentário de Helô em 30 maio 2009 às 11:06
Relembrando Olavo Bilac, do tempo da minha mocidade.
Como é linda!

A Mocidade

A Mocidade é como a Primavera!
A alma, cheia de flores, resplandece,
Crê no Bem, ama a vida, sonha e espera,
E a desventura facilmente esquece.
É a idade da força e da beleza:
Olha o futuro, e inda não tem passado:
E, encarando de frente a Natureza,
Não tem receio do trabalho ousado.
Ama a vigília, aborrecendo o sono;
Tem projetos de glória, ama a Quimera;
E ainda não dá frutos como o outono,
Pois só dá flores como a Primavera!
Theotonio de Paiva Comentário de Theotonio de Paiva em 30 maio 2009 às 14:56
Há ainda um outro problema. A poesia em questão é muito interesante. A utilização da ironia, que efetivamente vem de “eironeia”, e quer dizer “questionamento”, é muito bem empregada pelo autor. No entanto, como ela vem sendo apresentada pela mídia como uma expressão pornográfica, já li diversos comentários em blogs como se fosse uma obra de baixo o nível, o que absolutamente não é, criou-se uma indisposição manifesta contra a obra e o poeta. Ora, esse tipo de recurso é típico de autores "moralizantes", inconformados com os rumos da sociedade de seu tempo.
De todo modo, o mais grave nisso tudo é apresentar esse material para crianças de 9 anos, cuja capacidade, pelo menos na média, de compreender essa intenção subjacente do autor ainda é muito reduzida. É ainda nos adultos, como podemos ver pelos comentários em internet, tvs e jornais...
Theo
Elianne Diz- Laura Diz Comentário de Elianne Diz- Laura Diz em 30 maio 2009 às 15:39
O texto irônico é mto inteligente e bom, apenas impróprio- vc tem razão o autor vai ficar mal visto sem ter merecido. E o Manoel de Barros? o que ele escreveu p ser proibido? não conheço- apenas li poeminhas dele tão singelos e belos.
Bj Laura
Helô Comentário de Helô em 30 maio 2009 às 15:43
Theo
Gostei do seu questionamento. Seu comentário me fez refletir e pensar o que há por trás de toda essa exposição da poesia na mídia. Não resta dúvida de que uma das finalidades é atacar o Serra, mas também tem o lado moralista que você citou.
Beijos.
Theotonio de Paiva Comentário de Theotonio de Paiva em 31 maio 2009 às 16:14
Exatamente. Fico impressionado com esse tipo de indução. Colocar um poeta como Manoel de Barros como um autor desqualificado, ou é desconhecimento da poesia produzida por ele nos últimos sessenta anos, ou é má-fé. Por seu turno, retirar do texto em questão, de autoria de Joca Reiners Terron, o verso "Nunca ame ninguém. Estupre.", é, no mínimo, desconsiderar qualquer vinculação crítica à famosa frase do ex-governador de São Paulo, Paulo Salim Maluf.
Theo

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