O que é uma Cultura de Paz e quais são os obstáculos que nos separam dela?

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O que é uma Cultura de Paz e quais são os obstáculos que nos separam dela?

Johan Galtung

2 de março de 2003

Dr. Johan Galtung, Professor de Estudos da Paz
Diretor da TRANSCEND: Rede para o Desenvolvimento e para a Paz
1. Culturas de Paz. Uma cultura de paz é uma cultura que promove a paz. Mas o
que é a paz? Ofereço duas metáforas:
A primeira metáfora é a da saúde: "a paz está para a violência assim como a
saúde para a doença". Uma pessoa pode ser saudável – uma pessoa, grupo, estado,
nação, região ou civilização podem ser pacíficos, pelo menos mais do que são hoje em
dia.
Mas falamos também de paz entre pessoas, grupos, etc. Assim, a segunda
metáfora é a do amor. O amor é a união de corpo, mente e espírito ou, para ser mais
exato, a união destas uniões. É o milagre do sexo e da ternura física; o milagre de
mentes partilhando alegrias e sofrimento (sukha e dukha, como diriam os budistas),
vibrando em harmonia. E o milagre de duas pessoas que têm um projeto em comum
que as transcende, inclusive a reflexão construtiva sobre a união de corpo e mente.
Agora, elevemos esta reflexão para considerar o caso de duas sociedades, dois
estados. O corpo é a economia. A mente é a política. O espírito é a cultura,
principalmente a cultura profunda, coletiva, subconsciente. Deixei de fora a quarta
fonte de poder, o exército, pois me preocupo com a consecução da paz por meios
pacíficos. Para os que consideram válido o conceito de “guerra justa”, proponho o
seguinte exercício: tentar pensar uma “escravidão justa”, um “colonialismo justo”, um
“patriarcado justo que reprima as mulheres”. Talvez então lhes ocorra a idéia de que
os males devem ser abolidos e não justificados.
Infelizmente, muitos institutos e universidades que se dedicam aos estudos de
paz na verdade estão estudando a Guerra, contando meticulosamente o número de
conflitos, por vezes verificando como terminaram, como foi o cessar-fogo. O processo
do cessar-fogo, no qual às vezes intervém um terceiro para punir quem quebrar o
cessar-fogo, recompensá-los se não o quebrarem, enfim para fazer o cessar-fogo
pagar por existir – tudo isto é uma coisa que pode ou não ser uma boa abordagem à
paz mas, seja lá o que for, não é um processo de paz.
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Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz – um programa da UNESCO
A Paz, como mostrou nossa metáfora, é uma relação positiva entre as partes,
uma união, uma comunhão. A condição para a paz é o respeito mútuo, dignidade,
igualdade, reciprocidade – tudo isso nas três áreas: espírito, mente e corpo; cultura,
política e economia. Vejamos estas três áreas:
A Universidade Internacional para a Paz tem o mérito de ser a primeira universidade
que, na esteira do trabalho pioneiro do ex-diretor geral da UNESCO, Federico Mayor
Zaragoza, está colocando a cultura à frente do trabalho de paz. No caso da
universidade esse trabalho focaliza os tesouros espirituais de todas as culturas,
começando pela sua própria cultura Coreana.
Segundo a minha experiência, cada cultura tem algum tipo de contribuição à
cultura de paz mundial. No Ocidente temos a igualdade de direitos perante a lei, na
Polinésia temos o ho’o pono pono, na Somália o shir, e os índios Cheyenne nos deram
o calumet. Essa idéia de uma procissão mundial de contribuições à cultura de paz é
excelente. É uma idéia que me parece bem mais convincente do que os jogos
olímpicos, que envolvem muita competição e medalhas de ouro, prata e bronze –
quando na verdade precisamos de diálogo e aprendizado mútuo.
Para demonstrar o que quero dizer, permitam-me listar aquilo que, ao longo
de minha curta vida (que representa menos de um segundo na história da cultura
mundial) aprendi com as religiões do mundo:
Com o Judaísmo: a verdade não é uma declaração de fé mas um processo de diálogo
sem fim, como no Talmud.
Com o Protestantismo: o mote luterano hier stehe ich, ich kann nicht anders [aqui
estou, não tenho alternativa] fala do significado da consciência e responsabilidade
individuais; da igualdade diante da face do Criador.
Com o Catolicismo: a distinção entre pecado e picador, a posição contrária ao pecado
mas ao mesmo tempo de perdão e misericórdia para com o picador.
Com a Igreja Ortodoxa: o otimismo do cristianismo da ressurreição, tão diferente dos
cristianismos da crucificação; Cristo vive e está entre nós.
Com o Islã: a verdade do Sura 8:61: Se os outros se mostrarem dispostos à paz,
também você. A paz gera a paz. E também a verdade de zakat: partilhar com os
pobres.
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Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz – um programa da UNESCO
Com o hinduísmo: a construção trina do mundo como Criação, Preservação e
Destruição. No contexto do conflito isto significa ver o conflito como desafio para
solucioná-lo criativamente, preservar as partes e evitar a destruição.
