(atualizado em 03/01/2010)

Xote, Maracatu e Baião. Mais que a tríade que deu luz ao Nordeste, Gonzagão desenhou uma cultura, como mostra novo livro de Bené Fonteles.

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obs: de acordo com o autor, Bené Fonteles, o livro, por enquanto, não está sendo comercializado. Está sendo distribuído a órgãos públicos. Fonteles aguarda que alguma Editora se disponha a fazer o lançamento para o mercado editorial.

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Rei do Baião? Mais. Luiz Gonzaga foi além de todos os seus pares ao criar a estética de um povo que não tinha voz

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O Xote das Meninas de Luiz Gonzaga e Zé Dantas

Com Luiz Gonzaga - 05/02/1953 - RCA Vitor - Álbum 801108

 

 

 

Gonzagão em 1947
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18 de dezembro de 2010
José Nêumanne* - O Estado de S.Paulo
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Saiba que lá pelos anos 60 do século passado a Música Popular Brasileira, dita MPB, vivia à mercê da guerra da turma do tamborim contra a patota da guitarra elétrica. Então, o pernambucano Luiz Gonzaga (homônimo do santo) do Nascimento (sobrenome inventado para comemorar a proximidade do aniversário dele com o Natal) foi despejado para o ostracismo total. Aí, emergiu das sombras a ruidosa figura do roqueiro capixaba Carlos Imperial e propagou a boa nova: "Os Beatles gravaram Asa Branca." Era mentira. Mas o "gordo da Corte" havia proferido uma sacada genial: o mulato da Chapada do Araripe não era um compositor e cantor à altura de John Lennon e Paul McCartney. Mas, como os fabulosos garotos de Liverpool, ele tinha fundado uma estética, inaugurado uma cultura. Os quatro cavaleiros do Império Britânico foram muito além do universo dos rouxinóis e viraram o Ocidente de pernas para o ar. E o sanfoneiro do Exu inventou a cultura regional nordestina.

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Reproduções
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Pau de Arara de Guio de Morais

Com Luiz Gonzaga - 1952 - RCA Vitor - Álbum 800936

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Para esta constatação chama a atenção um livro que reúne ensaios em prosa, fotos e xilogravuras encomendados, reunidos e coletados pelo artista plástico, poeta, compositor e curador de exposições paraense Bené Fonteles: O Rei e o Baião. No luxuoso e belíssimo volume editado pela Fundação Athos Bulcão, de Brasília, e financiado pelo Ministério da Cultura, não faltam excelentes textos de autores do naipe do compositor e cantor baiano Gilberto Gil, da professora cearense Elba Braga Ramalho, do poeta baiano Antônio Risério. Mas o que há de mais notável é a parte visual, a cargo do fotógrafo Gustavo Moura e dos xilogravadores João Pedro do Juazeiro, José Lourenço e Francorli & Carmem.

Todos eles contribuíram para uma visão multidisciplinar completa do Rei do Baião, que, morto há 21 anos, ainda é venerado como o símbolo vivo da diáspora nordestina. Seu cetro se explica de certa forma pela frase-síntese do maior folclorista brasileiro, o potiguar Luís da Câmara Cascudo: "O sertão é ele". Mas isto é só o ponto de partida.

A entronização de Lua se deve ao fato de ele ter incorporado a cultura rural sertaneja à indústria cultural urbana. Por isso, dele só se aproxima em importância na história de nosso cancioneiro a geração de sambistas cariocas dos anos 30, aos quais se juntou o mineiro Ary Barroso. Como os precursores do maior espetáculo do mundo - o desfile das escolas de samba do Rio -, Gonzagão inspirou as festas de São João: ao criar o primeiro trio com sanfona, zabumba e triângulo, ele instaurou a música regional nordestina, introduziu ao mercado a atividade de instrumentista e intérprete oriundo do sertão e interferiu na indústria cultural com nova modalidade.

