ATUALIZAÇÃO

vide atualização no final do texto

O Homem sério chamado Jacob

por Sérgio Cabral

Quem conheceu Jacob do Bandolim apenas pelo disco, não pode imaginar como ele era. O som que transmitia, as palhetadas malandras, moleques, irônicas não poderiam ser daquele homem grave, organizadíssimo, escrivão da 11ª Vara Criminal, autoritário. Havia quase uma incompatibilidade física entre aquele sujeito grandalhão, de cara fechada, com seu bandolim pequenino, que parecia ter quinhentas cordas.

Todos nós, seus amigos, tínhamos por ele, além de um grande amor e uma profunda admiração, um respeito quase de filho para pai, de aluno para professor.

Até os integrantes de seu conjunto, gente experiente, madura, como Dino, César faria, Gilberto e outros, quando erravam uma nota ou deixavam de fazer qualquer coisa como o combinado, baixavam a cabeça temendo o olhar de desaprovação de Jacob.

Lúcio Rangel, por exemplo, mais velho do que ele, tinha medo de beber perto de Jacob. Lúcio Sabia que Jacob não gostava de vê-lo bebendo. Então Lúcio como criança, fazia malcriação. Houve um dia que Jacob sofria horrores com uma úlcera, enquanto Ciro Monteiro, ao seu lado, sorvia alguns copos do generoso escocês. E comentava:

- O médico me proibiu de beber, mas eu não paro. Sei lá, amanhã, eu sou atropelado aí e o que é que adianta? Essa não.

E Lúcio Rangel:

- Isso mesmo, Ciro, tem gente que não bebe e vive cheio de doença.

Jacob, ao meu lado, comentava, rindo baixinho, para Lúcio não ouvir:

- Você está vendo o Lúcio Rangel? Ele está fazendo malcriação.

Porque Jacob sabia do respeito que inspirava nas outras pessoas. Mas era generoso, fiel, amigo, embora muitas vezes mal humorado. O seu preconceito contra a bebida era realmente um pouco de despeito, porque não podia (e não sabia) beber. Houve um dia que me deixou e minha mulher, na mesa junto com dona Otília, num almoço em seu casarão em Jacarepaguá, para ir para a cama dormir porque não aguentava: bebera dois copos de vinho durante o almoço.

Mas nada disso impedia, por exemplo, que nas sessões que promovia em sua casa, às sextas-feiras, a cerveja e o uísque rolassem a vontade. Radamés Gnattali, Pixinguinha, Elizeth Cardoso, Paulinho da Viola e os mais jovens compositores e cantores se misturavam na mais fraternal convivência que se poderia imaginar. Jacob reinava com seu bandolim, que todos ouviam em silêncio religioso (ele não admitia qualquer ruído quando tocasse) .

Um dia, ele estava na sala com seu conjunto e eu na varanda, junto com outras pessoas. Quando o violonista Codó, sentado ao meu lado, virou o rosto para mim, estava chorando.

- É um gênio, este cara – disse Codó, entre lágrimas.

No Conselho de Música Popular do Museu da Imagem e do Som, era uma dos mais atuantes. Adorava as coisas polêmicas, falava alto com aquela voz que parecia ser de locutor de rádio, fazia a ata das sessões com clareza absoluta, defendia posições radicais para alguns problemas, ele era também um apaixonado.

Mas, as vezes tinha até humor. Como naquela noite em que houve um show na Universidade Markenzie, em São Paulo, apresentado por Sérgio Porto. No meio do espetáculo, Sérgio perguntou a Jacob, se achava que ele ia bem como animador de show:

- Muito bem – respondeu Jacob. Para César de Alencar só está faltando a burrice.

Outro adjetivo que cabia bem para Jacob era o de modesto.. Ele era aparentemente um arrogante ou autosuficiente... Sei que há muita gente que pensa que era um vaidoso, mas era só nas palavras, não nas atitudes. Na verdade, subestimava seu valor, como aconteceu na Casa Grande, no dia do seu primeiro enfarte. Quando lhe contei a opinião que Claude Lutter tinha dele, fez uma cara de quem não acreditava. Outra vez, lhe convidaram para fazer um show de boate e ele me disse:

- Vou pedir muito. Vou pedir cem contos. Não sabia que poderia pedir, tranquilamente, 500 contos por dia, que seria aceito.

No memorável show que ele e seu conjunto, Elizeth e Zimbo Trio fizeram na Casa Grande, qualquer um que tenha em casa os dois volumes da gravação do espetáculo ouvirá no meio de uma música um grito de “bravo”. Era Jacob, que se surpreendia com o entusiasmo do público e o saudava.

Confessava-se um saudosista, embora considerasse que não havia mais vez para o chorinho no Brasil. Mas entusiasmava os jovens com grande carinho. A sua colaboração ao I Festival Universitário de Música foi muito além de simples integrante do júri de seleção. Ele dava palpites nos arranjos, estimulava os compositores que considerava ter qualidade.

Na madrugada de sua morte estavam junto ao corpo, na saguão do Museu da Imagem e do Som, chorando, as meninas do GRIM – Grupo Interuniversitário Musical - que promove o Festival.

Naquela mesma madrugada, músicos, jornalistas, amigos e admiradores de Jacob choravam a morte do grande artista e fabulosa pessoa humana. Uma coisa muito desagradável aquela morte. O baterista Edson Machado, muito triste, dizia uma coisa que todos nós pensávamos:

- Pôxa, com tanta gente aí pra morrer, hein, logo o Jacob..."

Felizmente as previsões de Jacob quanto ao futuro do "Chorinho" no Brasil não se concretizaram.

Ao lado de Pixinguinha tornaram-se ícones do gênero, contribuindo para o sucesso perene do Choro, por gerações.

Mais informações sobre Jacob do Bandolim AQUI.

Atualização (10/08/2016)

Sarau com Jacob do Bandolim e Conjunto Época de Ouro realizado na casa de Neusa França, em 18/11/1967. (Fonte: IPB - Instituto Piano Brasileiro).

************


Texto de Sérgio Cabral publicado no jornal O Pasquim, nº 9, pág 14 e 15, agosto de 1969.

***********

Exibições: 183

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço