O IMPORTANTE É COMPETIR, É CONVERSA PRA BOI DORMIR

Essa frase “O importante é competir” é de uma hipocrisia sem limites. O importante é vencer, mesmo que seja necessário competir.

Sempre fui um “piolho de sinuca”, como é conhecido nas cidades do interior, aquele sujeito que mora na “sinuca” e nas horas de folga vai pra casa. A minha turma era assim e até completarmos 18 anos, o famoso “Tico do Mouco”, que era escrivão da polícia e tomava conta da sinuca lá em Picuí, não deixava a gente entrar lá e quando se ausentava, surgia a nossa vez de jogar. Só que, aqui acolá, voltava de supetão, nos expulsava do ambiente e aí, como represália, não pagávamos o “tempo” e mandávamos ele cobrar na justiça. Se meu amigo Hominho chegar a ler isso, não vai deixar que eu passe por mentiroso.

Agora, já depois dos cinqüenta, me mudei pela última vez e como havia um espaço, que construí com essa finalidade, resolvi comprar uma sinuca e pensei, cá com meus botões: agora eu mato a fome de jogar. Instalamos a bicha e começou o tirinete: era de manhã, de tarde e de noite, até a mulher jogava e eu comecei a perceber que as vitórias iam ficando cada vez mais longe uma da outra, a medida que os “adversários” evoluíam, enquanto a paciência ia fugindo com uma freqüência muito maior. A coisa foi se agravando e, quando quebrei o terceiro taco, abandonamos a atividade e o cupim tomou conta da mesa.

O carteado sempre foi outra paixão, com cerveja ou sem, virávamos as noites ao redor de uma mesa onde o sono não tinha vez, mesmo assim, perdi a conta dos baralhos que rasguei. É que ninguém é de ferro e diante de uma possibilidade remota, uma única carta botava a disputa de uma noite inteira nas mãos adversárias.

No vídeo game das crianças não era diferente. Uma vez comprei um lá em Fortaleza, viajei para Picuí e, no caminho, só pensava em inaugurar o troço e ganhar, lógico. Acontece que tinha um jogo lá, onde eu tentava me movimentar para um lado e o negócio só ia para o outro e na próxima vez era a mesma coisa, aí fui me aporrinhando e acabei com a brincadeira num único sopapo, foi caco pra tudo que era lado, a molecada começou a chorar e, arrependido, entrei no carro e fui comprar outro em Campina Grande, porém nunca mais olhei para o tal.

Quem me conhece sabe que sou um apaixonado pelo Fluminense. Começo assistir os jogos e aguento até o empate, se ficar no zero a zero. Outro dia o Fluminense jogava não lembro com quem, abriu o placar e lá pelas tantas o outro time empatou. Antes que passasse a reprise do lance, peguei o controle, comecei a apertar o botão de desligar e nada, não funcionava. Aí dei um bofete no receptor da sky e nada. Dei outro e nada, que coisa? Fui ficando sem alternativas: peguei o próprio, arranquei do móvel com a fiação pendurada, arremessei no chão e, enfim, vi a telinha azul.

Diante dessa realidade, que alguém pode até considerar de certo modo radical, gostaria de desmistificar essa frase hipócrita. Participar de uma olimpíada, mesmo ficando em último lugar, pode ser considerado uma derrota? Todos saem ganhando. Agora, perder o sono por conta de uma partida de sinuca ou de buraco, qual é a vantagem que traz? É só desgosto.

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