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Fonte: Revista Carta Capital número 644 - 04/05/2011 - páginas 20-21.

 

Pé de página da matéria "O poder da maioria" na seção "Seu País" da revista Carta Capital


O Sociólogo e a faxineira "Por que o senhor pode ter um carro e eu não?" Ante a pergunta, Chico de Oliveira achou por bem se calar.

 

O sociólogo Chico de Oliveira não é figura de ficar atordoada. É muito convicto. Mas, outro dia foi silenciado em sua própria casa pela ex-faxineira. Ela lhe contou que compraria um carro e ouviu dele uma racional argumentação contrária.
Para o professor emérito da USP, o estrato C da sociedade brasileira não se dirige ao paraíso, como imagina: não houve distribuição de renda, mas um movimento de mercado. O aumento real foi pequeno e há o crédito e o endividamento. Já a classe A está cada dia mais rica. Logo, sua faxineira estaria iludida pelo crédito mais fácil e prestes a se atolar em débitos: prestação de carro com juros, impostos, seguro, combustível e, por fim, o trânsito paulistano. 
“Mas a resposta da faxineira atordoou esse sociólogo”, conta o próprio Chico: “Depois de ouvir todo o meu discurso, ela me perguntou: Por que o senhor pode ter um carro e eu não? Então eu me calei”, conta.
Passou dias a pensar. O ideal seria ressuscitar Karl Marx e lhe fazer profundas perguntas. Acompanhou várias pesquisas, principalmente qualitativas. E concluiu: o capitalismo absorveu o campo onde poderia haver uma luta de classes. Pior: há uma luta sim, na classe C, mas é totalmente horizontal. Ela admira as classes A e B e quer chegar lá, pela renda do trabalho, como se isso fosse possível, e disputa com seu próprio vizinho um lugar ao sol, que no caso é o consumismo.
O cauteloso caminho do céu sem lutas, prometido por Lula, é ilusório, segundo o sociólogo. “Não há nova classe social sem lutas. Ou: não existe almoço grátis”, frisa o sociólogo, lembrando: “A não ser que o governo distribuísse metade do PIB, como fazem a Holanda ou a Dinamarca”.
E continua: “Você vê que a classe C não quer tirar dos ricos, quer subir pelo valor central do trabalho. Não há ódio de classes. A violência não é contra os ricos, é mais fratricida. O concorrente dela não é o Eike Batista, Daniel Dantas, os que acumulam ou especulam o capital. É o que está lá ao lado dele”, afirma o sociólogo, ao lembrar que Marx temia que a competição se deslocasse dos capitais para os próprios trabalhadores. “Se a luta se desloca, a perspectiva é de um novo sentido da falta de solidariedade, que é oposto de uma classe social”.
Para o sociólogo que trocou o PT pelo PSOL, Lula e Dilma Rousseff tendem a faturar mais votos do eleitorado C. “Não é um voto ideológico, é individualista. Mas esse eleitor se sente parte de alguma coisa. E é como uma pedra lançada na água ( a emitir e propagar ondas). O PSDB realmente não tem futuro nesse novo estrato, a não  ser que mude muito suas práticas políticas”.

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