Tem havido leituras sentimentais da situação européia, que atribuem simplesmente a Senhora Ângela Merkel a ânsia de austeridade a qualquer preço, simplesmente para eliminar o estado de bem estar Europeu. Acho que estas interpretações não dão a verdadeira preocupação da primeira ministra Alemã e só servem para que não se foque no principal.
Talvez o ministro das finanças alemão tenha deixado escapar o verdadeiro medo sobre o fim do Euro, o desastre que seria isto para a economia Alemã. Um relatório do governo Alemão vazou em parte prevendo uma queda somente no primeiro ano de 10% na economia Alemã e um desemprego de 5 milhões de alemães (vide aqui). Porém toda esta tragédia talvez esconda algo mais perverso, a desgraça Alemã pode vir se tornar a redenção dos países periféricos europeus. Vejamos porque.
Países como Portugal, Espanha, Grécia e Itália tinham sua pauta de exportações há vinte anos fortemente abaladas pela concorrência Chinesa e de outros países asiáticos que concorriam exatamente em produtos de baixo valor agregado.
Como uma solução a esta concorrência o fechamento da economia européia causou uma espécie de conforto momentâneo através da criação do Euro. Tanto estes países como a Alemanha (que passava pelo custo de uma reunificação) tiveram num Euro no início desvalorizado (começou em 1999 1Euro = 1,16 US$, passando em 1 Euro = 0,85 US$ em fins de 2000 início de 2001), quando a Alemanha começou a fortalecer sua economia, naturalmente o Euro subiu de cotação atingindo por volta de 2008 uma valorização de quase 100% em relação aos valores mais baixos (1 Euro = 1,58 US$).
Desde o início do Euro ele desarranjou a economia dos países periféricos, no início importando uma inflação de algo em torno de 20% a 30%. Após esta inflação inicial, houve um breve período de bonança antecedeu o período do Euro forte. Com um Euro forte e com um sistema bancário irrigado com o novo Euro, a falta de rendimento dos países periféricos foi suprida com o crédito, crédito este utilizado em grande parte para comprar produtos alemães, fortalecendo ainda mais a economia daquele país. Diga-se de passagem que os produtos de baixo valor agregado, com um Euro forte perante o dólar, facilitou o ingresso de produtos chineses e de outros países asiáticos.
Chegado o momento de pagar as dívidas privadas, feitas durante o Euro forte e crédito abundante, o que acontece. Os bancos privados simplesmente não tem recursos para isto, pois não houve aumento real de ganho na economia dos países periféricos. O que se faz? Os governos adquirem estas dívidas para, segundo a mentira corrente, não prejudicar a economia como um todo.
Para que os governos consigam pagar estas dívidas, eles deverão cortar todos os benefícios sociais acumulados durante décadas, porém o objetivo disto não é simplesmente cortar benefícios, é sim salvar o Euro e salvar principalmente a economia Alemã. Por que principalmente salvar a economia Alemã, simples se cada país voltar as suas moedas originais e estas oscilarem em relação ao dólar, a libra, o marco e o franco, elas chegarão a um novo ponto de equilíbrio que passará por uma recuperação de suas exportações perante aos países de economia mais forte e na atualidade não sofrerão tanta pressão da economia chinesa. A pressão da economia chinesa não será tão forte neste momento, principalmente porque a pauta de exportações chinesas está evoluindo mais na direção de concorrer com países como Alemanha e Estados Unidos do que Portugal e Espanha. O governo Chinês para garantir a exportação de produtos industrializados de maior valor agregado, pode abrir mão de parte da exportação de artigos como sapatos e vestuário, entretanto automóveis, eletro-eletrônicos, químicos e outros eles não abrem mão, e exatamente por problemas estruturais (carência de energia e outros recursos naturais como metais raros) é onde a indústria Alemã perde competitividade.
Agora vamos a outro cenário, o cenário que se avizinha, a Alemanha assumindo grande parte dessas dívidas. Numa situação normal, os países periféricos europeus venderiam por conta de suas dívidas os ativos restantes, um pelo passe de mágica da Senhora Merkel. Entretanto há outras condicionantes que aumentam a angústia da primeira ministra Alemã, nos primeiros movimentos de vendas de ativos, começa aparecer compradores de fora da zona do Euro, estas compras a longo prazo levarão o Euro a um constante envio de recursos para fora da região, enfraquecendo cada vez mais o poder de compra dos países da União Européia, semelhante a um processo que para nós não é nada novo.
Em resumo, o fim do Euro é o desastre da Alemanha, mas a sua manutenção também não é melhor.
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