O INTELECTUAL DIANTE DO TEMPLO

 

As palavras podem expressar sabedoria, mas só as ações podem conter virtudes.

Hideraldo Montenegro

 

O que é a realidade? Aliás, o que é a realidade para o senso comum e para a filosofia e ciência? Mas, citar Descartes, Kant ou Foucault, por exemplo, seria mergulhar na própria problemática que se propõe colocar aqui.

Falando de um modo mais simples (senão, prático), o que é a realidade para o povo no seu afazer diário e para o intelectual?

A resposta a essa questão define o que vem a ser alienação. Para o senso comum, os intelectuais são alienados, vivem em outra realidade (abstrata) que não corresponde à realidade vivida no dia-a-dia. Na própria linguagem erudita há, para o senso comum, um distanciamento do mundo real. Por outro, para o intelectual, as pessoas, de uma forma geral, vivem imersas na ignorância e não têm consciência da estrutura sociocultural e econômica em que vivem e, portanto, são alienadas.

Essa dicotomia gera um abismo intransponível entre o pensamento erudito e a vida prática. Um problema epistemológico! A teoria não consegue invadir o universo prático, efetivo, embora se arvore conhecer todos os meandros que o faz se mover e, as pessoas comuns não entendem, nem conseguem fazer uma ligação efetiva com os argumentos retóricos que os intelectuais insistem em utilizar, numa linguagem rebuscada e pedante e que parece, de fato, distante da realidade vivida pela maioria das pessoas. Mas, o problema não é só de comunicação, falta uma ligação concreta entre esses dois universos. Alguma coisa não está sendo traduzida corretamente e assimilada devidamente naquilo que podemos chamar de realidade. A teoria tem construído palavras e nas próprias palavras tem erguido um universo à parte. Esse universo é lógico e calcado num sistema axiomático bem fundamentado, contudo, demonstrando suas limitações, tem esbarrado numa falta de feedback evidente com seu próprio objeto de pesquisa, indicando, consequentemente, alguma falha e incompletude em seu postulado e postura.

Assim, conteúdo e forma parecem não encontrar no discurso teórico uma sustentação plausível para o senso comum. Dessa forma, continua a caminhada apartada entre quem vive a dura realidade do dia-a-dia e a postura teórica dos intelectuais que não conseguem traduzir corretamente a própria realidade da qual tentam interpretar, entender, estudar e conceituar.

O fato é que a luta dialética entre estes dois universos (do senso comum e da ciência) demonstra não encontrar nas teorias uma justa tradução que consiga harmonizá-los. Assim, a ideia caricata do intelectual no mundo da lua (a luta entre Sócrates e Aristófanes – longe de querer resgatar algum fundamento sofista) ainda persiste. E, não deixa de retratar a verdade desse desencontro. Ou seja, de que a consciência da alienação (ou, do que seja alienação) pode estar naquele que se debruça em estuda-la, mas que, ao fazê-lo, nela se perde.

O discurso intelectual, assim, não encontra eco nas pessoas porque, de fato (seja por forma ou conteúdo ou ambos), não representa realmente a realidade que as pessoas vivem efetivamente.

Por que isso ocorre? Ora, não se trata apenas da forma (linguagem), mas com certeza também do conteúdo e isso exige uma considerável revisão nas teorias e paradigmas até agora fixados como leis. Não é o povo que precisa mudar para compreender o que está sendo-lhe dito, mas o próprio cientista que o estuda e que não consegue apreender todos os fatores que o envolve. Neste sentido, há uma falha cognitiva do próprio cientista, preso tão somente num mar de axiomas. O intelectual se perde nas palavras e não consegue alcançar o que está além das teorias que absorve e que o condiciona, limitando suas ideias, pensamentos, interpretações, traduções e a própria apreensão totalizante da realidade.

O fato é que, partir dessa constatação, alguma coisa está fugindo ao alcance do cientista social e, portanto, requer uma guinada paradigmática considerável para apreender aquilo que lhe está escapando. Mas, para tanto, é necessário que este faça uma autocrítica e uma autoavaliação. A presunção de que é o dono da verdade, pois, o que afirma é “ciência”, constatada e comprovada pelas evidências, só vai fortalecer essa postura alienada.