Com o budismo / jainismo: evidentemente, a não-violência, ahimsa. Mas é preciso
aplicá-la a toda a vida, todo o planeta, não apenas os humanos. Isto é o que o
budismo japonês chama de engi – tudo está inter-relacionado, a causação é codependente,
não há começo nem fim e ninguém é totalmente culpado nem
totalmente inocente. Somos todos co-responsáveis pela diminuição de dukha (o
sofrimento) e pelo aumento de sukha (realização, libertação de todos, inclusive nós
mesmos).
Com o confucionismo: o princípio da harmonia isomórfica, ou seja, a harmonia
interior, dentro de nós mesmos, dentro da família, da escola, do grupo de trabalho, da
sociedade, do país e da nação, da região e da civilização – cada uma destas esferas
inspirando as outras.
Com o Taoísmo: o princípio do yin-yang, o bom dentro do mau e o mau dentro do
bom – e também o mau dentro do bom dentro do mau e o bom dentro do mau dentro
do bom – e assim por diante, numa complexidade que transcende em muito o
dualismo Ocidental.
Com o Humanismo: a idéia das necessidades humanas básicas, que em certa medida
se refletem nos direitos humanos básicos como um todo. Estes são uma orientação
para as atividades humanas em geral e para a política e a economia em particular.
Eu recomendo aproveitar o melhor de cada uma das filosofias – e não perder
muito tempo lutando com estranhas e obscuras mensagens anti-paz.
Um dos principais obstáculos à cultura de paz é a cultura da guerra e da violência.
Vejamos o exemplo da mídia:
A TV demonstra bem este ponto. O fator menos importante é a exibição de violência
desenfreada, a vítima deitada numa poça de seu próprio sangue e o agressor fugindo.
O primeiro fator importante é que ninguém mostra os efeitos invisíveis da violência: o
sofrimento dos entes queridos da vítima, o trauma, o ódio, a sede de vingança e o
ufanar-se do agressor que sai livre. O segundo fator importante é que ninguém
mostra modos alternativos de lidar com o conflito – a transformação de conflitos, a
empatia, a não-violência, a criatividade. Nenhum estudo sobre a violência na TV
examinou esses três fatores de modo adequado.
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Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz – um programa da UNESCO
Há uma ligação direta entre violência interpessoal e guerras internacionais. O
jornalismo de guerra focaliza sistematicamente a violência e o ganhador, como num
jogo de futebol, deixando de fora os efeitos invisíveis e as alternativas ao conflito
armado. O jornalismo para a paz começa com duas perguntas: Qual a causa do
conflito? Quais são as soluções possíveis?
Um presidente que só consegue declarar que: “o conflito é entre o bem e o
mal” e “a solução é esmagar o mal” não sobreviveria a um questionamento mais
persistente. Estas frases não passam de propaganda de guerra e só têm eco dentro
de uma cultura de guerra.
Mas a cultura de guerra também busca justificação em coisas que foram ditas;
como aqueles que declaram ser o Povo Escolhido pelo Todo-poderoso, e prestar
contas apenas a Ele. Nesse caso a ordem mundial tem seu Deus em cima, logo
abaixo o Povo Escolhido (sem deixar lugar para leis internacionais nem direitos
humanos), depois os Aliados Escolhidos e depois o Resto (incluindo as Nações
Unidas). Estes se vêem como excepcionais, como detentores do direito, e até do
dever de desrespeitar os direitos humanos e as resoluções da ONU, não importando
se o Todo-poderoso é Iaweh, Deus ou Alá.
A paz só pode se basear na igualdade e na equidade. Uma estrutura calcada
em desigualdade, iniqüidade e assimetria fundamentais – que não dá aos outros o
que exige para si mesma – gerará problemas, mais cedo ou mais tarde. A igualdade
de direitos é uma das contribuições ocidentais à cultura de paz. O estado de exceção
é o oposto, daí ser ele antitético à paz. Isto vale para gêneros e gerações, para
grupos sociais, para estados e nações, regiões e civilizações.
A guerra se funda na Condição de Ser Escolhido, na Glória e no Trauma,
preconizados pelo dualismo, maniqueísmo e a promessa de um embate violento, e de
Armagedão. As siglas que uso para esses complexos são CGD e DMA. Hoje terroristas
fundamentalistas e estados terroristas fundamentalistas vem lançando mão delas. Por
isso: Moderados de todo o mundo, uni-vos! Só temos fundamentalistas a perder
numa cultura de paz em que imperam a Empatia, a Criatividade e a Não-violência.
O espírito humano é capaz de acomodar culturas de guerra e culturas de paz. Assim
como o corpo humano é capaz de hospedar agentes patogênicos como o perigoso HIV
e também agentes salutares como as vitaminas, o mesmo vale para a cultura de
qualquer sociedade. É preciso abrir nossos corações para o imenso significado do
espírito humano e sua aspiração por uma civilização mais pacífica e rechaçar os
agentes anti-paz.
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Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz – um programa da UNESCO

Para saber mais sobre Johan Galtung

http://www.comitepaz.org.br/Galtung.htm
http://www.transcend.org

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