Portal Luis Nassif


Marc Chagall nasceu em 1887, em um bairro de judeus pobres de Vitebsk, na Bielo-Rússia. O período era hostil para os judeus, vítimas constantes do Chamado pogrom, palavra que, em russo, significa ataque violento a pessoas, com destruição de suas casas, negócios e centros religiosos. Foi nesse ambiente que Chagall cresceu e se iniciou como artista. Um dos pioneiros da modernidade, Chagall participou das grandes transformações que ocorreram nas artes plásticas no início do século 20 e foi um dos artistas mais notáveis de seu tempo.

Em rápida passagem pelo Rio, pude assistir à exposição "O Mundo Mágico de Marc Chagall - O Sonho e a Vida", no Museu Nacional de Belas Artes, que fica em cartaz até 06/12/09. É a maior exposição de Chagall já organizada no Brasil, com quase 300 obras de diversos períodos da vida do artista, entre pinturas, guaches e gravuras. Compartilho com vocês, um pouco da obra prolífica e versátil desse genial artista.

PINTURA
"Há extraordinária força cromática na pintura de Chagall. Em muitos casos, os contrastes de cor pura contrariam a lógica dos seres e dos objetos representados. Um cavalo verde, um bezerro vermelho, noivos em suspensão - essa liberdade reforça sua lírica e ajuda a criar um mundo plástico dotado de intensa magia, que flutua entre o real e o imaginário".



GRAVURA
"Marc Chagall construiu uma obra extensa e de grande força lírica. Em sua produção artística, sobretudo gráfica, percebe-se a intensidade de seu relacionamento com a poesia e a literatura".


As Almas Mortas (Les âmes mortes)
"Cada personagem desse romance de Nicolai Gogol ressuscitou na memória de Chagall tipos humanos da velha Rússia, que a revolução comunista fez desaparecer, como Séliphane, o cocheiro beberrão e preguiçoso, que acompanha seu ganancioso amo Tchitchikov nas aventuras à procura de fortuna. Em suas ilustrações, Chagall captou o estilo incisivo do autor, que desnudou os seres humanos, e combinou nas gravuras a força satírica e o lirismo nostálgico de sua terra natal".

Fábulas de La Fontaine
"Chagall produziu 100 guaches, um para cada fábula de La Fontaine, entre 1926 e 1927. No mesmo ano, retomou os temas e iniciou uma série de 100 gravuras em metal, das quais 23 são agora apresentadas. Concluída em 1930, a série só foi publicada 22 anos depois, em uma edição de dois volumes. Chagall captou a fina ironia introduzida por La Fontaine ao atualizar as fábulas de Esopo (século 6 a,C,) e trabalhou com os elementos centrais da história, desvencilhando-se de todos os itens acessórios".

A Bíblia (La Bible)
"Chagall trabalhou, de 1931 até 1939, nessa série de 105 gravuras sobre a Bíblia, que exigiu uma nova abordagem da figura humana. As personagens foram elaboradas de modo totalmente diverso daquelas consagradas, até então, em suas telas. O artista adotou também outra concepção de espaço para registrar com eloquência os acontecimentos sagrados. A obra traz histórias do Velho Testamento, como a saída dos judeus do Egito e a construção da arca de Noé, e retratos de seus personagens mais marcantes, como os três patriarcas e os reis Salomão, David e Saul".


Dafne e Cloé (Daphnis et Chloé)
"Chagall viajou duas vezes à Grécia com o propósito de vivenciar a atmosfera e a luminosidade da paisagem e conhecer melhor a cultura pastoril, cantada no romance Dafne e Cloé, do poeta grego Longus. Entre 1953 3 1954, realizou 42 guaches que, a aprtir de 1957, foram transpostos para litografias com o impressor Sorlier. PAra obter a extraordinária beleza cromática das litografias, foi desenvolvido, durante quatro anos, um minucioso processo que utilizava uma pedra para cada tonalidade de cor. Assim, as gravuras dessa série, publicada em 1961, exigiram 25 pedras matrizes e 25 impressões cada uma".

Impossível colocar apenas uma ou duas imagens das belíssimas litografias dessa interpretação delicada e colorida da fábula pastoral grega "Dafne e Cloé". Fiz um pequeno vídeo com as gravuras.


Marc Chagall faleceu na tarde de 28 de março em 1985, depois de ter passado a manhã trabalhando em seu ateliê. Morreu suavemente, aos 97 anos, em Saint Paul de Vence, no sul da França.

