O nacionalismo de Heitor Villa-Lobos

Encontrei no YouTube um precioso discurso de Villa-Lobos.
Ocorrido em João Pessoa, em 1951, nele o compositor fala de sua vida, de música e, de forma emocionada, do Brasil. O depoimento faz parte de um álbum duplo, lançado por ocasião do centenário de Villa-Lobos, que traz Turíbio Santos, Miguel Proença e outros grandes músicos brasileiros.

A transcrição do depoimento, de minha autoria, obedeceu o entendimento da fala do compositor.

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Heitor Villa-Lobos (Parte 1)

O Brasil já tem uma forma geográfica de um coração. Todo brasileiro tem esse coração. A música vai de uma alma a outra, os pássaros conversam pela música, eles têm coração. Tudo que se sente na vida, se sente no coração. O coração é o metrônomo da vida e há muita gente na humanidade que se esquece disso. Justamente, o que mais precisa a humanidade é de um metrônomo. Se houvesse alguém no mundo que pudesse colocar um metrônomo no cimo da terra, talvez estivéssemos mais próximos da paz. Porque se desentendem, vivem descompassados raças e povos, porque não se lembram do metrônomo que guardam no peito: o coração. Foi fadado por Deus, justamente no Brasil, possuir uma forma geométrica de coração e haver um ritmo palpitante em toda sua raça, sobretudo no nordeste, esse sentido de ritmo de coração, essa unidade de movimento, esse metrônomo tão sensível.

Meus amigos, foi com esse pensamento que eu me tornei músico. Foi por isso que eu me tornei um escravo profundo e eterno da vida do Brasil, das coisas do Brasil. E, como não tenho o dom da palavra, nem da pena, mas tive o dom do som e do ritmo, transponho em sons e ritmos essa loucura de amor por uma pátria. Eis a minha apresentação. Eis o que é, em princípio, a justificação do que eu tenho feito pelo Brasil, até a idade que tenho hoje.

Peço perdão a todos de ter que falar um pouco da minha vida em relação a esse Brasil, mas é necessário que possa, talvez, servir de exemplo aos jovens de seguir essa mesma trilha, esse mesmo destino que Deus me deu. Nunca na minha vida procurei a cultura, a erudição, o saber e mesmo a sabedoria nos livros, nas doutrinas, nas teorias, nas formas ortodoxas. Nunca! Porque o meu livro era o Brasil. Não o mapa do Brasil na minha frente, mas a terra do Brasil onde eu piso, onde eu sinto, onde eu ando, onde eu percorro.

Cada homem que eu encontro no Brasil representa uma forma estética na concepção musical. Cada pássaro que acode ao meu ouvido é um tema aonde se junta a outros temas invisíveis, imperceptíveis e abstratos para tornar em forma física em forma sonora, em forma de música, música de arte, arte livre como a nossa natureza, árvore independente como são os pássaros do Brasil, árvore sentimental como são os homens da nossa terra.

A minha música é o reflexo da sinceridade. No princípio sofri, natural, com a revolta daqueles que se agarravam à tradição, daqueles que não se encontravam a si próprios, daqueles que nunca se miraram no espelho da sua própria consciência procurando a fisionomia da sua própria raça.

O Brasil levou muito tempo, meus amigos, muitos anos a imitar, a macaquear a papaguear. Mas graças a Deus procurou um espelho, ou encontrou por acaso o reflexo da realidade de uma grande raça, de uma grande nação. E verificou que nunca poderiam ser eles mesmos se não fizessem à sua maneira, não imitando ninguém. Isso foi feito em coisas banais da vida, na moda, no sistema de sentir literariamente. Vejam os poetas, os parnasianos, veja os poetas modernos, veja na pintura antiga e na pintura de hoje. Veja na escultura e, finalmente, nesta arte que aparece no Brasil tão pessoal, como nenhuma, a escultura. Vejam, encontraram-se. O Brasil se encontra.
Infelizmente, a população é pequena pela grandeza da sua terra, mas ele se encontra. E tudo isso está tão de acordo com a penitência da minha vida.

Heitor Villa-Lobos (Parte 2)

Eu estou tão contente, cada vez mais, de ser brasileiro. A minha justificação não tem um sentido cívico, não, não creio. É apenas de um artista sincero que, com este exemplo de realização e da felicidade, e da vitória de sua carreira artística, grita ao nosso grande povo que, quanto mais se for brasileiro, com este coração, com esta alma, com esta vibração, mais concorrem para serem úteis no conceito das grandes nações, das grandes civilizações.

