O "Positivismo" de Noel Rosa e Orestes Barbosa

 

 

 

Autor de célebres letras românticas, Orestes Barbosa resolveu juntar amor com filosofia e história em “Positivismo”. Não foi muito fiel aos fatos ao citar Pilatos, Guillotin e Comte, mas fez uma letra engenhosa, que entregou para Noel Rosa. Este demorou a compor a melodia, motivo de irritação para Orestes, que passou a falar mal do Poeta da Vila.

 

Um dos biógrafos de Noel Rosa - João Máximo - relata que, ao saber, Noel criou a música e ainda acrescentou uma quadra ironizando o parceiro.

 

 

 

“Positivismo” (Noel Rosa/Orestes Barbosa) # Noel Rosa, Pixinguinha e sua orquestra. Disco Columbia (22.240A), 1933.

 

 

 

 

 

 

 

 

A verdade, meu amor, mora num poço.

É Pilatos na Bíblia, quem nos diz

E também faleceu por ter pescoço

O (infeliz) autor da guilhotina de Paris.

 

Vai, orgulhosa, querida

Mas aceita esta lição:

No câmbio incerto da vida

A libra é sempre o coração.

 

O amor vem por princípio, a ordem por base,

O progresso é que deve vir por fim.

Desprezaste esta lei de Augusto Comte

E foste ser feliz longe de mim.

 

Vai, coração que não vibra,

Com teu juro exorbitante,

Transformar mais outra libra

Em dívida flutuante

 

A intriga nasce num café pequeno

Que se toma para ver quem vai pagar.

Para não sentir mais o teu veneno

Foi que eu já resolvi me envenenar!

 

 

 

Transcrição do relato de João Máximo

 

 

 

Orestes Barbosa o poeta dos amores ocultos, da mulher endeusada, das metáforas enfeitadas de flores a pássaros, luas e estrelas foi uma espécie de Vinicius de Moraes do seu tempo. Como Vinicius um poeta que trocou os livros pela canção popular. Como Vinicius um letrista apaixonado, como Vinicius figura centralizadora em torno e quem se reuniam seguidores de todas as idades. Mas Orestes como Vinicius também escreveu letras que falam de amor de modo menos usual, raramente, é verdade.

 

 

 

Orestes, por exemplo, fez isso em quatro quadras nas quais misturava amor, dinheiro, frases e filosofia. Pouco importa se a frase sobre a verdade atribuída a Pôncio Pilatos não esteja na Bíblia; ou se Guillotin não tenha morrido na guilhotina por ele mesma inventada e sim um xará seu. Pouco importa até se o poeta toma liberdades com as ideias de Augusto Comte sobre ordem e progresso. O que interessa é que Orestes Barbosa gostou da letra que fez e a entregou para Noel Rosa musicá-la.

 

 

 

Por algum motivo passaram-se dias, semanas, meses e as quatro quadras ficaram esquecidas entre a papelada de Noel. Orestes não gostou e se queixou com Antônio Nássara, grande amigo dos dois.

 

 

 

À mesa do Nice [Café Nice] entre um cafezinho e outro, Orestes estendeu sua queixa a mais gente. Não era homem de falar pouco. Teria Noel jogado seus versos fora? Pior: Teria se apropriado deles? Nenhuma coisa nem outra. Mas Noel acabou sabendo do veneno que o parceiro andava espalhando contra ele e não perdeu tempo. Musicou as quadras de Orestes e foi gravá-las no estúdio da antiga Columbia. Não sem antes pedir a Pixinguinha que escrevesse longa passagem de orquestra ao fim do último verso depois do que Noel volta à com uma quadra de sua autoria: sutil recado musical ao venenoso parceiro.

 

 

 

 

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Fonte:

- Noel pela Primeira Vez - Discografia completa, de Omar Jubran. - FUNARTE, 2000.

- Programa de João Máximo na Rádio Batuta do IMS.

- Site YouTube.

 

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