O imigrante árabe e o carnaval do Rio de Janeiro*

Por João Baptista M. Vargens**


Quando os primeiros imigrantes árabes aportaram no Rio de Janeiro, na segunda metade do século XIX, compartilharam do “glamour” parisiense nos trópicos. Passeavam pela Ouvidor e viam a gola godet afagando suavemente o pescoço das moçoilas, que trajavam, invariavelmente, saias com plissé. Os lábios plenos eram delineados por bâton e as maçãs do rosto acetinadas com rouge.

Quando chegava fevereiro, participavam nossos sírios e libaneses da feitura dos limões-de-cheiro, utilizados no Entrudo, e, desse modo, faturavam alguns tostões. Da mesma forma que acontecia na Europa, os folguedos que antecediam à Quaresma no Brasil não tinham uma só moldura. Havia dois tipos de Entrudo: o familiar e o popular. Aquele, comemorado no interior das residências; este, uma verdadeira balbúrdia de rua, batalha de águas, perfumes e de outros líquidos menos aromáticos.

Os estrangeiros, imigrantes de modo geral, eram os principais alvos das brincadeiras e viam-se enfarinhados e molhados, sendo vítimas de chacota da população local.

“O tal brinquedo de Entrudo
Que lhe chamam Carnaval,
É uma ideia infernal;
Confundem-se hierarquias
É tudo igual em três dias.

O Mágico, 29/02/1862

Com a reforma urbanística empreendida pelo prefeito Pereira Passos, o Rio ganha uma nova fisionomia na virada do século XX e as festividades momescas populares deslocam-se para a Praça XI, a Cidade Nova. Afinal, a Rio Branco é palco dos corsos, coisa de grã-finos.

Na segunda década do século passado, surgem as escolas de samba, termo cunhado por Ismael Silva, bamba do Estácio, bairro onde havia a Escola Normal, de formação de professores.

Na Praça XI, viviam muitos imigrantes, entre eles árabes, que, devido à sua principal atividade econômica, o comércio, estabeleceram sólidos vínculos com a população local. Era na Praça XI que também estava fincado o zungu da Tia Ciata, famosa festeira baiana, reverenciada por Mário de Andrade em Macunaíma.

Pelo visto, a cumplicidade do imigrante árabe com o carnaval carioca varou os séculos XIX e XX.

A partir dos Anos Dourados até a década de 80, os bailes oficiais de carnaval do Rio de Janeiro eram realizados nos clubes Monte Líbano e Sírio-Libanês. Lá, pontificavam os exuberantes concursos de fantasias, acompanhados pela TV por todo Brasil, nos quais Clóvis Bornai e Evandro de Castro Lima eram hors-concours. Na mesma época, reinava Abrahão Haddad, eterno Rei Momo do Rio, monarca absoluto, majestade de todo o ano, pois promovia serestas encantadoras numa idílica rua da Tijuca.

E a aliança carnaval-imigrante árabe não para por aí. Sabem os leitores que o compositor que mais venceu concursos de samba-enredo foi Hélio Turco da Mangueira? E, falando em Mangueira, não podemos deixar de falar na legendária Portela, detentora de 21 títulos. A campeoníssima de Oswaldo Cruz tinha nos bons tempos um ritmo singular e quem nos contou foi o iluminado Paulinho da Viola, um dos ícones da Música Popular Brasileira:

“Nunca mais ouvi aquilo na vida. O som, tudo diferente. Fechado, quase maçônico. Na batucada havia cavaquinho, palmas, vários pandeirinhos. O pai do Jamil fazia os pandeirinhos, os famosos adufes sem platinelas”. (in A Velha-Guarda da Portela, João Baptista M. Vargens e Carlos Monte).

Um outro Jamil, o Cheiroso, presidiu, por muito tempo, a Império Serrano, vizinha da Portela, e, sob seu comando, os imperianos conquistaram inúmeros carnavais.

Por fim, a Beija-Flor de Nilópolis, localizada na Baixada Fluminense, destaca-se nas últimas décadas e sua diretoria é formada por membros da colônia libanesa.

E as marchinhas carnavalescas? Nássara, David Nasser... Quanta gente...

Vamos parar por aqui. Está chegando a hora... Vou entrar nesse bloco...

Allah- lá – ô, ô, ô,ô, ô, ô, ô,
Mas que calor, ô, ô, ô , ô, ô, ô
Atravessamos o deserto do Saara
O sol estava quente e queimou a nossa cara

Allah – lá – ô, ô, ô, ô, ô, ô,ô

Viemos do Egito
E muitas vezes
Nós tivemos de rezar
Allah, Allah, Allah, meu bom Allah

Mande água pra Iaiá
Mande água pra Ioiô
Allah, meu bom Allah.

**João Baptista M. Vargens, professor da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro)

* Para Janaina Sombra

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Comentário de joao carlos pompeu em 21 fevereiro 2009 às 13:24
Guardadas as proporções, podemos comparar a forte presença do imigrante judeu na origem da indústria cultural do cinema de Hollywood com este post da participação do imigrante árabe, sírio-libanês, no carnaval do Rio.
Comentário de Helô em 21 fevereiro 2009 às 13:50
Adorei, Carlos.
Recentemente, li um fato "engraçado" sobre a chegada dos árabes no Rio de Janeiro. Uma das famílias chegou justamente no carnaval e ao passar pelo centro se deparou com foliões fantasiados de árabes. Foi uma alegria geral, até constatarem que aqueles "árabes" não falavam a mesma língua.
Agora vou vestir minha fantasia de odalisca comprada no SAARA :)) (Sociedade de Amigos e Adjacências da Rua da Alfândega).
Beijos.

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