Deformações ideológicas não se acabam do dia para a noite.
Vivemos, mais de uma década, sob a ditadura do pensamento único, do “politicamente correto”.
A paixão política passou a ser um “defeito”, aliás quase todas as paixões passaram a ser
um defeito, um “fanatismo”.
Claro que não se está louvando aqui a irracionalidade, o sectarismo, a imbecilidade.
Mas a história humana é feita de paixão.
Ou será que não foi preciso paixão para os homens que deram a vida nas barricadas da Revolução Francesa, para que
aquele país e o mundo pudessem gritar “Liberdade, Igualdade,
Fraternidade”?
Faltou paixão, aqui, aos Henriques Dias, negros, aos Felipes Camarão, índios, para lutarem em Guararapes ao lado do
português João Fernandes, fundando o sentimento nacional?
Ou a Tiradentes, para enfrentar o cadafalso? A Getúlio, para a bala no
coração?
O neoliberalismo pretendeu reduzir o desejo humano a um “negócio”, material ou sentimental, que deve trazer vantagens. Era a
“lei de mercado” transposta para a existência do ser humano. Um verso
de uma música dos Titãs, fora do contexto, servia de “hino” desta
anulação da paixão: “eu só quero saber do que pode dar certo, não tenho
tempo a perder”.
A história das lutas sociais, das lutas que ao longo de milhares de anos, homens e mulheres de todas as partes do
globo terrestre fizeram em busca da liberdade, da justiça, da
dignidade, não importava muito. Era tempo perdido. Era o passado, e o
passado, passou. Era “o fim da história” que o tal Francis Fukuyama,
aquele historiador a quem a história já quase esqueceu, proclamava, sob
o aplauso dos medíocres.
Virou algo “arcaico”, “jurássico”, anacrônico ter paixão pelo Brasil e pelo povo brasileiro.
Importante era ser certinho, arrumadinho, “preparadinho” e fazer “o dever de
casa” direitinho, como os nossos comentaristas políticos e econômicos
pregavam nos jornais e na televisão. Nenhuma atenção era dada a que
este “dever de casa” vinha de professores de fora, que queriam
ensinar-nos a ser como convinha a eles, não a nós mesmos.
Mas a história não acabou.
A realidade, o processo social, retornou, com suas voltas caprichosas e tantas vezes incríveis, o fio desta história.
Lula, o sindicalista que surgiu condenando Vargas, virou o estadista que
repetiu seu gesto de banhar de petróleo sua mão e, mais ainda, praticou
uma política de composição, tolerância e alianças como a do velho
Getúlio, a quem chamavam de “pai dos pobres e mãe dos ricos”. Embora os
pobres tenham ganho muito no Governo Lula, a verdade é que os ricos não
perderam, não é? Está aí o lucro dos bancos que não nos deixa
enganados.
Apesar disso, porém, como a Getúlio, a Jango, a Brizola, os ricos o odeiam. Odeiam não apenas porque ele vem da pobreza. Odeiam
porque ele não a abandonou, não lhe virou as costas. As elites
brasileiras só admitem a entrada dos pobres nos seus salões se for para
servir-lhes obsequiosamente, como mucamas ou garçons.
A história seguiu, e o povo brasileiro viu, com Lula, que podia dirigir seu país.
Viu mais: que este país, invadido economicamente, culturalmente e
polticamente pelos “monitores” daqueles professores que lhe cobravam,
ferozes, “o dever de casa” , não precisava ser como lhe diziam que
deveria ser.
Eu vejo com tristeza muitos homens e mulheres das gerações mais velhas tornarem-se tíbios, medrosos, a encherem de
vírgulas e concessões o que dizem, para deixar aceitáveis pela ditadura
da mídia a verdade que já não sabem dizer de forma aguda e cortante.
Falta-lhes já a pureza e a sinceridade do menino que, na praça cheia, rasgou o
véu do temor e da conivência gritando que o rei estava nu.
Com mais tristeza ainda vejo outros, que eram jovens abandeirados de paixões e
amor a este povo se converterem em instrumentos de seus algozes, com a
pífia desculpa de que os tempos são outros, quase a dizer que aquele
mundo de opressão e dominação acabou. Talvez tenha acabado, sim, mas só
para eles, não para as imensas massas humanas a que um dia disseram
servir.
Não são todos, talvez não sejam sequer muitos, mas foi a eles que o sistema deu luz e notoriedade e fez aos outros temer não
serem aceitos, acolhidos, amados, porque teimavam em ser, mesmo que por
dentro e silenciosamente, o que eram.
Que lindas as supresas da história, porém.
Dos frangalhos de Brasil que a ditadura e, depois, a mediocriade e o entreguismo dos governos neoliberais nos deixaram,
rebrotamos, como nos versos de Neruda sobre a Espanha destruída pela
barbárie franquista:
“mas de cada buraco da Espanha, sai Espanha, e de cada criança morta nasce um fuzil com olhos”.
Pois correndo o risco de parecer primário, poderíamos dizer que sai agora um fuzil com
teclas. Esta nova “arma”, a internet, foi posta à prova, nestas
semanas, em rápidas escaramuças: o clipe serrista da Globo e as
manipulações difamatórias dos tucanos. Os tanques pesados da grande
mídia continuam rolando, potentíssimos. Mas nós já podemos fustigá-los e
fazer recuar.
Nós, os que estamos ainda no começo da caminhada, que temos o coração em chamas pelo Brasil, precisamos muito dos corações
que nunca deixaram esta brasa apaixonada se apagar. Precisamos de sua
sabedoria e de sua coragem, que certamente é maior que a nossa, pois já
passou por batalhas mais longas e mais duras.
Somos soldados deste combate pelo povo brasileiro. Precisamos de comandantes que nos ajudem a
lutar e vencer. A paixão e o amor não nos faltam.
Então, quem sabe, juntos, poderemos soprar as brasas que se reduziram pela descrença,
pelas decepções, pelas derrotas e, finalmente, em nome de milhões de
nossos irmãos que nada têm de rico, senão a esperança, em nome de um
país que não quer mais viver na barbárie de uma condição colonial,
possamos enfim dar ao Brasil o destino próprio que uma nação e um povo
como o nosso merecem.



Exibições: 68

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço