Esse texto foi escrito durante a Guerra Fria.
Como é atual!
Quanta verdade!


“Toda guerra tem por raiz o medo: não tanto o medo que os homens têm uns dos outros, como o medo que têm de tudo. Não se trata apenas da desconfiança que nutrem uns para com os outros; não têm confiança nem em si próprios. Se não estão seguros do momento em que poderá alguém matá-los, estão ainda menos seguros da hora em que eles mesmos poderiam se matar. Não podem ter confiança em coisa alguma, porque deixaram de crer em Deus.

Não é só nosso ódio aos outros que é perigoso, mas também, e sobretudo, o nosso ódio a nós mesmos. E esse ódio a nós mesmos é tão profundo e tão forte que não pode ser enfrentado. Pois é isso que nos faz ver nossa própria maldade nos outros e nos torna incapazes de vê-la em nós mesmos.

Quando vemos algum crime nos outros tentamos corrigi-lo, destruindo-o ou ao menos fazê-lo desaparecer. É fácil identificar o pecador com o pecado quando ele é “o outro” e não nós. Em se tratando de nós, dá-se o contrário; vemos o pecado, mas temos grande dificuldade em assumir-lhe a responsabilidade. Achamos muito duro identificar nosso pecado com nossa própria vontade e nossa malícia. Temos tendência natural a interpretar nosso ato imoral como um engano involuntário ou como a malícia de um espírito que está em nós, mas não é nosso. Entretanto, estamos plenamente conscientes, ao mesmo tempo, de que os outros não fazem essa distinção tão conveniente para nós. Os atos praticados por nós são aos olhos deles “nossos” atos e consideram-nos plenamente responsáveis.

Há mais; temos inconscientemente tendência a nos aliviar do fardo de culpa que carregamos dentro de nós passando-o a outro. Quando errei e me desculpei atribuindo o mal a “um outro” que está, não sei como, “em mim”, minhs consciência não ficou satisfeita. Há ainda muito a ser explicado. O “outro em mim” está demasiadamente próximo. A tentação, no caso, consiste em explicar minha falta, vendo uma dimensão equivalente de mal noutra pessoa. Daí, minimizar meus pecados e procurar compensação, exagerando as faltas dos outros.

Como se isso não bastasse, pioramos a situação, intensificando artificialmente nosso senso do mal e aumentando nossa propensão ao sentimento de culpa, mesmo em relação a coisas que em si não são más. Com todos esses manejos, despertamos uma tal obsessão do mal em nós e nos outros, que despendemos toda a nossa energia mental, tentando explicar esse mal, puni-lo, exorcizá-lo ou livrarmo-nos dele de qualquer maneira. Perdemos a cabeça com essa preocupação e finalmente não há outra saída a não ser a violência. Temos de destruir alguma coisa ou alguém. A essa altura, criamos para nós um inimigo conveniente, um bode expiatório no qual colocamos todo o mal que há no mundo. Ele é a causa de todos os erros. É ele que fomenta todos os conflitos. Se conseguirmos destruí-lo, cessará o conflito, o mal será liquidado, não haverá mais guerra…

Tal espécie de ficção de nosso pensamente é particularmente perigosa quando sustentada por toda uma estrutura espetacular, pseudocientífica, de mitos como a que é adotada pelos marxistas em substituição à religião. Mas certamente não é menos perigosa quando opera no vago, fluído, confuso oportunismo sem princípios que, no Ocidente, funciona em lugar da religião, da filosofia ou mesmo do pensamento amadurecido.

