O pré-sal e a esperança de uma velha professora

"Do ciclo de desenvolvimento brasileiro do pós-segunda guerra mundial, nucleado e liderado por grandes grupos estatais, a Petrobras é, indubitavelmente, a estrutura empresarial que vincula essa trajetória de sucesso a um futuro promissor de nação."

Volto das minhas pequenas férias e encontro acalorados debates sobre o pré-sal. Já escrevi várias postagens sobre este tema aqui no blog e, provavelmente, escreverei outras tantas.

Contudo, ainda marcado por aquela curta serenidade que o afastamento momentâneo das nossas querelas diárias nos proporciona, penso longamente sobre o que diria minha velha amiga e professora Carmen Alveal sobre este tema, que diz respeito não só ao futuro da indústria de petróleo no Brasil, mas ao futuro do próprio país.

Afinal, a indústria de petróleo, em particular a indústria de petróleo brasileira, sempre fez parte da agenda de estudo de minha velha amiga, sendo, inclusive, tema da sua premiada tese de doutorado no IUPERJ, publicada em livro com o título “Os Desbravadores: a Petrobras e a construção do Brasil industrial”, pela Editora Relume Dumara em 1994.

Carmen nos deixou em um triste mês de Julho de 2004 e não pode assistir aos eventos que ocorreriam nos anos seguintes, e que viriam a confirmar a enorme esperança que ela tinha no nosso país e, em particular, na força da nossa indústria de petróleo, representada pela Petrobras.

Em Outubro de 2003, Carmen publicou um pequeno artigo no boletim Infopetro do Grupo de Economia da Energia do IE-UFRJ, fazendo um balanço sobre os cinqüenta anos da Petrobras. É este artigo que eu transcrevo abaixo. Nele acredito que estão presentes os elementos essenciais da visão da professora Carmen Alveal que, penso eu, comporiam as análises que ela faria hoje; caso não tivesse sido tirada do jogo por um lance fortuito do destino.

Contudo, antes de passar ao artigo, para que vocês possam entender um pouco sobre as peculiaridades do pensamento da minha velha amiga, transcrevo dois parágrafos do editorial do número do boletim infopetro que reuniu alguns dos seus artigos por ocasião do seu falecimento.

A perda de uma intelectual da envergadura da Professora Carmen tem um significado que transcende o vazio afetivo que marca a todos nós que tivemos a oportunidade de conviver com ela; mais do que isso representa, doravante, a ausência de um pensamento bastante original, que enriquecia a análise do setor de energia mediante a incorporação de conceitos econômicos e de ciência política, associados a uma competência rara de ser encontrada em um único profissional. Além disso, e talvez mais importante, esta competência se aliava a uma generosidade incomum em compartilhar esses conhecimentos, sustentada por um imenso amor e fascínio por um país que, embora não fosse o seu, ela adotou sem restrições. Em função disto, a professora Carmen terminou por incorporar o traço mais marcante do ser brasileiro: a esperança. É um pouco dessa esperança que vai com ela, deixando a nós todos um pouco órfãos de sua lucidez e equilíbrio.

Contudo, cabe lembrar uma frase simples, que ela vira, a muitos anos atrás, quando desembarcou no Brasil, e que de alguma maneira representava, para ela, o vigor do dinamismo deste país: o mundo gira e a lusitana roda. Ela se divertia ao lembrar dessa frase, pintada em um caminhão de mudanças, e como esse fato fortuito ajudou-a a entender um pouco da nossa alma brasileira. Não importa o que aconteça, sempre seguiremos em frente. Há algo que sempre nos move, e quem não entende isto, não entende este país. A professora Carmen procurou entendê-lo; não por que isto fizesse parte da sua agenda intelectual, mas simplesmente porque amava este país e amava a sua gente.


50 Anos da Petrobras: O Triunfo Real do Potencial Brasileiro

Por Carmen Alveal

Boletim Infopetro, GEE/IE/UFRJ, Outubro de 2003.

Do ciclo de desenvolvimento brasileiro do pós-segunda guerra mundial, nucleado e liderado por grandes grupos estatais, a Petrobras é, indubitavelmente, a estrutura empresarial que vincula essa trajetória de sucesso a um futuro promissor de nação.

Na trajetória brasileira precedente a Constituição de 1988, pautada pelas vicissitudes de negociações e de rearranjos políticos entre os interesses das burocracias estatais, do empresariado nacional e do capital internacional, a Petrobras imprimiu o selo de desbravadora na construção e na consolidação industrial brasileira; consolidação que superou o restrito marco mundial de uma industrialização mais do que tardia.

