O PAPEL DA “ COMISSÃO DA VERDADE ” ***** J. R. Guedes de Oliveira



---------- Mensagem encaminhada ----------
De: Roberto Guedes <guedes.idt@terra.com.br>
Data: 1 de maio de 2011
Para: Delcio Marinho riodejaneirocultural@gmail.com

 

                     O PAPEL DA “COMISSÃO DA VERDADE”

 

                                                                                 J. R. Guedes de Oliveira

 

         Primeiramente, para saber os objetivos precípuos e a finalidade real da Comissão da Verdade,  devemos olhar o passado romano e, por ele, tratar a questão dos fatos ocorridos no chamado “anos de chumbo”. Explicamos:

 

         Os soldados romanos, quando em luta, se armavam de tudo, visando a defesa do seu corpo, principalmente a parte peitoral. Contudo, sabemos muito bem que estes mesmos soldados tinham as suas costas descobertas. Era um princípio geral a luta de frente, sem traições e sem desferimentos sorrateiros.

 

         O princípio da luta de frente, no chamado olho-no-olho, não se admitia golpes baixos e admitido, sempre, a lealdade na contenda. Esta espécie de franqueza atravessou séculos.

 

         Na questão do pós-golpe de 1964, aqui no Brasil se adotou métodos puramente bárbaros (que os romanos nunca se apossaram) e iniciaram às perseguições, torturas físicas e psicológicas, mortes, ciladas - arbítrios dos mais variados que só os porões desta denominada  “ditadura militar” poderiam gravar e ouvir.

 

          A Comissão da Verdade, cujo exercício do direito e propriamente dita “da verdade” não tem o escopo de perseguições ou de acender ódios a quem quer que seja. Ela, acima de tudo, visa resgatar a memória dos que foram torturados e mortos, nas mais cruéis situações, aos olhos dos que realmente teriam que primar pela paz e pela harmonia, coisa distante das chamadas “linhas duras” de combate aos que desejavam um país de “ordem e progresso”.

 

          O papel principal da Comissão da Verdade é rever e tornar público o que fizeram e como fizeram aos que não confessavam as determinações do poder central de governos militares que se sucederam, após o Golpe 64.

 

          Sabe-se que sob a orientação de aniquilar os contras, criaram-se núcleos de torturas, com empregos de sistemas medievais de acabar com as forças físicas e mentais de presos políticos de figuras exponenciais da vida brasileira. Um atentado de terror instalado em 18 anos de pura covardia.

 

          Os princípios elementares da Comissão da Verdade baseiam-se em normas estabelecidas pela Organização das Nações Unidas - ONU, e, para nós aqui do Brasil, pelas orientações de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos - OEA.

 

          Não tem e nunca terá como objetivo denegrir ou humilhar militares de consciência, até porque estes permaneceram acima de qualquer suspeita de mandantes de crimes “lesa pátria” aos seus filhos de consciência.

 

          Cabe, pois, a esta Comissão, a necessária busca da memória de um tempo nebuloso, onde a “japona se fez de toga”, muito bem levantada e uníssona do Senador Auro de Moura Andrade, nos idos de 1961.

 

          A Comissão da Verdade trabalhará em prol de discutir, examinar, ponderar e trazer à sociedade brasileira os dados e as informações corretas de como certos casos foram resolvidos com o emprego da criminosa matança e tortura, principalmente aos que estes facínoras denominavam de “comunistas”.

 

          Militares, principalmente, que desonraram a farda, reprimindo e combatendo ferozmente a comunidade brasileira como um todo, cobriram de horror o país todo, numa demonstração de força e de desprezo aos elementares dispositivos de direitos humanos e de respeito ao cidadão: mortes, desaparecimentos, torturas, etc.

 

          Costuma-se dizer, e com verdade incontestável, que a ditadura militar causou um grande retrocesso na vida brasileira, pois que as suas garras repressivas não se limitaram a uma determinada classe social ou determinados seguimentos, mas, contudo, a abrangência total, num rolo compressor sem tal ou igual em 500 anos de nossa existência.

 

          Ora, se a Comissão da Verdade irá trabalhar pela verdade, restabelecendo as informações precisas do que se passou nos porões da ditadura, não há de se temer os seus resultados. Não se trata de perseguições ou mesmo de reabrir velhas chagas. Isto jamais. Mas é necessário e preciso que, com coragem e determinação, mostre o que se fizeram aos brasileiros que professavam melhores dias ao seu país e não tiveram um minuto sequer de se defender. Está, por aí, os relatos de centenas de torturados que sobreviveram deste holocausto brasileiro. Contudo, os que se foram, traiçoeiramente vitimados, precisam de sua campa e de suas homenagens póstumas. É determinação expressa das organizações mundiais de defesa dos direitos humanos.

 

          Portanto, devemos ter em mente que a Comissão de Verdade que, realmente se instalará no Brasil, terá o mérito de dar uma resposta às novas gerações e ao mundo de como um espaço de tempo se retrocedeu à barbárie num pais sob o olhar do Cruzeiro do Sul.

 

          É tempo de verdade; é momento de plena consciência do dever que se avizinha na imagem eterna dos que se sucumbiram ante as baionetas de pseudos-brasileiros que se utilizaram da “verde-oliva” para botar para fora a sua ira e seu ódio incontido nas mais largas esferas da nossa gente, gente esta ávida de dias melhores.

 

          A instalação da Comissão da Verdade, em toda a sua extensão de trabalho e de busca é fator de recomposição do nosso país, para que os impunes e os torturadores sejam identificados e saibam, todos, o que produziram de atitudes descaradas, inconseqüentes e de desumanidade. É o quanto se pede num momento em que se exige a formatação de “quem é quem” na nossa história.

 

          Só quem tem medo da verdade é que se arrepia ao nome e objetivos da “Comissão da Verdade”. É esta, indiscutivelmente, a verdade, nua e crua. A dor dos que ficaram ainda lateja no peito; a saudade - lembrança eterna dos que se foram tolhidos pela intolerância, é algo indescritível. Só mesmo com o desprezo e a nominação de todos eles, torturadores, teremos uma paz e a consagração dos dias mais felizes que hoje vivemos.

 

          Somamo-nos, pois, aos propósitos maiores da Comissão da Verdade e a ela daremos a nossa contribuição, de uma forma ou de outra. Aliás, a sociedade estará presente em sua atividade, assim que a mesma tornar-se fato consumado.

 

 

                                  J.R.Guedes de Oliveira, ensaísta, biógrafo e historiador.

                                  E-mail: Guedes.idt@terra.com.br

         

 

        

 




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Delcio Marinho Gonçalves
Portal DM @ RIO CULTURAL
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