Estou satisfeito porque, já bem aproximando o fim da minha vida, eu sinto perfeitamente que o Brasil encontrou o seu caminho. Que importa os problemas políticos, os problemas sociais, os problemas econômicos? O Brasil se encontra! Eu fui pela música e se por acaso o meu exemplo possa servir a alguma coisa, a todos os meus patrícios, façam o mesmo. Sejam livres. Lembrem-se do coração, lembrem-se que este é que é o metrônomo da realidade. Com ele terão a razão econômica de tudo das coisas, terão a medida exata da realidade da própria vida.

Lembrem-se de que é a arte que vem d'um coração para um coração de uma alma para outra alma. E a música é a primeira arte que conduz às outras artes. Eu não digo isto porque sou músico, não, mas ela tem um poder positivo, digamos, um poder biológico. Ela é uma terapêutica para a alma doente. A música é um consolo para o sofredor, a música é um embalo para o pequenino no colo de suas mães, de seus pais. A música é o alento do desventurado, a música é a alegria daqueles que são alegres!

A religião. Qual das religiões existe sobre a terra e que não usou da música como elemento de atração aos seus crentes? Essa música que Santo Ambrósio utilizou-se para formar os cânticos litúrgicos definidos. É com essa música, senhores, que nós precisamos compreender que o Brasil vive e que ninguém percebe. Ninguém percebe que um país mais musical que existe sobre a terra deixa passar vagamente, indiferentemente, essa música tão pura, essa música da alma, música do coração. Que importa que haja duas espécies de música? A música da manifestação espontânea - a música popular, e a música da alma elevada, da alma intelectual - a música da arte.

O folklore é o intermediário desses dois elementos. É a ciência da pesquisa, é o traço de união em que se utiliza o criador para, tirando do povo essa música, essa arte espontânea, ele burila no seu coração e na sua alma e traz outra vez para o povo. Mas esse povo, geralmente é injusto, não procura compreender o esforço do criador. Devem comprender, devem ser educados, civilizados, para compreender o mistério, o pensamento abstrato de um criador no terreno de arte. E a música tem um poder incrível de atuar sobre o temperamento, sobre o instinto, sobre tudo no espírito humano.

E é essa música que pode deleitar o culto ao iniciado da música, que é a música artísitca. Essa música que dá um prazer estranho, um prazer exótico, pitoresco, àquele que gosta da música popular, áquele que gosta de sentir. Esse é com aquela canção, este ou aquele ritmo de dança e que para embora mesmo no século XX já usem a música, já colaborem com a música. Porque há casos interessantes, enquanto estão tocando a música, estão falando. São colaboradores. Há pessoas que pensam que quanto mais a música toca forte, mais a gente fala alto. Isso é comum, mas é um instinto inofensivo de colaborar com a música. Não acredito que quem seja educado faça isso com a arte, não, porque a melhor colaboração que se pode fazer com a arte é silêncio, é atenção, é recollhimento, é meditação, é apreensão, é emoção.

Satisfeito estou de ter aceito do senhor ministro da educação essa misaão. E, satisfeito estou, de distinguir com todo prazer e toda honra esses cinco estados do Brasil. Apenas porque creio que os outros, as outras missões, irão outros meus assistentes. Porque eu talvez não só não disponha de tempo, como me sinta um pouco cansado para fazer a volta no Brasil como já fiz há quarenta anos atrás. Em todo caso, a honra de chegar a esta terra pequena, mas extraordinária me é grande! Há muito tempo que eu tinha vontade de ter contato com o povo, para viver a satisfação e a alegria deste momento, em verificar que é uma terra que sente a música, que vibra a música e que tem compreensão da música. Ajudai pois, meu amigos, ajudai ao seu ilustre governador que sei das intenções formidáveis que ele tem no sentido do aproveitamento música, dentro do progresso de um grande estado.

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Alguns vídeos

Julian Bream - Villa-Lobos - Preludes 3 & 4


Bachianas Brasileiras n.5 Aria - Maria Lucia Godoy

John Williams - Prelude n.1 (H. Villa-Lobos)

Turíbio dos Santos - Prelude n.5 (H. Villa-Lobos)

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Comentário de Rafael Reges em 6 setembro 2008 às 15:17
Já tinha ouvido esse discurso dele há um tempo. Interessante observar sua paixão pela música, em seu poder redentor. No caso, uma redenção que tem um caráter já intrínseco a ela, universal: "Ela é uma terapêutica para a alma doente. A música é um consolo para o sofredor, a música é um embalo para o pequenino no colo de suas mães, de seus pais. A música é o alento do desventurado, a música é a alegria daqueles que são alegres!" e um caráter de afirmação unívoca de um povo.

A tentativa de adoção de uma estética mais autêntica, que partisse mesmo dos recônditos de todo ser humano. Foi o princípio de criação de toda sua música. A autenticidade da expressão musical popular brasileira aliada à autenticidade profunda da música de J. S. Bach seriam inevitavelmente casados por ele.