Ao olharmos, por exemplo, para um acadêmico, parece estarmos apreciando um ser exótico, vivendo em outro universo porque seu discurso, na maioria das vezes, não corresponde à realidade em que se vive no dia-a-dia. Se de fato, existem alguns compreensíveis e necessários jargões específicos de cada disciplina e ciência há, entretanto, um pensamento divorciado e pouco pragmático na elaboração do raciocínio. Ou seja, não são apenas as palavras que criam o abismo entre os universos citados, mas as bases teóricas que as produzem, ou seja, a própria realidade de cada um. Então, o que falta a ambos para haver consenso e percepção da realidade em seu sentido subjacente e unificante?

A questão que se apresenta é que nem as massas entendem os intelectuais, nem os intelectuais entendem, de fato, as massas e a distância entre ambos permanece a mesma: a realidade de cada um. Até aí, o problema é relativamente menor. Não existe uma necessária articulação entre o povo e os intelectuais, exceto que este último seja engajado e procure influenciar a primeira com suas ideias e conhecimento, porém, mesmo aqui aparece um paradoxo: de que serve o conhecimento senão para produzir efeitos efetivos e, no caso das Ciências Sociais, transformador? Assim, dentro deste prisma, a comunicação é essencial e se há um barulho nela, então, há algo errado.  Seja como for, essa disparidade entre esses dois universos denuncia que o pesquisador social não está alcançando empiricamente o objeto que estuda integralmente. Ou melhor, que sua ciência (ou postulado em que se baseia) está falhando. Ou melhor, que sua ciência está falha. Ou talvez, o problema não seja teórico nem metodológico, mas do próprio pesquisador. Mas, talvez o produtor de conhecimento esteja herdando hábitos e vícios intelectuais inseridos como uma praga nos meios acadêmicos e o único meio de eliminá-lo seja através de uma reforma profunda em sua base, ou seja, no ensino. O fato é que essa postura vem sendo perpetuada e não há nenhum indício para corrigi-la. Talvez, quem sabe, a conscientização desse problema não produza uma reflexão e, assim, antes de tudo, produza transformações no próprio ensino e nos paradigmas encrustados nos meios acadêmicos. O resultado disso (dessa reflexão) não se traduza em benefícios sociais evidentes?

Todos sabemos que o termômetro que mede as ações políticas de um governo é o povo, afinal, é (ou deveria ser) para ele que o Estado existe (ou deveria existir – embora, saibamos, todos os Estados capitalista montam esse discurso, mas o que o fazem é defender interesses das grandes economias). Ora, quando um cidadão comum vai a um posto de saúde e não consegue ser atendido, quando um cidadão comum ver seus filhos tendo uma educação pública de péssima qualidade, quando um cidadão comum enfrenta uma árdua batalha para se deslocar através do transporte público, quando o cidadão comum enfrenta todo tipo de injustiça e exploração, quando o cidadão comum percebe que o poder de compra de seu salário fica cada vez mais diminuído, que avaliação pode esse cidadão fazer de um governo? Para ele, portanto, o discurso político desassociado de efeitos práticos não passa de demagogia. Para o cidadão comum não importa se o governo é de direita ou esquerda e não será o discurso que afirma “que está do seu lado”, “que está defendendo seus direitos” que o vai convencer, pois, afinal, não é isso que todos fazem? Não lhe parece, então, que um militante intelectual de esquerda, por exemplo, com seu discurso radical não passa de um idealista alienado e que sua defesa intransigente em relação a um certo governo socialista não tem nenhuma justificativa prática, afinal não é isso que ele percebe no seu dia-a-dia? E não será nenhuma teoria rebuscada que o vai convencer do contrário. Para o povo, todo político, seja de direita ou esquerda, está apenas o enganando. O povo não espera um futuro idealizado, mas um presente efetivo, não importa a estrutura que lhe forneça isso.