Quem folheia o livro compreenderá, pela visão do conjunto da obra, que Gonzaga não virou rei pelas canções que compôs. Aliás, o uso deste verbo é controverso, pois, na verdade, mais do que compor ele adaptou temas ouvidos nas brenhas de origem ou atravessou em parcerias com autores interessados em obter seu aval de sucesso garantido. Mas, sim, por mercê da sintonia mágica com seus dois talentosos parceiros iniciais, o advogado cearense Humberto Teixeira e o folclorista pernambucano Zé Dantas, e da indumentária típica que inventou para se apresentar: gibão de vaqueiro e chapéu de cangaceiro. E mais ainda pela intuição genial que demonstrou ao transformar a fortuna melódica do cancioneiro dos cafundós sertanejos em gêneros musicais e ritmos de dança que, só por causa dele, encantam e mobilizam o público, além de produzir sucesso e fortuna para compositores e intérpretes no rádio, depois na televisão e nos salões de festa. Jackson do Pandeiro, Marinês, Antônio Barros e Cecéu, Genival Lacerda, Flávio José, Santanna Cantador e outros grandes autores e cantores não teriam exercido seu talento nem viveriam dos frutos dele se o filho de Januário não houvesse tirado dos baixos de sua sanfona o baião, o forró, o arrasta-pé.

O livro deixa isso claro. Pena que tenham sido omitidas informações sobre os autores de textos, xilogravuras e fotos. O leitor merecia saber quem constatou que Luiz Gonzaga foi o semideus que criou o Nordeste Musical Brasileiro.

 

JOSÉ NÊUMANNE É ESCRITOR, EDITORIALISTA DO JORNAL DA TARDE E CURADOR LITERÁRIO DO INSTITUTO DO IMAGINÁRIO DO POVO BRASILEIRO

 

BENÉ FONTELES
O REI E O BAIÃO
Fundação Athos Bulcão
Preço: indefinido

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Trilha sonora e dádiva no exílio

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18 de dezembro de 2010
Juca Ferreira* - ESPECIAL PARA O ESTADO
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Baião de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira

Com Luiz Gonzaga - 1949 - RCA Vitor - Álbum 800605

 

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Luiz Gonzaga, através da sua música, deu origem a uma das mais significativas representações da cultura brasileira. Sua música e o baião, sua mais expressiva criação, revolucionaram o imaginário do povo brasileiro. Um universo ímpar de significações que alargou as fronteiras da nossa identidade nacional, incluindo o povo nordestino no imaginário do Brasil.

 

Há quem diga que o Nordeste, tal qual o compreendemos, foi uma invenção de Seu Lua. A grandeza de sua obra fez dele um dos representantes mais ilustres da cultura brasileira, pelo que dela ele soube traduzir e o que a ela soube, com sua genialidade, acrescentar.

Ainda jovem, tornou-se um símbolo do País inteiro. Entre meados das décadas de 1940 e 1950, o baião foi o estilo musical mais tocado no Brasil. O baião é, reconhecidamente, tanto quanto o samba, uma expressão brasileira, por excelência. Em qualquer parte deste planeta. E Luiz Gonzaga, o maior ídolo da música popular brasileira. Desde então, nunca mais deixou de ser ouvido, tocado e composto.

Referência e nostalgia. Quando eu me encontrava exilado, tinha em Luiz Gonzaga a referência mais viva e contagiante do Brasil. Confesso que ouvir suas canções era um sentimento perturbador, me descolava da vida na Suécia onde eu havia encontrado acolhida, era feliz e razoavelmente integrado. Lembranças da minha infância, saudades do que havia deixado para traz, dor do exílio e banzo. Frequentemente choramingava solitário de nostalgia.

Luiz Gonzaga foi uma dádiva para nossa formação cultural em momento de grande expansão urbana. Gonzaga surgiu para o Brasil no Rio de Janeiro num momento privilegiado. A indústria do disco e a rede radiofônica já tinham a maturidade tecnológica e cultural, para entender um talento como o seu, capaz de unir o país de ponta a ponta, com alto nível de elaboração.

