RONDÔNIA DE ONTEM

Este é o nono artigo da série que relata alguns fatos ocorridos em Rondônia no período de transição entre o Território Federal e o Estado.


Montezuma Cruz


Sorridente, o gaúcho Adão Minski, 48 anos, filho de imigrantes poloneses, desembarcou na acanhada estação rodoviária em Vilhena, a 750 quilômetros de Porto Velho. Eram 22h de um sábado de outubro de 1980, quando ele se levantou do banco de madeira para elogiar Cerejeiras, pouco antes de embarcar para o sul, num empoeirado ônibus da Eucatur.


– É a única terra generosa que meu povo deveria procurar. Vai deixar Colorado (do Oeste) para trás. Só que a estrada está uma judiação, ruim demais. As mercadorias demoram a chegar e os armazéns estão vendendo tudo muito caro – disse-me. Ouvi-o para uma reportagem de O Guaporé, mostrando a corrida migratória rumo a Rondônia.


Eles apanham malas, bolsas, sacolas, sacos com mantimentos e objetos. E se preparam para seguir 1,5 mil quilômetros e depois, quase dobro disso para chegar ao oeste paranaense, de onde procedia a maior parte delas.


Um dos quase cem passageiros à espera dos respectivos embarques, Minski dizia não se contentar apenas com lavouras de arroz, milho e feijão, ou com os pomares plantados pelo irmão dele, um ex-sojicultor em Cascavel (PR). Pretendia montar uma borracharia e criar porcos de raça.


O mais extenso dos territórios federais (243 mil Km²) desafiava o governo federal a enfrentar problemas de saúde, agricultura, segurança e educação, que aumentavam em conseqüência do fenômeno migratório. Das 35,3 mil pessoas que passaram por Vilhena no primeiro semestre daquele ano, 25 mil vieram do Paraná, de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo e Minas Gerais, a maioria mulheres. Ficaram no território 20,08 mil, dos quais, 44,3% em idade pré-escolar. O restante tomou o rumo do Acre, Mato Grosso e Roraima.


Tão frenético movimento de seres humanos na divisa entre os estados de RO e MT, atraiu três oficiais militares do Conselho de Segurança Nacional para uma inesperada visita a Vilhena. Eles foram embora com um relatório no qual enfatizavam o avanço da ocupação da Amazônia Ocidental.


O Paraná liderava em número de migrantes. Das seiscentas famílias desapropriadas pela Itaipu Binacional na região oeste daquele estado, a metade quis mudar-se para Rondônia, enquanto outras preferiram Altamira (PA), na Rodovia Transamazônica.


O gerente do Centro de Triagem de Migrantes (Cetremi), Carlos Alberto Rodrigues Moreira, um mineiro que já vivera na África e atuou como intérprete e países europeus, se espantava com tanta gente.


– Nesses quatro ônibus lotados vindos do Paraná têm agricultores que venderam suas terras no Paraguai – ele comentava. Eram os brasiguaios, cuja fama começava. Gente que vendia seus 5, 10 ou 20 alqueires por lá, para adquirir 30, 50, ou 80 em Rondônia.


A terra era barata e o solo muito fértil nas regiões que mais absorviam esses migrantes. Projetos do Incra também atraíam essa gente, já que o módulo rural na época media cem hectares. Formavam-se filas para a seleção de candidatos aos lotes.


Carlos Alberto admirava o viés sociológico dessa “invasão” de migrantes, formada ainda por agricultores expulsos pelo crescimento da mecanização das lavouras. No Paraná, principalmente.


– Ao deixarem suas regiões e depararem com a imensidão de terras, eles percebem vantagens e convencem parentes e amigos a se mudarem também – ele dizia.



twitte.com/MontezumaCruz


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