Mas, esse exemplo acima, só enfatiza uma dicotomia existente entre o universo intelectual e o senso comum imediatista. Quem é mais ou menos alienado não é a questão central. O fato é que ele existe por outra questão: a falta de autoconhecimento. Ou seja, a ignorância ainda estar presente em todos os meios e não são as informações que a pode removê-la.

O intelectual, enquanto cientista social, tenta apropriar-se da consciência do seu objeto de estudo e, assim, coloca-se acima, pairando além da realidade factual. Torna-se um alienado em seu discurso e em sua prática e postura. Considera-se superior e insensível a ouvir as vozes que lhe aponta uma outra realidade. Para ele, a realidade está nas teorias que fundamentam seu pensamento erudito. Ele, sim, é o verdadeiro tradutor das vozes dos explorados sem, no entanto, ouvir essas vozes! O que significa, nesse caso, que o intelectual desse tipo não se conhece, não percebe suas limitações e o quadro alienante em que está envolvido. Argumenta com lógico como um sofista, mas que a realidade o contradiz a todo instante quando não encontra ressonância em suas palavras. Quando tem a sensação que seu discurso cai no vazio. Interpreta essa falta de retorno como deficiência de quem o escuta, aos ignaros.

Quando Sócrates, através de sua maiêutica estimulava as pessoas a encontrarem as suas próprias respostas, estava mais do que demonstrando a existência de um processo cultural alienador; isso era uma questão essencialmente humana independente da cultura que se estivesse mergulhado ou a qual classe social se fazia parte. E, o Mito da Caverna de Platão traduz perfeitamente essa questão. O problema estava, assim, resumido a um ponto fundamental e essencial: o autoconhecimento.

Sem correr o risco de cairmos em procedimentos místicos, mas como podemos traduzir “ouça quem tem ouvidos, vejam que tem olhos”, afirmação (ou axioma) atribuído a Jesus e a palavra “despertar” utilizada pelos budistas e hinduístas, senão a mesma conotação da postura (ou metodologia) de Sócrates e o pensamento de Platão?

Como nenhum outro filósofo grego, Sócrates encarna com lucidez e método o que estava escrito no Templo de Apolo, em Delfos, como mapa indicativo do caminho a ser trilhado à sabedoria: “Homem, conhece-te a ti mesmo”.

Se alguns intelectuais, senão a maioria, falta sabedoria, o simples conhecimento profícuo confirma que não conduz a ela. Para tanto, só o autoconhecimento a poderá despertar. Basta lembrarmos que, hoje, um professor universitário ou um adolescente dispõe de mais informações (senão, numerosas) do que um Aristóteles, contudo, Aristóteles ainda permanece com uma sabedoria infinitamente superior a todos os acadêmicos contemporâneos.

Ou seja, entre conhecimento e sabedoria há uma distância incomensurável que só pode ser eliminada através do autoconhecimento, da própria reflexão, autocrítica e autoavaliação. Quebrar o paradigma que fossiliza a postura intelectual é um bom começo para encetarmos as necessárias transformações sociais.

 

Hideraldo Montenegro

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Comentário de Nena Noschese em 29 fevereiro 2016 às 11:44

Caro Hilderaldo,

Muito interessante sua reflexão sobre o intelectual e seu tempo ou em seu templo, no entanto uma parte importante da sua análise foi deixada de lado e ela na verdade é extremamente significativa.

O intelectual é também e antes de mais nada um H*** Politicus e nesse sentido é considerado igualmente intelectual o FHC e a Conceição Tavares, e isso faz toda a diferença.A sua posição política faz com que os mesmos textos clássicos sejam lidos de forma diferente e irão sempre justificar a sua posição particular, ou seja ,à la gauche ou à la droite.

Não existe meio termo, talvez infelizmente ou felizmente o que também dependerá da sua pessoal forma de ver o mundo.

Comentário de Hideraldo Montenegro em 3 março 2016 às 17:15

Nena, feliz com sua presença e comentários. Agradeço as informações.

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