Quando o mundo inteiro se vê envolvido na confusão moral, quando ninguém sabe mais o que pensar, e, em realidade, toda gente foge da responsabilidade de pensar, quando o homem faz do pensamento racional sobre assuntos morais uma coisa absurda, exilando-se inteiramente das realidades para cair na área das ficções, e despende todas as suas energias, construindo mais ficções para desculpar suas falhas morais, torna-se perfeitamente claro não ser possível salvar o mundo de uma guerra total e de total destruição, simplesmente pelos esforços e as boas intenções dos pacificadores. Na realidade, todos se tornam cada vez mais conscientes do abismo crescente entre bons propósitos e maus resultados, estre esforços em prol da paz e crescente probabilidade de guerra. Parece que, apesar de todos os cuidados e de todo o aparato de planejamento, qualquer esforço no sentido de um diálogo internacional termina em malogro cada vez mais ridículo. Resulta que ninguém mais acredita nos que quereriam ao menos tentar o diálogo. Do contrário, os que negociam, com toda a sua patética boa vontade, se tornam objeto de desprezo e de ódio. São “os homens de boa vontade”, os homens que fizeram pobres esforços para alcançar algo em favor da paz, que, por fim, se verão mais impiedosamente vilipendiados, esmagados e destruídos como vítimas do auto-ódio universal do homem, que eles, infelizmente, aumentaram pelo malogro de suas boas intenções.

Talvez ainda tenhamos uma tendência supersticiosa básica a associar o malogro à desonestidade e à culpa – malogro interpretado como “punição”. Mesmo quando alguém inicia uma obra com boas intenções, se malogra, temos tendência a pensar que de qualquer modo ele está “em falta”. Pensamos que, se ele não é culpado, ao menos estava “errado”. E “estar errado” é algo que ainda não aprendemos a enfrentar com equanimidade e compreensão. Ou o condenamos com sublime desdém ou o perdoamos com sublime condescendência. Não conseguimos aceitá-lo com compaixão humana, humildade e identificação. Assim, nunca vemos a verdade essencial que nos ajudaria a iniciar a solução de nossos problemas éticos e políticos. Essa verdade é estarmos todos mais ou menos errados, estarmos todos em falta, sermos todos limitados, condicionados por nossos motivos pessoais embaralhados, nossa tendência a nos enganarmos a nós próprios, nossa avareza, faisaísmo e tendência à agressividade e à hipocrisia.

Em nossa recusa em aceitar as intenções parcialmente boas de outros e a trabalhar com eles(com prudência, é claro, e com resignação quanto à inevitável imperfeição do resultado), estamos insconscientemente proclamando nossa própria malícia, nossa intolerância, nossa falta de realismo, nosso próprio charlatanismo ético e político.

Talvez o primeiro passo certo em direção à paz fosse uma aceitação realista do fato de os nossos ideiais políticos serem, em grande parte, ilusões e ficções às quais nos apegamos por motivos nem sempre inteiramente honestos – e por causa disso nos condenamos a não ver qualquer bem ou qualquer viabilidade nos ideais políticos de nossos inimigos(que podem, é claro, de muitos modos, serem ainda mais ilusórios e desonestos do que os nossos). Jamais conseguiremos algo de positivo se não aceitarmos a política como barafunda inextricável de motivos bons e maus, em que predomina, talvez, o mal. Mas devemos continuar a ter obstinada esperança no pouco de bom que nela ainda se possa encontrar.

Mas, dirá alguém: “Se reconhecermos que estamos todos igualmente errados, toda ação política será de pronto paralisada. Só podemos agir quando presumismo estar com a razão”. Pelo contrário, creio que a base para uma ação política válida só pode estar no reconhecimento de que a verdadeira solução de nossos problemas não é acessível a nenhum partido único ou a nenhuma nação isolada, mas que todos devem atingir essa solução trabalhando em conjunto.

Não quero com isso encorajar o pensamento já carregado de sentimento de culpa, sempre demasiadamente satisfeito em estar “errado” em tudo. Aqui também se encontra uma fuga à responsabilidade, pois toda forma de excesso de simplificação tende afinal a tirar às decisões qualquer sentido. Temos de nos esforçar por nos aceitarmos, seja individual ou coletivamente, não só como perfeitamente bons ou perfeitamente maus, mas em nosso misterioso e inexplicável misto de bom e mau. Temos que defender a média de bom que há em nós sem exagerá-la. Temos que zelar por nossos direitos reais, pois, se não respeitarmos nossos direitos, não respeitaremos, é certo, o direito de outros. Mas temos, ao mesmo tempo, de reconhecer que, voluntariamente ou não, violamos os direitos alheios. Temos de ser capazes de admití-lo, não só como resultado de auto-exame, mas ainda quando nos é apontado inesperadamente e talvez sem bastante delicadeza, por outros.