Luiz urbanizou sua tradição, predominantemente rural e interiorana. Como todo grande artista, foi capaz de traduzir o seu mundo, universalizando-o; capaz de absorver em seu processo criativo toda a vivência cultural dos nordestinos e torná-las objeto de admiração e de afeto para milhões de brasileiros.

O Brasil é um país tão extenso e tão diverso que precisa ser o tempo todo apresentado a si mesmo. Foi isso o que Seu Luiz fez, apresentou ao Brasil um Nordeste que o Brasil desconhecia. Um mundo cheio de novidades, dores e belezas. Poucos terão cantado tão bem quanto ele e seus parceiros os dramas do povo nordestino; mas, acima de tudo, foi a alegria de viver do nordestino que ele mais intensamente nos revelou. Muitos brasileiros aprenderam a amar e respeitar o Nordeste depois de serem cativados pela rara beleza da voz confiante de Gonzagão, e pelo seu sorriso, exprimindo uma inabalável alegria de viver.

Gonzaga surgiu como representante típico da massa cabocla do sertão. Destinado a plantar no coração da metrópole as sonoridades, os versos e a memória coletiva de um povo que nunca sonhava em ir para a cidade, e só o fazia quando o seu mundo começava a se acabar, pelo latifúndio, pela seca e falta de oportunidade. Como o presidente Lula. Outro ilustre brasileiro oriundo dessa tragédia nordestina.

 

JUCA FERREIRA É MINISTRO DE ESTADO DA CULTURA

 

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Baião de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira

Com Quatro Azes e um Coringa - 1946 - RCA Vitor - Álbum 13251

 

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“O Rei e o Baião”

Lançamento do livro sobre Luiz Gonzaga emociona convidados em Brasília

 

 

Com uma cerimônia emocionante o livro “O Rei e o Baião” foi lançado na manhã desta sexta-feira (17), no auditório do Ministério da Cultura. Estiveram presentes no evento o ministro da Cultura, Juca Ferreira, o organizador da obra, Bené Fonteles, e a secretária executiva da Fundação Athos Bulcão, Valéria Cabral.

O livro resume, numa publicação recheada de fotografias e belos textos, a trajetória de Luiz Gonzaga, um dos grandes ícones da cultura brasileira e nordestina. “O Rei e o Baião” tem como objetivo fomentar e intensificar a obra do artista, que completaria  98 anos na última segunda-feira, 13 de dezembro, data em que o livro foi lançado em Recife.

O organizador da Obra, Bené Fonteles, destacou a importância de Luiz Gonzaga para a música brasileira. “Sem Luiz Gonzaga não existiria Gil, nem Vandré, nem Caetano, nem Edu Lobo, nem muita gente da música popular brasileira. Luiz Gonzaga é um dos seis compositores que formam o pilar da música popular, como Villa Lobos, como Tom Jobim, como Pixinguinha, como Noel Rosa e como Dorival Caymmi”.

Fonteles também agradeceu a participação do ministro Juca Ferreira no projeto, uma parceria entre a Fundação Athos Bulcão e o Ministério da Cultura. “Tenho um profundo agradecimento pelo ministro, pois sem ele esse livro não teria saído, e pelo respeito que ele tem pela diversidade cultural brasileira”.

 

Bené Fonteles aproveitou a oportunidade para ressaltar a importância dos nordestinos para Brasília e explicou que Luiz Gonzaga foi a trilha sonora da construção da capital. “Muitos nordestinos morreram construindo essa cidade. A minha homenagem hoje é para eles”.  Emocionado, ele chamou o taxista, Seu Ari, e o presenteou com um exemplar do livro.  “Eu dei o primeiro livro para o Juca, mas o segundo livro será dado para uma pessoa especial. Tenho a honra de ter o Ari como amigo, ele é apaixonado por Luiz Gonzaga. Ontem eu fiz uma corrida com ele e ele foi falando e cantando as músicas de Luiz Gonzaga”. Fontele explicou que Seu Ari chegou em Brasília em 1957 e que ele representa os nordestinos que construíram a cidade e ajudaram a disseminar a música de Luiz Gonzaga. Juntos, seu Ari e Fonteles cantaram um trecho da música Boiadeiro, de Gonzaga.

