O Poeta Salgado Maranhão - mundo afora

 

É uma trajetória admirável a que leva o poeta e letrista Salgado Maranhão do povoado de Cana Brava das Moças, no interior do Maranhão, onde nasceu, (ainda adolescente, mudou-se com os irmãos e a mãe para Teresina - PI), até 50 universidades americanas, como Harvard e Yale, onde vai dar palestras de setembro a dezembro.

 

Analfabeto até os 15 anos, trabalhou na lavoura e hoje tem sua obra estudada nos EUA, recebe elogios de gente como Ferreira Gullar (“É um dos mais brilhantes poetas de sua geração”), vê poemas traduzidos em inglês, alemão e holandês — em breve em italiano, hebraico e até esperanto —, conquistou prêmios como o Jabuti e o da Academia Brasileira de Letras, tem letras em parceria com Paulinho da Viola, Ivan Lins, Zeca Baleiro, Elton Medeiros e Moacyr Luz, e vai ganhar em agosto uma grande exposição em São Paulo. Por cada palestra nos EUA vai receber de US$ 800 a US$ 1 mil.

 

Feito passarinho” (Salgado Maranhão/Paulinho da Viola) # Paulinho da Viola (cavaquinho/voz), Dininho e Celsinho Silva (percussão), Cesar Faria (violão), Copinha (flauta), Cristóvão Bastos (piano), Dininho (baixo), Hércules Pereira Nunes (bateria) e Raphael Rabello (violão 7 Cordas), 1981.

 

 

Ele prepara dois livros. Para este ano, “Papo poesia- arte de dizer o que não pode ser dito”, em que responde a cem perguntas da professora Iracy de Souza. E, para 2013, “O mapa da tribo”, com poemas inéditos.

 

A poesia nos dá colo na alegria e na tristeza”, disse ele, pouco antes de ir ao encontro do escritor angolano Ondjaki, que vai ler seus poemas num evento literário.

 

 

Entrevista concedida a Revista O Globo

 

Você não gosta muito de falar sobre as adversidades por que passou. Por quê?

 

Não gosto de vender miséria para ganhar atenção. Não faço papel de vítima. Não quero o caminho fácil. Não busco planícies, busco ladeiras. Mas é verdade que minha vida é cheia de relevos. Vim para o Rio com 22 anos. Queria conhecer o meio artístico. Cheguei sem dinheiro, arrumei emprego numa livraria, no depósito de livros. A dona mandou que aos sábados eu lavasse o letreiro. Eu disse: “Sou poeta, não vim ao Rio para lavar letreiro.” Ela falou: “Mas você é muito audacioso.” Eu era muito folgado. Demitido, fui trabalhar numa firma de engenharia na construção do metrô. Até que li um poema num recital da turma da Nuvem Cigana. Júlio Barroso (que depois criou a Gang 90) gostou e me chamou para escrever na revista “Música do Planeta Terra”.

 

Você era analfabeto até os 15 anos...

 

Sou filho da Casa Grande e da Senzala. Minha mãe era uma camponesa negra, meu pai era o dono da fazenda. Ele era casado e tinha três filhas. Eu era o único filho homem de meu pai, e a família dele quis me levar para criar, mas minha mãe não deixou. Minha primeira influência foram os repentistas. Aos 15 anos, fui estudar em Teresina. Na casa onde fiquei, havia professores. E descobri a biblioteca pública. Um dia li “Poema em linha reta”, de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. Nunca mais fui o mesmo. Lia tão devagar, com medo de acabar e não achar outro livro dele, que chegava ao meio e voltava a ler.

 

Você trabalhou como massoterapeuta. Como foi?

 

No Rio, conheci um padre jesuíta, João Manoel Lima Mira. Ele era faixa preta de kung fu e me iniciou nas práticas orientais. Depois foi para o Japão e se tornou samurai. Aprendi acupuntura, shiatsu, reiki, quiropraxia. Trabalhei 14 anos no Club Méditerranée, em Angra. Atendi cerca de cinco mil pessoas. Ayrton Senna era meu cliente. Ia muito lá, tinha muitas tensões. Uma vez levei um livro meu e ele ficou espantado. Dias depois, disse que leu e gostou. Me deu um boné autografado, que está em Teresina, na casa de um amigo. Ele é tão apaixonado por Senna que falei: “Você vai guardar melhor que eu.” Ele emoldurou e botou na parede. Mas agora não tenho mais tempo para a massoterapia. Pela primeira vez, estou vivendo só de poesia.

 

Para você, qual a importância da poesia?

