O que se está conhecendo a respeito do submundo em que transitam empresários, políticos, juízes, policiais e jornalistas é apenas uma amostragem

28 de Abril de 2012 às 16:57 Hélio Doyle -Brasil 247

Cada crime tem suas circunstâncias e seus culpados. Cada julgamento é específico, na justiça não há julgamento pelo conjunto da obra, mas por fatos determinados e individualizados. Na política é diferente, não há tanta preocupação com as provas e sua legitimidade, nem com filigranas e chicanas que substituem a essência pelo acessório. A diferença é que no julgamento pelos tribunais os acusados podem ser presos, perder direitos e ter de ressarcir o Estado. Nos julgamentos políticos, podem perder mandatos eletivos e empregos, mas de modo geral o mal maior é a imagem negativa que fica após o processo. Antes mesmo dos julgamentos jurídicos e políticos, a CPI do Cachoeira já provoca situações nada confortáveis para vários personagens. O julgamento informal, pela chamada opinião pública, já começou. Entre os suspeitos de, no mínimo, malfeitos, já estão empresários, executivos, parlamentares, governadores, juízes, procuradores, assessores, policiais e jornalistas, entre outros. A lista é muito grande, mas nem todos serão processados e julgados, ou por serem mesmo inocentes ou por serem poderosos demais. A CPI vai julgá-los politicamente, nos limites de uma investigação parlamentar ditada por conveniências políticas e pela correlação de forças no Congresso. A Justiça vai julgá-los sabe lá quando, se é que vai, dependendo também de interesses do Ministério Público e da disposição de juízes. As consequências da operação da Polícia Federal que tem seu centro no empresário Carlos Cachoeira, dono de negócios lícitos e ilícitos, são os temas do momento. Mas o que a opinião pública está conhecendo a respeito do submundo em que transitam empresários, políticos, juízes, policiais e jornalistas, entre outros, é apenas uma pequena parte do que realmente acontece. Ou melhor, uma amostragem. Cachoeira não é o único empresário dono de negócios ilegais, nem que tem políticos e juízes nas mãos. A Delta não é a única empresa que ganha contratos e cresceu à custa da corrupção de homens públicos. Demóstenes Torres não é o único congressista que faz lobby para empresários e recebe dinheiro deles. Gilmar Mendes não é o único juiz cujas decisões em benefício de empresários são consideradas suspeitas. Roberto Gurgel não é o único procurador que engaveta investigações. Sérgio Cabral não é o único governador que confraterniza – ridiculamente, diga-se -- com empresários que seu estado contrata em situações duvidosas. O Palácio das Esmeraldas, em Goiânia, não é o único em que chegam envelopes recheados de dólares ou reais. Policarpo Júnior não é o único jornalista que circula em meio a criminosos e a Veja não é o único veículo que subordina a ética do jornalismo a seus interesses político-ideológicos e empresariais – embora seja o que há de mais aperfeiçoado nesse sentido. O fato de serem os fatos e personagens apenas uma amostra do que acontece no país não isenta ninguém da culpa, se comprovada. O desvendamento desta amplíssima rede de corrupção é positivo para o Brasil e tem mesmo a função pedagógica de mostrar aos brasileiros como funciona o mundo real que nem sempre aparece na imprensa. As pessoas estão, aos poucos, tomando consciência de que as coisas não são como parecem ser, que o que vemos a olho nu é apenas a ponta do iceberg. A opinião pública já está julgando, mas nem todo aparente culpado é culpado e nem todo aparente inocente é inocente. O ideal é que tivéssemos instituições políticas e judiciais que fizessem o julgamento com imparcialidade, seriedade e livres de pressões – inclusive da opinião pública --, não tão rapidamente que leve a injustiças nem tão lentamente que leve à impunidade. Infelizmente, não temos. Olhando para trás, vemos isso com clareza: quantos culpados sem punição, quantos inocentes condenados apenas pela opinião pública. E a corrução seguindo impávida.

http://brasil247.com/pt/247/poder/56860/Cachoeiras-e-icebergs.htm

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Comentário de José Roque da Silva Neto em 29 abril 2012 às 1:34

Bravo Maria Dirce, que bom ter lido este belo texto. Estava com o mesmo pensamento em ralação a CPMI (CPI só me lembra o psdb, pfl entre outras porcarias) e confesso que não estou convicto de um desfecho que amenize ou pelo menos iniba as sacanagens pregada pela imprensa golpista. Agora, cobro intensamente uma posição firme dos parlamentares do PT que foram e ainda são vítimas desses sacanas da imprensa. Um dos melhores quadros do PT teve dias atrás, seu apartamento invadido por um bandido que se dizia jornalista e até agora ficou por isso mesmo, já tá até meio esquecido. Aquela máxima de que a justica tarda mas não falta  é conversa fiada. O linchamento político pela imprensa golpista é praticamente irreversível!!

 

Abaços!!

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