O ministro Juca Ferreira também se emocionou ao contar a importância da música de Luiz Gonzaga para ele durante o período em que ficou exilado.  “Gonzaga era o único músico brasileiro que toda vez que eu ouvia no exílio, eu era transportado rapidamente para o Brasil. Eu diria que ele foi, junto com outros, o repertório que me ajudou a viver esses oito anos obrigatórios fora do Brasil”.

 

O ministro afirmou ainda que a importância de Gonzaga extrapola a esfera cultural. “Mais do que importante para a cultura brasileira, Luiz Gonzaga é importante para o nordeste. Talvez sem ele, a hierarquia de regiões, o monopólio da imagem e da identidade, teriam se fixado mais fortemente no centro-sul,”. Segundo ele, o músico contribuiu para a formação da identidade nordestina. “Além da contribuição cultural, ele tem uma contribuição importante por ter alargado a perimetral da identidade cultural brasileira, incorporando os nordestinos com conseqüências tão profundas”, completou.

Juca Ferreira fez questão de explicar que o lançamento do livro não é um ato isolado, já que dia 28 de dezembro será lançado, no cais do Recife, o projeto Casa Cais do Sertão, um centro cultural que será construído em torno da figura de Luiz Gonzaga. O lugar será destinado à memória e a uma série de atividades culturais que terão o objetivo de ressaltar não só a obra do músico como também a música popular nordestina e todas as dimensões da cultura popular.

Durante o lançamento, o sanfoneiro Marcus Faria e os músicos Toninho Vieira e Antônio Cecílio tocaram repertório de Luiz Gonzaga.

Casa Cais do Sertão

Ainda em fase de construção, o projeto é resultado de uma parceria entre o Ministério da Cultura, o Governo do Estado de Pernambuco e do Porto de Recife, e representa um investimento de R$ 26 milhões, sendo R$ 21 milhões investidos pelo governo federal.

Ele será o primeiro museu nacional hi-tech de alto porte em Pernambuco e destacará a importância de Luiz Gonzaga, ícone do sertão nordestino, para a cultura e o imaginário brasileiro.

A pedra fundamental será lançada dia 28 de dezembro em Recife com as presenças do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva e do ministro Juca Ferreira e contará com o show do sanfoneiro e compositor Dominguinhos, Targino Gondim e outros cinco sanfoneiros, que se apresentarão no Marco Zero, a partir das 17h.

(Texto: Elisa Salim, Comunicação Social/ MinC)
(Fotos: Pedro França)

 

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Fontes:

1) Jornal O Estado de S. Paulo - Caderno 2 - 18/12/2010

 

2) IMS - Acervo de José Ramos Tinhorão  e Humberto Franceschi


3) Site do Minc

Exibições: 1849

Comentário de Laura Macedo em 21 dezembro 2010 às 0:50

Gilberto,

Bela e merecida homenagem ao nosso eterno Rei do Baião, Luiz Gonzaga.

Garimpei do livro "Gonzaguinha e Gonzagão", da Regina Echeverria as fotos abaixo.

Gonzagão nos primeiros tempos do Mangue, no Rio de Janeiro, tocando valsas, polcas, mazurcas e chorinhos para ganhar alguns trocados.

 

Olhe só o visual de Luiz Gonzaga no começo de carreira. Vaidoso, gostava de se vestir bem, querendo parecer um "lorde".

 

O livro do Bené Fonteles é mais um que promete. Haja tempo para dá conta de tanta produção, não é mesmo?

Beijos.

 

 

 

 

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