Por: Lúcio Alves de Barros*

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“O jovem é essencialmente um inconformista.

E isso é muito lindo!” (Papa Francisco)

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A visita do Papa Francisco no Brasil é mais do que um momento histórico. O sorridente e simpático chefe de Estado trouxe boas novas à Jornada Mundial da Juventude. Juventude meio desatenta, entregue ao hedonismo, ao consumo desenfreado e ao egoísmo próprio da “modernidade recente”. O líder da igreja católica não poderia neste sentido - dentre tantas outras - se furtar de três importantes mensagens.

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A primeira mensagem proveniente de um discurso não improvisado apelou para a esperança, a capacidade de se surpreender com Deus e em Deus, e a manutenção da alegria. A esperança é uma velha virtude que acompanha os religiosos. Esperar é ter expectativas, pensamento positivo em torno de coisas e acontecimentos melhores. A esperança inspira mudança, regozijo, novos ares e possibilidades. Não há dúvida que é uma boa pedida. No entanto é uma sempre e necessária crença, principalmente acompanhada da chama do Espírito Santo. Pode ser que o pontífice acredite - nesse mundo de hipocrisia -, que poucos têm essa virtude e que não mais acreditem em mudanças significativas. Se são poucos ou não, o fato é que é difícil esperar em um mundo repleto de corrupção, ganância, falsidade, deslealdade e podridão. No Brasil, esperar não tem adiantado muito, mas o recado foi dado e a fé com alegria, já existente entre nós, é o combustível perfeito para atender ao pedido do pontífice.

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Uma segunda mensagem foi direcionada ao espírito rebelde, revolucionário e atento dos jovens. Para o Papa, são eles os atores privilegiados e que possuem a capacidade de modificar uma igreja “caduca” que venera e alimenta a mentalidade de “príncipes”. Neste caminho o recado coube não somente aos cardeais, bispos e padres, mas às lideranças católicas que há tempos se enclausuraram em suas igrejas transformando-as em micro poderes repletos de “santidades”. O pontífice apontou para a obrigatória modernização da igreja e defendeu o abandono de determinadas tradições e a venda de “falsas esperanças”. A mensagem não é jovem para muitos que fazem parte da igreja desde os anos de 1970. A ideia lançada aos católicos e à "jovem igreja" do século 21 é a de novamente seguir o caminho de Jesus Cristo optando pelos excluídos e pelos que tem fome e sede de Paz. É preciso levantar o oprimido, deixá-lo falar e se colocar ao seu lado. A igreja católica neste caminho, apesar das críticas do pontífice, lembra o ideário da Teologia da Libertação. Não obstante a crítica que teceu não a colocou como protagonista no cenário, preferindo afirmar que “Toda a projeção utópica (para o futuro) ou restauracionista (para o passado) não é do espírito bom. Deus é real e se manifesta no hoje. O ‘hoje’ é o que mais se parece com a eternidade; mais ainda: o ‘hoje’ é uma centelha de eternidade. No ‘hoje’, se joga a vida eterna".

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A última mensagem proposta é a manutenção de um Estado laico. Esta proposta vai de encontro a todo fundamentalismo – inclusive o cristão – intolerância e diferença. Ela se baseia na possibilidade do multiculturalismo, da igualdade e da fraternidade entre os seres humanos. Um estado laico abre espaço para muitos, fecha as portas aos privilégios e impede abusos de poder em nome de um deus ou de uma casta. A fala de um Papa, um chefe de Estado e talvez uma das pessoas mais influentes neste século é de suma importância nesta atual conjuntura. Primeiro, porque preserva no campo político a democracia como arena de relações de poder e, em segundo, porque admite a responsabilização daqueles que no poder devem prestar contas. A mensagem em defesa de um estado laico não impede, entretanto, a imbricação da religião com a política. O velho lema "ver-julgar-agir" é totalmente político e cabe à toda liderança religiosa vigiar o seu rebanho, guiá-lo em tempos difíceis, apontar o erro, denunciar os males, proteger os desprivilegiados e sustentar o amor, a paciência e a luz presente no coração dos seres humanos. Em outras palavras, cumpre “sustentar os passos de Deus em seu povo”.

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O Papa Francisco deixou o solo brasileiro no dia 28 de julho por volta das 20 horas. Disse que já sentia saudades. Em um país carente de tudo foi oportuna sua visita. Prometeu retornar em 2017. Quem sabe até lá, e vamos torcer para isso, muitos levem suas palavras a sério. Ouvir é diferente de escutar. Não é por acaso que a igreja católica perdeu e continua perdendo espaço no mercado da fé. A puxada de orelhas com carinho e respeito do pontífice foi muito séria. Já que ele pede, não custa rezar por ele e pedir para que nossas orelhas não se arrebentem e que em sua volta possamos pelo menos olhar de outra forma para o Papa que beijou crianças, tomou chimarrão, ganhou muitos presentes, andou em carro aberto e no mínimo mostrou que se pode ter e exercer o poder com certa humildade e pouca ostentação.

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*é professor na FAE (Faculdade de Educação) da UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais)

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