Petrobras: breviário de uma trajetória de sucessos

Foi na liderança do monopólio estatal da indústria petrolífera que a Petrobras sedimentou extraordinário e peculiar aprendizado estratégico, político e econômico-empresarial, doméstico e cosmopolita, que permitiu ao Brasil enfrentar, de início, o poder econômico do cartel internacional do petróleo; e, mais tarde, os devastadores impactos das elevações dos preços de petróleo dos anos 70, que inauguraram o atual cenário incerto da indústria mundial do petróleo.

Já em 1975, completada a verticalização interna da indústria petrolífera, engajada no desenvolvimento da petroquímica e dos fertilizantes e iniciada a internacionalização de suas atividades, desbravando, inclusive, os mercados da América Latina, Médio Oriente e África para os produtos industriais brasileiros, a estatal não era só a primeira empresa no Brasil e na América Latina: situou-se entre as trinta melhores empresas do mundo. Contudo, o patrimônio de mais alto valor amealhado nessa trajetória consiste de duas premiações da Offshore Technology Conferenceii em 1991 e em 2001, que atestam a liderança tecnológica internacional da Petrobras.

Feitos políticos pioneiros, lastreados por inegável competência empresarial, estão na raiz dessa peculiar trajetória de sucesso.

Sem dúvida, a inserção da Petrobras na expansão do complexo petróleo-petroquímica, situou-a no principal núcleo dinâmico do crescimento industrial brasileiro, favorecido no período por grande expansão da economia mundial, sob a governança do frouxo laissez faire internacional das instituições de Bretton Woods. Entretanto, não foi um dado natural que a estatal assumisse a liderança dessa expansão, através de complexo e intrincado jogo cooperativo com o empresariado nacional e estrangeiro.

O empresariado nacional, principalmente o da indústria local de bens e serviços de capital, beneficiou-se da promoção de capacitações e de aquisição de competências de design, engenharia e fabricação, experiência inaugurada nos idos de 1955, quando a estatal patrocinou o nascimento da Associação Brasileira de Indústrias de Bens de Capital (ABDID). O empresariado estrangeiro ampliou seu mercado, por intermédio da internalização negociada de competências de operação, gestão, planejamento e construção de parques produtivos, com seus processos, equipamentos e serviços tecnológicos, no domínio sabidamente complexo e denso das atividades de exploração, produção, refino de petróleo, de petroquímica e de fertilizantes.

A inovação associativa implementada pelo grupo estatal no singular "modelo do tripé" petroquímico, bem como a competição negociada com as maiores petrolíferas internacionais no dinâmico mercado brasileiro de distribuição, foram eloqüentes práticas estratégicas de crescimento flexível e diversificado, características do mundo empresarial oligopolista contemporâneo.

Com certeza, essas práticas foram facilitadas pelo dinâmico crescimento de escala continental da economia brasileira e, a despeito de conflitos de percurso, pela congruência de objetivos e interesses que se estabeleceu entre as lideranças da estatal e os objetivos e interesses dos sucessivos governos. No entanto, a precariedade de raciocínio de certas forças do cenário político brasileiro ainda teima em confinar a cultura empresarial da Petrobras nos âmbitos originários do instituto do monopólio estatal do petróleo, definitivamente superados ao longo da década de 70 do século XX.

Novos parâmetros mundiais e internos e novos sucessos

Fruto da instabilidade aberta com os aumentos do preço do petróleo dos anos 70, configuraram-se transformações sócio-produtivas em escala mundial, lideradas por redefinições estratégicas dos governos dos países desenvolvidos e das grandes corporações transnacionais. Esse curso evolutivo, catalisado por intenso progresso técnico, racionamento financeiro e aumento da competição inter-industrial, evidenciou a radical alteração da ordenação institucional da indústria mundial do petróleo e do contexto externo e interno das estratégias de crescimento da Petrobras e do Brasil.

Dessa maneira, a reestruturação da indústria brasileira de petróleo surgiu no bojo do processo mais amplo de redefinição das funções econômicas do Estado e da abertura das economias domésticas, num cenário mundial de mutações de rumo incerto e de crise interna do Estado empresário, resultante da degenerescência do padrão de gestão tríplice que havia promovido a expansão econômica do capitalismo brasileiro no pós-guerra (capital estatal, privado nacional e estrangeiro). De fato, a incongruência crescente entre os objetivos de estabilização de curto prazo dos governos e as estratégias de longo prazo da estatal havia configurado, na passagem da década de 80 para 90, processos que tenderam a desestabilizar o seu horizonte de crescimento.