 

As pessoas só pensam nas coisas materiais. Ficamos presos às necessidades urgentes. Mas isso não dá conta da nossa humanidade, não nos completa como indivíduos e seca a poesia do nosso coração. A poesia nos empurra para uma dimensão além da sobrevivência básica.

 

Qual o espaço da poesia hoje?

 

O mundo nunca precisou tanto de poesia como agora. Se tudo o que temos é para transformar em dinheiro, então não somos pessoas, somos um supermercado. Vivemos na sociedade da ordem, do “experimente!”, do “compre já”. A publicidade quer parecer, mas a poesia quer apenas ser. O que fascina as pessoas é sua gratuidade, sua verdade genuína num mundo quase todo poluído pelo interesse material. A poesia não faz como a literatura de autoajuda, que aponta caminhos. Ela não dá receitas, dá autonomia. Não nos manda imitar o outro, quer que descubramos nosso próprio mapa.

 

Leia abaixo poema inédito de Salgado Maranhão, “A febre verbal”:

 

A febre do poema

é o ruído do sonho

na palavra,

o clamor da eternidade

urgente

(como Sócrates

que queria tocar lira

antes de morrer.)

As impressões dão-se

ao risco

de cruzar o fogo

sem perder o jogo:

no céu da boca

o sol da linguagem

tece relâmpagos.

E disto é o reino da voz

sobre as sombras.

A febre do poema

é o tálamo

que dá língua

à pedra.

Um rito à borda do delito.



 

 

Capa do CD “Amorágio”, pelo selo SESC Rio/2005.

 

 

 

São treze canções – cinco inéditas e oito já gravadas por intérpretes e parceiros de Maranhão – muitos que aqui se fazem presentes: Ivan Lins, Paulinho da Viola, Elba Ramalho, Alcione, Zé Renato, Rita Ribeiro, Amélia Rabello, Sandra Duailibi, Dominguinhos, Selma Reis e Zeca Baleiro. Confiram algumas faixas.

 

Farra” (poema) Salgado Maranhão

Eu canto porque o amor me chama

Com suas garras de fogo

Meio farra, meio drama

Eu sou de quem me ama

 

 

 

Caminhos de sol" (Salgado Maranhão/Herman Torres) # Rita Ribeiro

Numa tarde ensolarada – tipicamente carioca – atendi ao telefonema de Herman Torres, que me convocava, às pressas, para ir a sua casa ajudá-lo a compor uma canção para reconquistar sua mulher que tinha ido embora. Em trinta minutos nasceu “Caminhos do sol”, que milagrosamente cumpriu sua missão. A música foi sucesso absoluto na voz de Zizi Possi, e – mais tarde – com Yahoo virou tema da novela 'A viagem', da TV Globo”.

 

 

Recado” (Salgado Maranhão/Paulinho da Viola) # Paulinho da Viola.

 

"Trem da consciência (Salgado Maranhão/Vital Farias) # Zeca Baleiro.

Quando cheguei ao Rio, em meados da década de 70, vindo de Teresina, influenciado por Torquato Neto, já pensava em escrever livros e em fazer letra de música. Mas, só em 1978 tive minha primeira música gravada, ‘Curral das maravilhas’, em parceria com Vital Farias, que logo foi usada como tema de uma peça de Jonas Bloch. ‘Trem da consciência’ é dessa época em que viráramos a noite compondo e discutindo política, à sombra da ditadura”.

 

Ave cigana” (Salgado Maranhão/Zé Américo) # Dominguinhos.

"Amorágio (Salgado Maranhão/Ivan Lins) # Ivan Lins.

Em 1975, depois de um show do Ivan Lins fui ao camarim e lhe dei meu livro ‘Punhos da serpente’. Passado algum tempo encontrei o tecladista Fernando Malta, que me avisou qua o Ivan estava à minha procura: tinha gravado ‘Para alegrar coração de moça’, nossa primeira parceria. De lá para cá, vários poemas do livro, viraram música. ‘Amorágio’ e ‘Vôo livre’ são frutos desse encontro”.

 

 

 

O mais novo CD de Ivan Lins, parceiro de Salgado Maranhão, lançado recentemente foi batizado, também, de “Amorágio”.

 

 

Salgado Maranhão prestigiando o lançamento do CD do parceiro Ivan Lins

 

 

Salgado Maranhão em caricatura do piauiense João de Deus Netto.

 

Desejamos ao talentoso artista Salgado Maranhão muito sucesso e realizações mundo afora.

 

 

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Fonte: Jornal o Globo (15/7/2012)

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