"Nunca na minha vida procurei a cultura, a erudição, o saber e mesmo a sabedoria nos livros, nas doutrinas, nas teorias, nas formas ortodoxas. Nunca! Porque o meu livro era o Brasil. Não o mapa do Brasil na minha frente, mas a terra do Brasil onde eu piso, onde eu sinto, onde eu ando, onde eu percorro."

Beleza de postagem, doutora.
Comentário de Rafael Reges em 6 setembro 2008 às 15:29
Vou postar aqui a segunda parte da Bachiana nº 5. Com a letra composta por Manuel Bandeira, que é muito bonita.

No vídeo: Filarmônica de Berlin e a Soprano venezuelana Ana Maria Martines sob a regência de Gustavo Dudamel - Bachianas Brasileira nº 5 - 2º movimento - Dance (Martelo)


Dansa

Irerê meu passarinho do sertão do Cariri,
Irerê meu companheiro,
Cadê viola ? Cadê meu bem ? Cadê Maria ?
Ai triste sorte do violeiro cantadô !
Ah ! Sem a viola em que cantava o seu amô,
Ah ! Seu assobio é tua flauta de Irerê:
Que tua flauta do sertão quando assobia,
Ah ! Agente sofre sem querê !
Ah ! Teu canto chega lá no fundo do sertão,
Ah ! Como uma brisa amolecendo o coração,
Ah ! Ah !
Irerê, solta o teu canto !
Canta mais ! Canta mais !
Prá alembrá o Cariri !

Canta cambaxirra ! Canta juriti !
Canta Irerê ! Canta, canta sofrê
Patativa ! Bem-te-vi !
Maria acorda que é dia
Cantem todos vocês
Passarinhos do sertão !
Bem-te-vi ! Eh ! Sabiá !
La ! liá ! liá ! liá ! liá ! liá !
Eh ! Sabiá da mata cantadô !
Liá ! liá ! liá ! liá !
Lá ! liá ! liá ! liá ! liá ! liá !
Eh ! Sabiá da mata sofredô !
O vosso canto vem do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração

Irerê meu passarinho do sertão do Cariri ...
Ai !
Comentário de Rafael Reges em 6 setembro 2008 às 15:39
Errei a nacionalidade da soprano. Ela é Porto-Riquenha. ;)
Comentário de Oswaldo Conti-Bosso em 7 setembro 2008 às 21:35
Querida Helô,

Estava ouvindo o discurso de Heitor Villa-lobos, nesse seu magistral post de arte e nacionalidade, e como “trenzinho caipira” que sou, como muito orgulho, lembrei da foto que vi na Folha SP hoje, tirada por Rogério Cassimiro, com Abílio Diniz e Lula (evento de comemoração dos 60 anos do Pão de Açúcar).
A foto e seus detalhes, registram um momento importante na história da vida brasileira, das ultimas décadas, desde 1989.
O operário que chegou a Presidente, Lula e o empresário Abílio Diniz, este foi condenado por crime de colarinho branco em última instância da justiça, no século passado, e não pagou pelo crime e não foi preso, esse é o nosso passado ressente.

Neste momento “dantesco” brasileiro, o Brasil do século 21 será como “dantes”?
O que vejo na foto? Quero crer que estamos assistindo um momento histórico de inflexão da nação, ou como diz Nassif: "O parto de uma Nação"
http://blogln.ning.com/photo/photo/show?id=2189391%3APhoto%3A20603&context=user

Sds,
Jose Oswaldo Bosso
Comentário de luzete em 8 setembro 2008 às 1:28
Coloquei lá no blog e quero também deixar registrado aqui meu agradecimento. a gente acaba aprendendo muito com vocês.
lá eu disse: vendo as coisas bonitas que hoje vcs postaram, dá até mais vontade ser brasileiro. um beijo helô.
Comentário de Laura Macedo em 8 setembro 2008 às 1:39
Oi, Helô
Nós que somos amantes da nossa Música Brasileira comungamos
integralmente com o pensamento do nosso grande maestro Villa-Lobos.Me emocionei, também, com a capacidade dele expor, a própria alma, de forma tão transparente e sincera. Que bom se todos nós, também, deixassemos aflorar, com mais frequência, nossas emoções no campo das instâncias profissional e afetiva.
Parabéns, minha amiga, por mais essa fantástica contribuição.
Um grande beijo.
Laura.
Comentário de Jane Chiesse Zandonade em 11 setembro 2008 às 4:43
Grande brasileiro. Uma bela homenagem, Helô. E obrigada pelo comentário lá no meu espaço.

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