Foi assim que a evolução do grupo estatal Petrobras inseriu-se no "arrastão" da agenda de reformas estruturais orientadas para o mercado dos anos 90. Entretanto, a quebra do monopólio da Petrobras traduziu uma decisão política cautelosa em relação à tese de que o velho Estado teria realizado longa e dupla trajetória viciosa, como empresário ineficiente e como disciplinador predatório dos interesses coletivos. O sucesso da organização anterior conduziu a decisão da coalizão política reformadora a uma estratégia gradualista de abertura do mercado petrolífero, preservando a Petrobras em sua função de estímulo ao ingresso e à formação de parcerias com os agentes privados.

Desde então, os desempenhos da Petrobras, no mercado interno e internacional, são significativos.

As reservas de óleo e gás da estatal, no Brasil e em outras regiões do mundo, cresceram substancialmente, garantindo a auto-suficiência do suprimento do país para o horizonte de 2007. Tornou-se, por intermédio da Petrobras-Energia, um relevante player sul-americano, consolidando sua presença anterior e sua estatura como um dos grandes grupos petrolíferos regionais, desde a aquisição dos ativos da Perez-Companc, o maior grupo privado petrolífero argentino. Enfim, a abertura petrolífera do país reafirmou o franco predomínio da Petrobras; o razoável porte das barreiras econômicas a ser enfrentadas pelos investidores interessados, especialmente no upstream (exploração/produção), conduziu a estratégia das operadoras internacionais a se associar com a estatal, que detém o conhecimento das bacias sedimentares brasileiras e do ambiente sistêmico e empresarial do país.

Foi notória a presença dominante da estatal, individualmente e em associação com grandes grupos internacionais, na aquisição dos blocos ofertados nas cinco rodadas de licitação. A estratégia associativa com algumas das maiores petrolíferas internacionais, já presente no “Round Zero” de 1998, reafirmou o padrão comportamental que realizara, nos anos 70, a construção petroquímica do país; desta vez, marcando o ingresso de grandes grupos petrolíferos globais e a internacionalização do segmento upstream no Brasil.

O engajamento da Petrobras, fundamental para o sucesso da abertura do upstream brasileiro, tornou o Brasil uma das promissoras regiões de atração de investimentos e, no limite, um país exportador de petróleo, disputando com novas regiões “tradicionais”, tais como o Golfo do México, a Rússia, a Ásia e a Costa Oeste Africana. A contrapartida estratégica da Petrobras é valorizar o seu maior ativo, o domínio tecnológico em off-shore profundo, para realizar swaps com as parceiras em outros países, principalmente no litoral da África Ocidental e no Golfo do México.

No horizonte de 2010, a Petrobras pretende preservar sua competitividade no mercado doméstico de petróleo e derivados, consolidar sua liderança na América do Sul e aumentar sua presença internacional, a partir do seu principal triunfo: o domínio tecnológico em sistemas de produção em águas profundas e ultraprofundas, cuja fronteira exploratória já ultrapassou os 2.400 metros de profundidade e se dirige à marca dos 3 mil metros.

Construir esse futuro comporta investimentos da ordem de US$ 34,3 bilhões no período 2003- 2007; desse montante, 85% serão destinados ao Brasil e 15% ao mercado internacional, preferencialmente América Latina, Golfo do México e Oeste da África. A maior parcela dos recursos (57%) provirá de autofinanciamento. A atividade privilegiada será o upstream, com US$ 22,4 bilhões. Para o desenvolvimento de gás e energia serão alocados US$ 7,9 bilhões (23% do orçamento total). A ampliação e modernização do parque interno de refino beneficiarão da maior fatia restante desse maciço volume de investimento.

Petrobras: um triunfo real para o resgate de uma economia estressada

Durante as duas décadas recentes, a Petrobras liderou a única atividade econômica imune ao recorrente stop and go característico do medíocre crescimento econômico do país. Se considerado apenas o período 1997-2000, a indústria petrolífera dobrou sua importância na estrutura do produto brasileiro: de 2,7%, em 1997, para 5,4%, em 2000. Paralelamente, é inegável a estatura assumida pela estatal como ator de proa e sustentadora dos avanços da integração econômica e energética regional, no âmbito do Mercosul; principalmente no comércio de petróleo, gás e derivados com a Argentina e de gás com a Bolívia.

Nesse engajamento, a estatal brasileira desempenhou relevante papel de contrapeso, no Brasil e na região, em relação à estatura tecnoeconômica dos grupos petrolíferos e energéticos globais, cujo ingresso na região foi facilitado por processos de abertura indiscriminada. Este papel é fundamental na nova tessitura relacional oligopolista da produção internacionalizada que, nascida da reestruturação produtiva mundial das duas décadas recentes, adentrou as complexas interdependências econômicas e políticas entre as economias nacionais, no quadro da integração em grandes blocos regionais.