Esses princípios que regem a conduta moral pessoal, que tornam possível a vivência harmônica em pequenas unidades sociais como a família, se aplicam também na área mais ampla do Estado e na inteira comunidade das nações. É, todavia, completamente absurdo, na presente situação em que nos encontramos, ou em qualquer outra, esperar que sejam universalmente aceitos esses princípios como resultantes de exortações morais. Há bem pouca esperança de que o mundo se deixe repentinamente governar de acordo com essas exortações, como resultado de alguma mudança hipotética nos sentimentos dos homens políticos. É vão, é mesmo coisa risível basear o pensamento político na vaga esperança de uma iluminação moral puramente contigente e subjetiva dos corações dos chefes políticos do mundo. Mas fora da ação e do pensamento políticos, na esfera religiosa, não só é permitido esperar essa consumação tão misteriosa, mas é necessário orar nessa intenção. Podemos e devemos crer não precisamente que a luz misteriosa de Deus possa “converter” os que são mais responsáveis pela paz mundial, mas ao menos que eles possam, apesar de seus preconceitos e obstinação, ser preservados de um erro fatal.

Seria loucura sentimental esperar que os homens confiassem uns nos outros, quando é óbvio não ser possível ter-se confiança neles. Mas podem, ao menos, aprender a confiar em Deus. Podem colocar-se em posição para ver que o misterioso poder de Deus, independentemente da malícia humana e do erro, pode proteger os homens contra eles mesmos, e que é possível a Deus transformar o mal em bem, embora nem sempre no sentido que seria compreendido pelos pregadores otimistas e superficiais. Se os homens coseguirem amar a Deus e confiar nele, que é infinitamente sábio e governa a vida dos seres humanos, permitindo-lhes usar de sua liberdade até os limites do mais incrível abuso, poderão amar também os seus maus. Poderão aprender a amá-los, mesmo em seu pecado, assim como Deus os tem amado. Se pudermos amar os homens em quem não podemos confiar(sem neles confiar totalmente) e se pudermos, até certo ponto, carregar o fardo de seu pecado, identificando-nos com eles, talvez, então, possamos ter alguma esperança de uma certa paz no mundo, baseada, não na sabedoria e nas maquinações dos homens, mas na imperscrutável misericórdia de Deus.

POIS SÓ O AMOR – o que significa humildade – pode exorcizar o medo que está na raiz de toda guerra.

De que adianta carimbar nossa correspondência com a exortação “orai pela paz”, se gastamos bilhões de dólares em submarinos atômicos, armas termonucleares e foguete teleguiados? Creio que isso seria certamente o que o Novo Testamento denomina “rir-se de Deus” – e seria fazê-lo efeitivamente muito mais do que qualquer ateu. Essa pilhéria de mau gosto culmina no horror de estarmos nós empilhando armas atômicas para nos defender contra ateus que, com toda a franqueza, acreditam não existir nenhum Deus e estão convencidos de que é necessário apoiar-se nas bombas e nos foguetes uma vez que nada há que nos ofereça verdadeira segurança. Será porque temos tanta confiança no poder de Deus que estamos tão intensamente ocupados em destruir completamente essa gente antes de sermos por eles destruídos? Mesmo com o risco de nos destruirmos a nós mesmos, ao mesmo tempo?

Não tenciono sugerir que a oração exclui a utilização simultânea dos meios humanos ordinários para atingir um fim naturalmente bom e justificável. Pode-se muito bem orar pelo restabelecimento da saúde física e, ao mesmo tempo, tomar remédios indicados pelo médico. Em realidade, um crente deve normalmente fazer um e outro. E pareceria haver boa e razoável proporção a guardar no emprego desses dois meios para conseguir o mesmo fim.

Mas consideremos a soma simplesmente fabulosa de dinheiro, energia, planejamento, ansiedade, cuidados, despendidos na produção de armas que, quase imediatamente, se tornam obsoletas e têm que ser inutilizadas. Contrastemos isso com o pequenino e ridículo “orai pela paz” carimbando piedosamente nossos selos de quatro centavos! Pensemos também na desproporção entre nossa piedade e o enorme ato de destruição e morte que, ao mesmo tempo, temos em vista, sem compunção e sem vergonha! Nem parece passar-nos pela mente que poderia haver algo de impróprio em rogar a Deus pela paz – Deus que nos ordenou nos amássemos mutuamente como ele nos amou, que nos advertiu que quem toma da espada morrerá pela espada – e, ao mesmo tempo, planejar aniquilar, não milhares, mas milhões de seres humanos, soldados e civis, homens, mulheres e crianças sem discriminação, e mesmo com a certeza quase infalível de atrair sobre nós o mesmo aniquilamento!

Pode haver lógica no comportamento do doente que reza para obter saúde e em seguida toma remédio; mas não consigo ver nenhum sentido nessa oração se, depois de fazê-la, ele toma veneno.

Quando rezo pela paz oro a Deus para que pacifique não só os russos e os chineses, mas acima de tudo meu próprio país e a mim mesmo. Quando oro pela paz, rezo para ser protegido não só do perigo dos vermelhos, mas também da loucura e cegueira de meu próprio país. Quando oro pela paz, peço não só que os inimigos de meu país deixem de desejar a guerra, mas, acima de tudo, peço que meu próprio país desista de fazer as coisas que tornam a guerra inevitável. Em outras palavras, quando oro pela paz, não estou apenas pedindo que os russos desistam sem contenda, deixando-nos realizar nossa própria vontade. Ora, para que tanto nós quanto os russos possamos de qualquer modo recuperar o equilíbrio normal de pessoas que não perderam o juízo e aprender a resolver nossos problemas esforçando-nos por um entendimento da melhor maneira possível, em lugar de nos prepararmos para um suicídio global.

Tenho plena consciência de que minhas palavras soam num tom absolutamente sentimental, arcaico e em dissonância com a era da ciência. Gostaria, porém, de apresentar o fato de que o pensamento pseudocientífico sobre política e sociologia até agora nada ofereceu de melhor a esse respeito. Há algo que, com toda a lealdade, gostaria de acrescentar: é o fato de serem, muitas vezes, os próprios cientistas atômicos os mais preocupados com a ética dessa situação. Colocam-se entre os poucos que ousam abrir a boca uma vez ou outra para fazer alguma declaração nesse sentido.

Mas quem os ouve?

Se os homens desejassem de fato a paz haveriam de pedí-la sinceramente a Deus e ele a concederia. Mas por que dar ele a paz a um mundo que realmente não a quer? A paz que o mundo finge querer não é, de modo algum, a verdadeira paz.

Para alguns a paz significa apenas a liberdade de explorar os outros sem medo de represálias ou intervenção. Para outros a paz significa a liberdade de roubar o outro sem interrupção. Há ainda os que consideram a paz como meio de devorar tranquilamente os bens da terra sem serem obrigados a interromper os seus prazeres, para dar de comer aos que sua ganância faz morrer de fome. E para a quase generalidade dos homens a paz significa simplesmente a ausência de qualquer violência física que poderia lançar uma sombra sobre as vidas dedicadas à satisfação de apetites animais, ao conforto e aos prazeres.

Muitos desses já pediram a Deus o que julgaram ser a “paz”, admirando-se de sua oração não ser atendida. Não conseguiram compreender que foi, de fato, ouvida. Deus deixou-lhes o que desejavam, pois a idéia deles sobre a paz era apenas outra forma de guerra. A “guerra fria” é simplesmente a consequência normal de nossa idéia corrompida de uma paz baseada numa política de “cada um por si” no campo da ética, da economia e da política. É um absurdo esperar uma paz sólica, baseada em ficções e ilusões!

Portanto, em lugar de amarmos o que imaginamos ser a paz, tratemos de amar os outros e a Deus acima de tudo. Em vez de odiar os que julgamos serem os causadores da guerra, odiemos os apetites e as desordens de nossa própria alma que são as causas da guerra. Se amamos a paz, então, detestemos a injustiça, a tirania, a ganância – mas detestemos essas coisas em nós mesmos, não no outro.”

Texto de Thomas Merton, reproduzido do blog LEIA JUNTO
Thomas Merton é monge cristão com forte influência budista

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