*******

Fontes
- Folder exposição - Curador Fábio Magalhães
- Weinstein Gallery - Litografias da série Dafne e Cloé
- Museu Nacional de Belas Artes - Rio de Janeiro

Exibições: 2223

Comentário de Marise em 1 novembro 2009 às 11:12
Helô que presente para quem, como eu,não pode ver a exposição. As pinturas de Marc Chagal são mágicas.
Beijão

Comentário de helio jesuino de albuquerque em 1 novembro 2009 às 12:43
Belo post Helô.Já fui duas vêzes vou voltar ...

abraços
Comentário de Gilberto Cruvinel em 1 novembro 2009 às 13:21
Maravilhoso, Helô.

Obrigado pela dica preciosa. Não sabia desta. Até o fim do ano vou ao Rio e já programei de ir à exposição.

Aproveito para lembrar aos leitores de São Paulo que a exposição Matisse Hoje na Pinacoteca só vai até amanhã. Última chance.

A exposição, com cerca de 80 obras entre pinturas, esculturas, desenhos, fotos, documentos e livros ilustrados de Matisse, pretende explorar o processo criativo do artista, propondo um percurso retrospectivo que aborda os temas fundamentais da sua trajetória: a cor, a linha, o arabesco e o espaço.

Além da exposição em si, o passeio vale pela Pinacoteca, belo prédio que hospeda o museu e o charmoso Restaurante .

Pinacoteca do Estado: Pça. da Luz, 2 – Estação Luz do Metrô Telefone: (11)3324-1000
Comentário de Luiza em 1 novembro 2009 às 16:29
Helô, Chagall é demais... o amor e a realidade, unidos pelo sonho...
Vc tem O Espelho?

Comentário de Oscar Peixoto em 1 novembro 2009 às 17:05
Beleza de post, Helô. Também vi a exposição do Chagall, só que um pouco atrapalhado pela garotada dos colégios. Estou ficando ranzinza.
Senti falta dos quadros dos violinistas no telhado. Ofereço-lhos (!) de presente (devem custar uma nota preta):




Beijão
Comentário de Oscar Peixoto em 1 novembro 2009 às 17:17
Ah, destaque para o Arabesque de Debussy.
Beijocas
Comentário de Helô em 1 novembro 2009 às 19:31
Marise, Helio, Gilberto, Luiza e Oscar
Quanto mais vejo, mais gosto. Em 1999, aconteceu no Rio uma espetacular mostra de gravuras. Entre tantas, algumas obras de Chagall estavam presentes e traziam poemas escritos pelo próprio artista. Pelo menos um eu copiei e compartilho aqui com vocês.

Com o azul, o vermelho, o amarelo

Pintei as paredes claras
Pintei os músicos, os bailarinos em cena
Com azul, vermelho, amarelo
Para você, pintei o tabernáculo.

Brinque, cante, pule
Você fazia comigo o papel do velho rei
Você me engolia
Ria-se às lágrimas

Com você, silenciosos
Saltamos até a lua
Na noite branca
Ouvir-se-á novamente sua voz

************

Luiza, eu não conhecia O Espelho. Fui pesquisar e acabei encontrando um site muito legal com obras do artista.

O Espelho


Clique aqui para ver o site.

Obrigada e beijos a todos

Comentário de BLOG DAS IGUARIAS - em 1 novembro 2009 às 22:59
Uma vez no RJ, com certeza eu tô lá. Chagall, mágico e fascinante. Adoro. Bjs
Comentário de Cafu em 4 novembro 2009 às 10:18
Obrigada, Helô, por nos trazer um pouco do encanto que você experimentou ao vivo no Rio. Bem que este ano da França no Brasil poderia esticar por mais uns tempos! Essa exposição é um presentão para os mineiros e cariocas, e por tabela para todos os brasileiros.
(A Cafu na era da reprodutibilidade técnica tem um pequeno casal azul flutuando em sua sala). Hahaha. Adoro do mesmo jeito.
Beijos.
Comentário de Gilberto Cruvinel em 19 dezembro 2009 às 14:50
Oi Helô, sairam hoje na Folha e no O Globo, matérias sobre a biografia do pintor lançada pela chefe da crítica de arte do "Financial Times" Jackie Wullschlanger. As matérias de O Globo não consegui acesso.