É nesse contexto que as dimensões econômicas e políticas das relações internacionais petrolíferas e energéticas, do Brasil e das economias da região, precisam ser examinadas.

O re-exame das orientações do desenvolvimento e da inserção mundial, brasileira e regional é tema central da agenda política em curso. No âmbito petrolífero e energético, a questão relevante dessa agenda não se reduz apenas às dotações domésticas que o Brasil e os vizinhos, por intermédio de suas empresas, podem oferecer aos parceiros globais, nas novas modalidades que orientam as estratégias de cooperação empresarial. Trata-se, principalmente, de reverter a perspectiva de abordagem e visualizar em que medida esses recursos habilitam os governos e as comunidades nacionais na promoção da estatura das nossas empresas no cenário mundial da indústria petrolífera e de energia.

No Brasil, que detém posição líder na região, esse desafio impõe o equacionamento entre objetivos sensivelmente conflitantes, reunindo as razões de política e as razões de mercado no desenvolvimento futuro da indústria petrolífera. E, sobretudo, inteligência política na instrumentação dos recursos que viabilizem o exercício da dimensão nacional e regional da política petrolífera.

Esse equacionamento, por sua vez, requer das estruturas de governança política e regulatória a formação de competente tecnoestrutura a substanciá-lo e operá-lo, numa perspectiva de longo prazo. Esta condição não é apenas crucial para o futuro bem-estar e a saúde do contexto competitivo almejado para os agentes nacionais: é também crucial para o futuro dos agentes transnacionais que estão a negociar suas participações no desenvolvimento futuro dos nossos países.

Apesar das dimensões problemáticas desse desafio, o Brasil pode, sem arrogância, aprender com o que é essencial na trajetória dos 50 anos da Petrobras: filosofia e senso realista de oportunidade, esteado por notável lucidez e competência - dos governos, da Petrobras, dos capitais privados - no objetivo de crescer, na competição ou na cooperação, com agentes privados nacionais e estrangeiros.

Decisivamente, o balanço dos 50 anos da Petrobras é um triunfo real que estimula olhar para o futuro com razoável otimismo.

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Comentário de Raí Araujo em 8 setembro 2009 às 13:50
Caro amigo,acredito como você,que somente com uma empresa forte e comprometida com o desenvolvimento do país,como foi e está sendo a citada Petrobras,é que entraremos definitivamente no mundo desenvolvido,e tendo(como temos)tantas reservas,até agora inexploradas,a criação da Petrosal,desligada completamente da Petrobras,exceto na divisão dos conhecimentos exploratórios desta,e na distribuição correta dos lucros futuros,será,como bem disse em seu discurso,no último dia 06,o Presidente Lula,quando comemorou o que chamou de nossa 2ª independencia.
E o que é Independencia ?
É a certeza,que ao tirarmos das nossas reservas,aquilo que a natureza graciosamente nos presenteou,garantiremos um futuro com F Maiúsculo,para nossos filhos e netos;
É a certeza da autonomia no que concerne a combustível e seus derivados,que baixarão os custos de produção de nossos bens de consumo;
É a certeza da inclusão do nome do nosso país,entre os grandes produtores de petróleo,e o consequente aumento das nossas exportações desta comodyties,que nos dará tranquilidade para sermos verdadeiramente independentes dos países produtores.
O sonho e a crença da sua amiga,o seu sonho de sermos capazes de administrarmos uma Estatal,como fazemos com a Petrobras,sem nada ficar devendo ao 1º mundo,e a minha crença,de que a partir de agora,como pre-sal,entraremos no caminho do pleno desenvolvimento sustentado,e deixaremos como herança,para as futuras gerações,um país de verdade,e citando a prometida terra bíblica aonde correria "leite e mel" para nosso filhos e netos.
Oxalá que a Petrosal,faça nos próximos 50 anos,o mesmo que a Petrobras fez(e está fazendo)pois assim o futuro não será apenas otimista,será real.
Comentário de Sérgio Troncoso em 13 setembro 2009 às 15:34
Ronaldo passo aqui para lembrá-lo que continuo lendo suas postagens aqui. Voce já se inteirou das propostas da FUP e da FNP para o novo marco regulatório? Assim que puder, volto para escrever alguma coisa sobre isso, e te dar umas "curucadas". Me lembro que a última vez que te "provoquei" voce escreveu um troço bonito pacas, que eu gostei muito, rsrsrs. Acho ótimo uma discussão tipo ganha / ganha. Um abração, Sérgio.
Comentário de Ronaldo Bicalho em 14 setembro 2009 às 2:16
Caro Sergio,

Suas provocações são sempre bem-vindas neste espaço.

Um abraço,

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