O homem que estava lá

Biografia de Marc Chagall, que sai no Brasil, se entrelaça com eventos que definiram a primeira metade do século 20


Um dos vários autorretratos de Chagall de 1914, quando voltou à Rússia após viver em Paris

Folha Ilustrada
Sábado, 19 de dezembro de 2009
ALEXANDRA MORAES
DA REPORTAGEM LOCAL

Pintor, Marc Chagall parece ter costurado a primeira metade do século 20 com a própria vida. Judeu nascido num assentamento no Império Russo, em 1887, atravessou uma revolução abortada, uma Guerra Mundial, uma revolução bem-sucedida, o antissemitismo que desembocaria no Holocausto, outra Guerra Mundial.
Em 1911, exilou-se naquele que era o epicentro cultural da Europa, Paris, de onde mais tarde sairia para outro exílio, naquele que viria a ser o epicentro cultural da segunda metade do século, Nova York.
A história era muito saborosa para não ser contada. Jackie Wullschlanger, chefe da crítica de arte do "Financial Times", seguiu a trilha de Chagall, com documentos, cartas e parentes.
Mais do que uma biografia, "Chagall", editada agora no Brasil, é um passeio por pontos turísticos do século 20. Mais do que panos de fundo da vida de Chagall, esses pontos são suas próprias motivações e reveses.

Pintor Marc Chagall se moldou russo, judeu e francês

Marc Chagall nasceu em Vitebsk, que atualmente pertence a Belarus. À época de seu nascimento, em 1887, Vitebsk era uma das cidadezinhas judaicas -- shtetlech -- no Território do Assentamento, área ocidental do Império Russo onde era permitida a residência de judeus.

Ali, Catarina a Grande havia instalado, pouco menos de cem anos antes do nascimento de Chagall, um bolsão para tentar impedir o acesso dos judeus às demais áreas de seu império, uma vez que não se converteriam ao catolicismo ortodoxo russo nem cabiam bem na rígida estratificação social russa.

Proibidos também de morar nas cidades mais importantes da região, como Kiev e Ialta, pequenos comerciantes se instalavam na área que chegou a reunir cerca de 5 milhões de pessoas e sobreviveu até a Revolução Russa, em 1917.


"Estudo sobre Vitebsk" (1915-20), de Marc Chagall; que morou em Paris, Nova York e Vitebsk, na Rússia

Marc Chagall, porém, travou uma relação de tal modo umbilical com a sua cidade natal que precisava sair dali para enxergá-la direito. "Ele admitiu que era um artista obcecado pela mãe e para quem a cidade natal teve forte importância psicológica e artística", ressalta a jornalista inglesa Jackie Wullschlager, autora da biografia concluída no ano passado, após oito anos de pesquisa e lançada agora no Brasil.

"Quando terminei a 'Life of Hans Christian Andersen' [a vida de Hans Christian Andersen] em 2000, estava pensando, com o fim do século 20, qual figura literária ou artística formaria um prisma ideal através do qual poderia recontar, tanto na vida quanto na arte, os triunfos e horrores do século."

Chagall, que tinha impressionado a então crítica literária numa exposição na Royal Academy, de Londres, em 1985 -- e morrera pouco antes do fim da mostra -- apareceu a Wullschlanger a opção ideal.

O pintor viveu clandestinamente em São Petersburgo, encontrou um lar artístico em Paris -- e apoio em figuras icônicas da cultura francesa daquele começo de século, como os escritores Blaise Cendrars e Guillaume Apollinaire -- e chegou a ser convocado para engrossar as fileiras do Exército para defender o Império Russo, aquele mesmo que o repelia para as franjas de seu território.

"O drama de ser estrangeiro na Rússia e na França fez com que nunca esquecesse sua origem judia. É significativo que seus maiores trabalhos tenham sido produzidos entre 1917-21, quando houve espaço para que os judeus desempenhassem um papel vital e autêntico na vida cultural russa."

A identidade judaica, ligada à memória de Vitebsk, era indissociável do pintor. "Se eu não fosse judeu, não teria me tornado artista ou teria sido um outro tipo de artista", ele mesmo dizia. "A obra de Chagall teve seu auge quando Vitebsk ainda o embalava, de 1914 a 21, mas já com a experiência de Paris para ter algum distanciamento e adquirir a linguagem formal com a qual desconstruiria Vitebsk", diz a biógrafa.

El Lissitsky, nome essencial da vanguarda russa, era colega de Chagall nas aulas de pintura. Kandinsky, embora distante, percorria caminhos parecidos.

Chagall adotou e foi adotado pela França. O pintor "se tornou um luminar da arte nacional numa época em que esse país finalmente perdia seu ímpeto cultural diante dos EUA".

Ao lado das cidades, Chagall inscreve em sua formação três mulheres: Thea, seu primeiro modelo nu, Bella, amor arrebatador e companheira nas costuras pela Europa, morta no exílio americano, e Vava, que o acompanhou até o fim da vida.

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2017   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço